Short story

    Two waiters arrive with trays, ice buckets, bottles. What meal!
    “I’m completely drunk.”, “Then you stop a little because what we are going
    to do now must be done in full conscience.” José Roberto takes me to bed. He makes
    me crazy, melts me, and my heart keeps beating in my chest, my throat, my belly, how nice,
    how nice, how nice, how nice, how nice!

     

    Rubem FonsecaTwo waiters arrive with trays, ice buckets, bottles. What meal!
    “I’m completely drunk.”, “Then you stop a little because what we are going
    to do now must be done in full conscience.” José Roberto takes me to bed. He makes
    me crazy, melts me, and my heart keeps beating in my chest, my throat, my belly, how nice,
    how nice, how nice, how nice, how nice!

     

    Rubem Fonseca

     

     

    Abro o olho: Isa, bandeja, torrada, banana, café, leite, manteiga. Fico
    espreguiçando. Isa quer que eu coma. Quer que eu deite cedo. Pensa que sou criança.

     

    Depois que o marido da Isa foi embora ela ficou me marcando ainda mais. Isa diz que ele
    volta, mas eu duvido. Primeiro, ela năo era casada com o marido dela. Segundo, acho que
    eles năo se gostavam muito: Isa de vez em quando fazia programa, e ele sumia durante
    dias. Acho que agora sumiu de vez. Isa espera que o marido volte, a qualquer momento. As
    camisas dele estăo todas passadinhas na cômoda e ela mandou consertar o binóculo, o
    cara era doido por jóquei. Ela năo sai mais de casa, nem prum programa barra limpa, mas
    até agora, nada.

     

    O Renę me telefona pra fazer um programa, de noite. Eu digo que está bem. Tomo nota
    do endereço.

     

    Na praia está toda a turma. Combinam ir pro Zum Zum. Eu digo que talvez vá. Se o meu
    programa acabar cedo eu vou. Mas eu năo digo nada do meu programa para eles. Eles estăo
    por fora. Dois já dormiram comigo, mas só dois. A gente vai pra boate, dança, bebe e
    depois eu venho pra casa. É mais camaradagem que outra coisa. A gente brinca, se diverte
    e pronto.

     

    I I

     

    O apartamento é muito bonito. Nós somos quatro garotas e eles săo também quatro.
    Năo conheço nenhuma das outras meninas, mas devem ter sido mandadas também pelo Renę.
    Como ninguém conhece ninguém, começa aquela escolha chata, de sempre. Os clientes do
    Renę săo todos coroas, muito educados mas danados de lentos para se decidir.

     

    DIÁLOGO, POSSÍVEL (Mas inventado)

     

    UM COROA

     

    Meu prezado amigo

     

    Deseja ficar com a moreninha de cabelos curtos?

     

    Ainda que reconhececendo seus inegáveis encantos, minhas predileçőes se inclinam
    para a jovem loura de olhos verdes.

     

    Aceito qualquer composiçăo. Fique com a loura. Eu fico com a morena.

     

    OUTRO COROA

     

    Ora, ora, meu distinto e querido companheiro

     

    Nem por um momento pensei em privá-lo de sua eleita. Cedo-a com inexcedível prazer.

     

    A lourinha é realmente um encanto.

     

    A moreninha tem um ar melancólico que me seduz. E a loura é um ser esplęndido, cheio
    de luz que me atrai como se eu fosse uma libélula.

     

    Bebemos e conversamos. Tręs săo cariocas e um deles é paulista. O paulista é o que
    fala menos. Eu năo gosto muito de paulista, eles săo todos ignorantes e brutos e acham
    que resolvem tudo com dinheiro. Torço para o paulista năo me escolher. Ele me olha e
    quase enfio o dedo no nariz para ele ficar com nojo. Mas năo enfio, até rio para ele, um
    riso de garota tímida que eu sei fazer. Os cariocas estăo divertindo o paulista, sem
    subservięncia, devem ser todos do mesmo nível.

     

    DIÁLOGO (Verdadeiro)

     

    COROA PAULISTA

     

    EU

     

    Vocę

     

    É carioca?

     

    Gosta de quę?

     

    Gosta de que poetas?

     

    Gosta de Kafka?

     

    É a primeira miss que diz que leu Kafka e leu mesmo.

     

    Leu Pessoa, etc.?

     

    Eu

     

    Sou.

     

    Gosto de música e poesia

     

    Gosto de Fernando Pessoa, Beethoven, Lennon &

     

    McCartney. Já me chamei Lúcia McCartney.

     

    Gosto de Kafka também. Aquele pobre homem virando inseto! (Conto história chamada
    Metamorfose).

     

    Năo sou nem li. Um garoto me contou a história, chama-se metamorfose. Faz sempre um
    grande efeito nas conversas.

     

    Li Pessoa, etc.

