Short story

    The Alienist

    Simăo Bacamarte explained that Dona Evarista possessed
    first