     

    Cada qual vai para um quarto. Renę sabe que eu năo gosto de promiscuidade. Eu vou
    para o quarto com o paulista. Sento num sofá. Ele também senta. Depois deita a cabeça
    no meu colo, diz que năo está com vontade de fazer nada, “esses caras cismaram que
    eu hoje tinha que ir com uma garota pra cama, mas vamos só conversar, está O.K.?”
    Eu digo que está O.K.. Ele diz que năo quer estragar as coisas. Eu digo que está bem.
    (Quero ir para o Zum Zum). Passo a măo nos cabelos dele. “Eu năo quero fazer
    isso,” diz ele, tirando a roupa. Eu também tiro a roupa e nos deitamos, ele sempre
    dizendo que năo quer, mas me papando assim mesmo.

     

    Depois de nos lavarmos, separadamente, ele se veste pőe dinheiro na minha bolsa. Ele
    fica muito calado, com um jeito meio distraído, meio cansado, meio desinteressado como os
    coroas fazem. Vamos para a sala e os outros todos já estăo lá, pois nós perdemos muito
    tempo com aquela indecisăo dele. Estăo todos dançando. Ele me olha um pouco e diz
    “vocę pode ir embora.” Eu pergunto se ele năo quer o meu telefone e ele fica
    pensando um tempăo me olhando e olhando pra sala onde estăo os outros, o cara é mesmo
    indeciso, e depois de nem sei quanto tempo ele diz, “qual é?”

     

    Estou no Zum Zum com os garotos. De vez em quando penso no coroa. O que será que ele
    faz?

     

    I I I

     

    A coisa de que eu mais gosto no mundo é dormir. Acordar ao meio-dia e ir para a praia.
    Hoje é dia 4 de dezembro e está um sol bárbaro lá fora. Me espreguiço. Isa chega com
    uma bandeja. “Fiz uma gemada para vocę,” ela pőe o prato fundo na minha
    frente, “vocę agora só chega depois das seis, perdendo tempo com esses
    garotőes.” Eu gosto de dançar, ela năo gosta; eu gosto dos homens (bonitos,
    jovens, fortes) ela gosta do marido que nem é casado com ela e ninguém sabe onde anda;
    eu năo gosto de ficar sozinha, eu — “Isa, pelo amor de Deus!, năo
    chateia”, me levanto, ponho um disco na vitrola e começo a dançar, eu gosto de
    ficar o dia inteiro ouvindo música, eu preciso ouvir música, é igual ao ar pra mim.
    “Estou falando para o teu bem.” “Eu sei que vocę está falando para o meu
    bem.” “Ninguém agüenta essa vida que vocę está levando.” “Năo
    vejo nada de errado nela.” “Pense no futuro.” “O futuro năo me
    interessa e năo me chateia mais senăo vou-me embora.” “O José Roberto
    telefonou, o sujeito de Săo Paulo que esteve com vocę ontem.”

     

    Isa gostaria de saber coisas sobre o paulista, mas resolvo fazer mistério para ela
    deixar de ser chata. Também năo sei nada sobre esse José Roberto. Nem sabia que ele se
    chamava José Roberto. José Roberto năo é nome de coroa. Ele vai telefonar de novo.

     

    TELEFONEMA

     

    — Alô.

     

    — Quem fala?

     

    — Com quem quer falar?

     

    — Com D. Lúcia, por favor.

     

    — Quem quer falar com ela?

     

    — José Roberto.

     

    — É a Lúcia que está falando.

     

    — Como vai ? Vocę está boa ?

     

    — Bem. E o senhor?

     

    — Bem.

     

    (Ele cala a boca. Eu também calo. Fico nervosa:

     

    —Alguma novidade?

     

    — Eu queria me encontrar com vocę.

     

    — Quando?

     

    — Hoje.

     

    — A que horas?

     

    — Ŕ hora que vocę puder.

     

    — Eu posso a qualquer hora. Depois das quatro.

     

    — Vocę prefere ŕ tardinha ou ŕ noite?

     

    — Qualquer hora.

     

    — Ŕ noite, entăo. 8 horas? Podemos jantar juntos.

     

    — Está certo. O senhor passa aqui, eu passo aí, como é que é?

     

    — Vocę passa aqui.

     

    — Mesmo endereço de ontem?

     

    — É outro. Toma nota, por favor.

     

    IV

     

    Ele tem um cheiro bom e fala muito suavemente comigo. Estamos sós. Ele diz que ontem
    tinha gente demais, “eu queria ficar só com vocę.” Ele parece meio
    constrangido, como se nunca tivesse saído com uma garota de programa. Senta-se longe de
    mim. “Vocę nunca saiu com uma garota de programa antes?” “Já, já saí
    com uma porçăo, muitas, nem sei quantas.” “Entăo por que vocę fica
    fingindo?” “Năo estou fingindo coisa alguma.”

     

    Ele prepara as bebidas. Em cima da mesa da sala vejo um monte de revistas e um papel,
    José Roberto, estive aqui e năo te encontrei, telefona pra mim, beiaw6kx, Suely. Pego o
    bilhete, faço um bolinha com ele e jogo pela janela. A noite está muito escura, eu năo
    vejo o mar mas sinto o seu cheiro. De noite o mar tem um cheiro diferente, o mar muda de
    cheiro várias vezes por dia.

     

    “Pra vocę”, José Roberto me dá um vidro de perfume. Joy. Adoro perfume.
    Passo um pouco no braço. “Vocę quer ouvir música?” Ele me leva a um quarto,
    onde há um gravador imenso, coloca na minha cabeça fones que cobrem inteiramente minhas
    orelhas e ouço a música mais linda do mundo. “Espetacular, vou ficar aqui a noite
    toda.” — ele ri — “por que vocę está rindo?”, — ele
    responde, mas eu năo ouço, — “o quę? o quę?”, entăo ele tira os fones
    dos meus ouvidos: “năo precisa gritar tanto”. Com aqueles fones no ouvido a
    gente pensa que fala, mas grita, como um surdo. Isso deve ter acontecido com outras
    garotas.

     

    CENA (subjetiva)

     

    — Isso aconteceu com outras garotas?

     

    — Isso o quę?

     

    — De botar o fone nos ouvidos e ficar gritando igual uma surdinha, como eu fiz.

     

    — Năo. Aconteceu com minha măe, mas ela năo é propriamente uma garota.

     

    — Vocę tem măe?

     

    — Vocę acha que eu sou muito velho para ter măe?

     

    — E ela veio aqui?

     

    — Veio.

     

    — E vocę traz a sua măe ao mesmo lugar em que vocę traz as suas, essas…

     

    —Eu moro aqui. Quando estou no Rio. Essas o quę?

     

    — Acho que vocę está mentindo. Essas vagabundas.

     

    — Eu năo minto nunca.

     

    — E quem é a Suely?

     

    — Suely. Nunca ouvi falar em Suely.

     

    — Mentiroso.

     

    — Eu năo minto nunca.

     

    — Entăo passe bem. Adeus.

     

    — Espere. Năo me deixe. Por favor!

     

    Tiro os fones do ouvido.

     

    CENA (Verdadeira)

     

    — Isso aconteceu com outras garotas?

     

    — Isso o quę?

     

    — De botar os fones nos ouvidos e ficar gritando igual a uma surdinha como eu fiz.

     

    — Acontece sempre. Por isso eu ri.

     

    — Com todas as garotas que vęm aqui?

     

    — Todas.

     

    — Săo muitas? Milhares?

     

    — Milhares năo. Muitas.

     

    — E quem é Suely ?

     

    — É uma amiga minha.

     

    — Eu sou muito ciumenta. Joguei fora o bilhete da Suely, assim vocę năo sabe o
    telefone dela.

     

    — Eu tenho num caderninho. De qualquer forma muito obrigado pelo ciúme.

     

    — Se eu soubesse cozinhar fazia comida pra vocę. Eu queria ficar aqui.

     

    — Eu peço o jantar pelo telefone. Vocę gosta de champanha?

     

    — Qualquer coisa.

     

    Dois garçons chegam com travessa, baldes de gelo, garrafas. Que comida! “Estou no
    maior pilequinho”, “Entăo vocę pára um pouco, pois o que nós vamos fazer
    agora deve ser feito em plena conscięncia.” José Roberto me leva para o quarto.

     

    “Eu era chamada de Graveto.” “O graveto mais lindo do mundo”, diz
    ele, me beijando. Eu vou toda pra ele, me entrego, me dou, ele está dentro de mim, eu
    rezo para demorar bastante, peço “demora bastante! muito! năo acaba!” ele me
    pőe doidona, me derrete e meu coraçăo fica batendo no peito, na garganta, na barriga,
    que-bom, que-bom, que-bom, que-bom. que-bom!

     

    DIÁLOGO

     

    — Nunca vi o José Roberto. Ele telefona e diz: me manda uma garota, vocę sabe
    como eu gosto.

     

    — Como é que ele gosta?

     

    — Inteligente, bonita e depravada.

     

    — Eu năo sou depravada.

     

    — Se for muito inteligente năo precisa ser muito depravada. diz ele.

     

    — Eu gamei.

     

    (Renę dá uma gargalhada)

     

    — Que tipo de pessoa ele é?

     

    — Năo sei. Outro dia mandei um cabacinho pra ele. A garota estuda. Eles já
    estavam na cama quando ele descobriu que a garota estava matando aula. Ele ficou uma fera.
    Deu uma liçăo de moral na guria, fez ela se vestir, e prometer que năo matava mais
    aula, e mandou-a para o colégio. E pagou dobrado, sem sequer tocar nela. O cara é muito
    esquisito.

     

    V

     

    José Roberto está em Săo Paulo. Já se passaram sete dias. Isa cismou de mudar para
    Ipanema. Arranjou apartamento, comprou um fiador (desses que anunciam no jornal) e quer
    mudar ainda esta semana. Recebi carta de José Roberto.

     

    (Năo tem data, nem nada)

     

    Hoje me deu vontade de escrever para uma pessoa que năo conhecesse, ou que,
    conhecendo, nunca mais viesse a ver. Fui ao cinema e voltei para o apartamento. O filme
    era ruim. No meu caderninho tenho uma porçăo de endereços, mas năo telefonei para
    ninguém. Existe uma garota chamada Neyde, ela é bonita, inteligente. Eu sinto (ou
    sentia?) uma grande atraçăo física e mental por ela. A nossa pele combina, os nossos
    gostos combinam, os nossos órgăos sexuais combinam. Peguei o telefone para ligar para
    ela, tręs ou quatro vezes, mas năo liguei. Na mesa do telefone havia uma folha de papel
    onde eu desenhava bolas e quadrados. O estéreo estava ligado, Eleanor Rigby, chovia,
    chovia mesmo, bolas e quadrados tinham virado Lúcia, Lúcia, l u c, ucia, LÚCIA, etc.
    Năo liguei para Neide — passado passou? Solidăo é bom (mas) depois que eu me
    esvaziei com um mulher ou me enchi com uma mulher. Eu estava sozinho, e năo queria como
    sempre quis, uma mulher perto de mim, para fruí-la física e espiritualmente e depois
    mandá-la embora, e essa é a melhor parte, mandar a mulher depois embora e ficar só,
    pensando e pensando.

     

    Pensando em vocę é o que estou fazendo agora. Vocę é o meu Minotauro, sinto
    que entrei no meu labirinto. Alguém será devorado. Adeus?

     

    José Roberto

     

    Deliro com a carta de José Roberto. Acho o máximo. “Por que vocę está
    chorando?”, pergunta Isa. “Estou com saudade do José Roberto.” “Esse
    sujeito é maluco,” diz Isa depois de ler a carta, “vocę é outra maluca,
    sempre vivi rodeada de malucos, pára de chorar, sua idiota.” Isa mete a măo no
    bolso do robe (deve ter sido por isso que o marido deu o pira), e quando fica com raiva
    enfia a măo no bolso com força e arrebenta o tecido, “merda, lá se foi de novo o
    meu bolso!, sua idiota!”

     

    “Vocę acha que eu vou vę-lo novamente?”. “Vai me dizer que está
    apaixonada.” Isa acha que isto é uma besteira, que eu estou apenas entusiasmada,
    porque o José Roberto é diferente dos garotőes da turma, é mais experiente, mais
    sabido. “E olha, se por acaso ele aparecer, năo vai logo se abrindo pra ele, os
    homens năo gostam de mulher oferecida.”

     

    Combino com Isa que se o José Roberto me procurar eu vou fazer o doce, me fingir de
    desinteressada.

     

    TELEFONEMA

     

    — Alô.

     

    — José Roberto! Querido!

     

    — Como vai?

     

    — Eu vou bem. Estou com uma saudade doida de vocę.

     

    — Eu também senti saudades de vocę.

     

    — Adorei sua carta. Já li mais de cem vezes. Até na hora de tomar banho eu levo
    ela comigo pro banheiro.

     

    (Ele fica calado!)

     

    — Onde é que vocę está?

     

    — Estou no apartamento.

     

    — Vou aí te ver.

     

    — Eu estou saindo.

     

    — Eu quero te ver.

     

    — Hoje năo, năo é possível.

     

    — Por favor, eu preciso te ver.

     

    — Sinto muito, mas é impossível.

     

    — Eu estou triste, José Roberto, estou infeliz, deixa eu te ver.

     

    (Isa pega o telefone, “cavalheiro, vę se pára atormentar minha irmă, ela já
    năo regula vem e o senhor vem atrapalhar ainda mais, fique sabendo que li a sua carta, o
    senhor também é doido. Como?, ela pegou um táxi e foi para aí” — saio
    correndo para me vestir, volto para a sala. Isa irritada me passa o telefone —
    “ele disse que vocę năo pegou táxi coisa nenhuma, para eu chamar vocę senăo ele
    desliga o telefone na minha cara, o patife.”)

     

    — Eu vim aqui ver um negócio, e estou indo embora agora.

     

    — Vocę tem uma mulher aí com vocę.

     

    — Vou para Săo Paulo hoje e estarei de volta dentro de cinco dias. Dentro de
    cinco dias, aqui no meu apartamento, ŕs 8 horas.

     

    Ele tem a voz tăo bonita! Estou no Le Bateau, no meio do maior barulho, mas só ouço
    a voz dele. (No interior da minha cabeça).

     

    A turma diz que eu estou no mundo da lua, dançando de olhos fechados, e rindo sozinha.
    Eles năo sabem de nada! Năo sabem o que é o amor! Todos uns bobos.

     

    VI

     

    Já se passaram quatro dias. Nós mudamoa para Ipanema e estamos sem dinheiro, pois o
    apartamento é maior e precisa de móveis novos, e tivemos que dar um męs adiantado para
    o fiador que a Isa comprou. Isa está fazendo um programa por dia, de tarde, com uns amigo
    antigos. Ela é uma grande mulher, programa para ela năo falta, mas ela năo gosta de
    sair de noite. Acho que ela ainda está esperando pelo marido.

     

    Recebo carta do José Roberto.

     

    Solidăo é muito importante. O telefone tocava sem parar. Eu dera folga ŕs
    empregadas. A campainha da porta tocava. Fui ouvir música usando os audiofones,
    bloqueando o mundo exterior. Mas a todo instante tirava os fones dos ouvidos e SEMPRE uma
    campainha tocava, alguém me procurava quem seria? Sofreria?

     

    Resolvi sair de casa ir para um lugar onde certamente năo encontraria quem
    queria me encontrar Apenas uma das pistas do boliche estava ocupada (por tręs jovens).
    Ocupei a pista mais distante. A cada strike o apanhador de pinos batia palmas, lentamente,
    com preguiça; eu só via as pernas dele, magras, protegidas por umas calças desbotadas
    cortadas na altura dos joelhos.

     

    Uma moça chegou e sentou numa mesa próxima. Eu tentei, várias vezes, sem
    ęxito, uma jogada de efeito.

     

    “Vocę quer que eu marque para vocę?” perguntou a moça sentando-se em
    f rente ŕ minha cartela.

     

    “Pode marcar”, disse eu.

     

    Eu fiquei jogando ela marcando. Terminada a 10Ş jogada eu perguntei “vocę
    quer jogar” Ela respondeu: “Năo. Eu já joguei muito isso. Olha no quadro há
    mais de seis meses estou lá na cabeça e ninguém bate a minha contagem. Nenhuma mulher
    bem entendido.” No quadro estava escrito ELIETE 275 — 11 DE MAIO.
    “Enjoei” continuou ela “deixei crescer as unhas…”

     

    Eu joguei mais uma partida enquanto conversávamos trivialidades. Terminada a
    partida chamei o garçon, pedi uma coca botei a gravata, o paletó e a moça sumiu. Eu
    fiquei frustrado. Um desconhecido total năo te pode fazer mal. Além disso ela tinha um
    sorriso bonito, sabia falar (som) e cruzar as pernas. Botei uma nota alta na bola e mandei
    pro apanhador. Ele mostrou a cara e riu; tinha poucos dentes. Eu bati palmas pra ele, do
    jeito preguiçoso e gozador que ele tinha usado comigo.

     

    Ela estava na porta esperando por mim.

     

    “Duzentos e setenta e cinco năo é mole năo,” eu disse.

     

    “Eu jogava todo dia,” disse ela.

     

    Fomos andando.

     

    “Eliete,” eu disse.

     

    “E vocę como se chama?”

     

    “José Roberto.”

     

    “Vocę disse Eliete como quem diz o leăo é o rei dos animais.”

     

    “Vocę quer beber alguma coisa?”, perguntei.

     

    “Quero,” disse ela.

     

    Eliete usa o cabelo curto como vocę e os olhos dela tęm o mesmo brilho negro
    dos seus. É uma sensaçăo boa, ficarmos frente ŕ frente, sem pressa e sem mentira
    disponíveis, recíprocos, enquanto bebemos e o mundo flui suavemente.

     

    Estou com muitas saudades de vocę. Lúcia. Lúcia. O leăo é o rei dos animais?

     

    José Roberto

     

    É tăo bom a gente receber uma carta dessas, inteligente. Uma vez eu briguei com um
    namorado que teve a audácia de me escrever uma carta que começava dizendo: espero que
    estas mal traçadas linhas, etc. Năo pude nem olhar mais para a cara dele. José Roberto
    me faz pensar. Ele acredita que eu posso pensar, que eu sei pensar. Será que ele foi para
    a cama com a moça do boliche? Deve ter ido. Ah, meu Deus, eu podia estar lá com ele,
    marcando o jogo de boliche dele, no lugar daquela piranha. Parecida comigo! Vou cortar meu
    cabelo ŕ joăozinho, curtinho, só eu vou ter esta cara, ele vai ver.

     

    VII

     

    Chego no apartamento antes de oito horas. Ele me recebe com uma revista americana na
    măo. Me dá uma vontade de rir, quando o vejo, e rio, abraçada a ele, feliz. José
    Roberto sorri apenas, divertido e surpreendido, com o meu entusiasmo e com minha cara
    nova. Ele passa a măo na minha cabeça, tenta segurar meus cabelos, eu solto minha
    cabeça, sempre abraçada nele, meu corpo grudado no corpo dele, fervendo. “Quantos
    anos vocę tem ?” Ele tem 36 anos mas eu năo me incomodo, ele pode ser coroa mas é
    melhor que todos os outros. “E vocę?” “Dezoito anos”, repete ele,
    lentamente, como se estivesse dizendo uma palavra mágica.

     

    “Saí todas as noites, do Zum Zum para o Le Bateau, do Le Bateau para o Sachinha,
    todas as noites, vocę năo se incomoda?” ”Vocę é que sabe o que pode e o que năo
    pode fazer.” “Eu quero te fazer ciúme.” Ele ri, misteriosamente, me beija
    no rosto, năo sei o que ele está pensando ou sentindo, mas ciúme certamente năo existe
    no coraçăo (e na cabeça) dele.

     

    Eu năo quero saber o que ele faz. Ele diz que talvez seja espiăo russo (ou americano)
    ou trapezista de circo ou poeta ou fotógrafo ou farmacęutico Ele pode ser isto tudo, ou
    outra coisa qualquer. Ele é estranho, ŕs vezes fala no telefone em inglęs, francęs e
    creio que uma vez em alemăo. Ou portuguęs, frases curtas, enigmáticas. Mas nada disso
    me incomoda, ele pode ser o que bem entender, o segredo me atrai ainda mais.

     

    Ir para a cama com ele é cada vez melhor. Ele sabe amar, me deixa louca, horas
    seguidas. Me deixa mortinha — durmo direto e quando acordo ele está calmamente lendo
    um livro, ou fumando cachimbo e ouvindo música naqueles fones dele, pronto pra me amar de
    novo.

     

    Amanhă ele vai para Săo Paulo, ou Buenos Aires ou Lima, o assunto năo ficou bem
    esclarecido. É meia noite e ele diz que tem o que fazer, que tem que sair. Isso apenas,
    “tenho que sair.” Coloca um monte de dinheiro na minha bolsa: “para vocę
    ir ŕ boate.” Descemos juntos, ele carregando uma pasta. José Roberto me beija no
    rosto e me pőe num táxi. Nesse instante vejo um enorme carro negro se aproximar, e José
    Roberto entrar dentro dele. O sinal fechado coloca o meu táxi ao lado do carro dele. O
    chofer dele está todo de preto, boné preto, roupa preta e tem uma cara dura. José
    Roberto me vę, eu aceno para ele. Ele acena de volta, alheio, distante, fechando os dedos
    sobre a măo espalmada, como faz a rainha da Inglaterra no cinema.

     

    DIÁLOGO (Inventado, depois de um sonho)

     

    CLIENTE (José Roberto)

     

    Por que vocę

     

    faz programa?

     

    é prostituta?

     

    vai para a cama com os homens?

     

    PROSTITUTA ( Eu )

     

    Porque

     

    ganho pouco

     

    no escritório

     

    na loja

     

    na TV

     

    me perdi

     

    gosto

     

    perdi meu emprego

     

    tenho um filhinho para sustentar

     

    estou esperando uma nomeaçăo

     

    Eu năo sou prostituta

     

    Vocę năo vai tirar a roupa, benzinho?

     

    CLIENTE (José Roberto)

     

    O dinheiro que vocę ganha é

     

    fácil?

     

    muito?

     

    vil?

     

    Vocę sabe o que é complexo de Édipo?

     

    Já ouviu falar em

     

    Freud?

     

    Sófocles?

     

    Daqui a pouco eu tiro

     

    PROSTITUTA (Eu)

     

    Ganho

     

    Regularmente

     

    Mais do que uma datilógrafa

     

    Mais do que um gerente de banco

     

    Mais do que uma operária

     

    Mais do que um coronel do exército

     

    Conheço os dois mas prefiro o Sócrates (porque tomou cicuta)

     

    Vocę năo vai tirar a roupa, benzinho?

     

    CLIENTE (José Roberto)

     

    Daqui a pouco eu tiro.

     

    A prostituta é uma mulher imoral?

     

    PROSTITUTA (Eu)

     

    Năo tenho vergonha de ser prostituta.

     

    Meu trabalho năo é pior do que

     

    o de uma lavadeira que lava cuecas

     

    o de uma massagista

     

    o de uma arrumadeira que limpa banheiros

     

    o de uma dentista

     

    o de uma ginecologista

     

    O que vocę acha do amor livre?

     

    Vocę năo vai tirar a roupa, benzinho?

     

    CLIENTE (José Roberto)

     

    O amor livre

     

    năo acabará com a prostituiçăo

     

    é uma iniqüidade

     

    é injusto

     

    com os feios

     

    com os pobres diabos

     

    com os pobres de espírito

     

    com os pobres

     

    deixa vocę na măo se vocę năo é

     

    artista de cinema

     

    bonito

     

    conquistador

     

    rico

     

    poderoso

     

    famoso

     

    Daqui a pouco eu tiro.

     

    PROSTITUTA (Eu)

     

    Vocę năo vai tirar a roupa, benzinho?

     

    CLIENTE (José Roberto)

     

    Daqui a pouco eu tiro.

     

    PROSTITUTA (Eu)

     

    Minha vida dá um romance

     

    lindo

     

    triste

     

    edificante

     

    pornográfico

     

    novo

     

    hermético

     

    dá samba (de festival)

     

    é de amargar

     

    é um punhal de dois gumes fatais

     

    amar é sofrer

     

    năo amar é sofrer mais

     

    Vocę năo vai tirar a roupa, benzinho?

     

    CLIENTE (José Roberto)

     

    Quais os melhores clientes?

     

    Daqui a pouco eu tiro.

     

    PROSTITUTA (Eu)

     

    Vocę — é o melhor cliente.

     

    Vocę năo vai tirar a roupa, benzinho.

     

    (O cliente tira a roupa e debaixo da camisa tem outra camisa e debaixo da calça tem
    outra calça e debaixo do sapato tem outro sapato. As roupas já estăo batendo no teto.
    José Roberto continua tirando roupas do corpo com rapidez cada vez maior e dizendo
    importantes coisas, em alemăo.)

     

    CARTA (Recontituiçăo mnemônica)

     

    Ilmo. Sr.

     

    Isaac Zaltman

     

    Programa HOJE É DIA DE ROCK

     

    Rádio Mayrink Veiga

     

    Nesta

     

    Prezado Sr. Zaltman

     

    Sempre ouço o seu programa HOJE É DIA DE ROCK, o melhor do rádio brasileiro.
    Muito obrigado por transmitir diariamente a música dos THE BEATLES. Continue sempre
    assim.

     

    Lúcia McCartney

     

    CARTA (ipsis litteris)

     

    “Palavras, palavras, palavras,” diz Hamlet para Polonius no segundo
    ato.

     

    Palavras, palavras, palavras, dirá vocę, vítima também da mesma dúvida
    existencial do personagem shakespeariano, ao ler esta carta.

     

    Um dos poemas de John Lennon conta a história de uma moça que abandona a
    família em busca de fun. “Ela tinha tudo,” dizem os pais perplexos ao lerem a
    carta de despedida. É uma sexta-feira, a moça saiu sub-repticiamente, apertando o lenço
    de encontro ao peito e sentindo năo ter podido dizer na carta tudo aquilo que pretendia.
    Tem um encontro marcado com um homem que representa para ela, fun, alegria, diversăo.
    “Fun is the one thing that money can’t buy”. A letra inteira está na capa do
    disco. Vocę já deve conhecę-la. A música do teu irmăo (ou ex-noivo?) McCartney é
    muito bonita também.

     

    Vocę saiu de casa (que era um edifício de tijolos convençőes e miséria) para
    entrar num circuito fechado, sem ar e sem luz, como o túnel de uma toupeira. Túnel que
    năo pode ser o caminho da libertaçăo individual que vocę talvez estivesse procurando.

     

    Enfrente a realidade com suas dificuldades e asperezas.

     

    José Roberto

     

    “Sujeito pernóstico e besta,” diz Isa depois de ler a carta. “Ele é
    mais besta e mascarado do que maluco. Faroleiro. Velho desfrutável. Atrevido.”
    “Ele năo é ve1ho.” Isa tem marcaçăo com o José Roberto. Ela acha que se ele
    gostasse de mim ele se tornava uma espécie de protetor meu. Horrível, essa palavra. Meu
    protetor. Meu coronel. Se pudesse, eu era o coronel dele. Coitada da Isa. Eu năo preciso
    de protetor, preciso de amor.

     

    Mas começou tudo errado. O túnel é eu ser uma puta? A libertaçăo individual é ser
    bem comportado? Ter um emprego decente? Ele năo me entende, meu Deus, como é possível
    isso, se ele năo me entende, quem vai me entender? “Chora, manteiga derretida,”
    diz Isa, saindo do quarto, batendo a porta.

     

    Isa está cada vez pior, reclamando que eu chego tarde (ou cedo) todo dia. Estou muito
    infeliz e queria ver José Roberto. Passo os dias escrevendo cartas. (Para o José
    Roberto). Assim que acordo (meio-dia) começo a escrever cartas. (Que năo mando). Hoje
    estou muito angustiada. Ele năo precisava me dar adeusinho como se eu fosse um súdito
    (uma súdita?).

     

    MINHOCA ENROLADA NO MEU PESCOÇO — LAGARTIXA ANDANDO NO MEU PEITO — BARATA
    ENROSCADA NOS MEUS CABELOS — RATO ROENDO A MINHA BOCA:

     

    DIÁLOGO

     

    — José Roberto esteve aqui.

     

    — A que horas?

     

    — De tarde.

     

    — De tarde? Mas ele sabia que hoje eu tinha a primeira aula do curso de inglęs.

     

    — Ele vai embora, Lúcia. Veio deixar um cheque para vocę. Disse que vai ficar
    anos e anos fora.

     

    — Anos e anos? Ele disse isso?

     

    — Disse que talvez nem voltasse. Ele disse, eu năo sou dono de mim, nem de
    ninguém, diga isso a ela.

     

    — O que significa essa frase?

     

    — Năo sei.

     

    — Ele estava triste?

     

    — Năo sei. A cara dele năo dizia nada.

     

    — Năo acredito, năo acredito. Ele me ama.

     

    — Fala devagar! Năo estou te entendendo.

     

    “Seis horas da manhă, isso é hora de chegar em casa,” repete Isa. Eu grito:
    “Vou embora, vou passar um belo fim-de-semana longe de tudo, onde ninguém me
    chateie, vou sumir, se o José Roberto telefonar (de onde?) diz que eu morri. eu tenho que
    ir embora, Isa, do contrário quando ele chegar (de onde?) e ligar para mim eu saio
    rastejando, juro, estou sentindo dor no corpo todo de tanta saudade desse homem.”

     

    Isa: “estou cercada de doidos por todos os lados.”

     

    VIII

     

    Em Săo Paulo, na casa da minha tia. Estou aqui há uma semana. A geladeira tem um
    cadeado. Minha tia chama a parte da casa onde vivem as empregadas de edílica. O
    passatempo dela (minha tia) é falar mal das empregadas, dos vizinhos, do governo, do
    marido e dos artistas de cinema, rádio e televisăo. Meu tio chega diariamente por volta
    das sete horas, com o Estado de Săo Paulo debaixo do braço e diz sempre a mesma frase:
    “uf, que dia, nem tive tempo de ler o jornal,” sempre com a mesma inflexăo e a
    mesma falta de significado ou destinatário. (Como o jornal, que no fim de semana é
    vendido a peso pela minha tia).

     

    Meu tio liga a televisăo.

     

    CENA (Verdadeira, com pequenas adaptaçőes)

     

    LOCUTOR: O Presidente da República pede a uniăo de todos os brasileiros!

     

    MEU TIO: Este país năo tem jeito!

     

    MINHA TIA: Săo todos uns ladrőes!

     

    MEU TIO: Quem paga somos nós!

     

    LOCUTOR: Gloriosos destinos da naçăo brasileira!

     

    MINHA TIA: O dinheiro vai para as amantes e para os parentes!

     

    (Mesa do jantar)

     

    MINHA TIA: A filha está grávida e eles querem esconder, pensando que os outros săo
    imbecis!

     

    MEU TIO: Coitados!? A filha única!

     

    MINHA TIA: Coitados!? Só năo viu o que ia acontecer quem năo quis. Aquela sirigaita
    năo podia acabar de outro jeito!

     

    (De volta ŕ sala de televisăo)

     

    CANTORA: Larali, laralá, etc.

     

    MINHA TIA: Larali, laralá mas foi presa pela polícia tomando as tais bolinhas!

     

    MEU TIO: Fulana?!

     

    MINHA TIA: Fulana sim senhor! Vocę năo sabe nada. Gastaram uma fortuna para abafar o
    escândalo!

     

    Hoje é o sétimo dia do meu desterro. Sou a mulher mais infeliz do mundo. Năo tenho
    pai nem măe. (Mas até acho bom eles terem morrido, para năo ficarem iguais aos meus
    tios. Pai e măe năo fazem falta. Irmăo faz, foi por isso que eu arranjei a Isa pra
    irmă, ela é um pouquinho burra e chata, mas é minha irmă, năo no sangue, no
    coraçăo).

     

    Passo os dias e as noites ouvindo música no rádio de pilha e escrevendo cartas.
    Querido José Roberto eu te amo eu te amo eu te amo eu te amo eu te amo eu te amo eu te
    amo eu te amo eu te amo. RASGO. Querido José Roberto. Năo posso viver sem vocę, quero
    ficar perto de vocę, pode ser como empregada ou cozinheira ou engraxate ou lavadeira ou
    tapete ou cachimbo ou chinelo ou cachorro ou barata ou rato, qualquer coisa da sua casa,
    vocę năo precisa falar comigo, nem olhar para mim. RASGO. Na casa dele năo tem barata,
    cachorro, rato. Cachorro tem acento circunflexo? Circunflexo tem acento circunflexo? Sou
    muito ignorante para escrever para ele. (Esqueço que nem sei onde ele está).

     

    Năo sei onde ele está.

     

    Meu coraçăo está negro. O ar que eu respiro atravessa um caminho de carne podre
    cancerosa que começa no nariz e termina com uma pontada em algum lugar nas minhas costas.
    Quando penso em José Roberto um raio de luz corta o meu coraçăo. Ilumina e dói. As
    vezes penso que minha única saída é o suicídio. Fogo ŕs vestes? Barbitúricos? Pulo
    da janela? Hoje ŕ noite vou ŕ boate.

     

     

     

    This short story was originally published under the title “Lúcia
    McCartney” on Lúcia McCartney, Olivé Editor

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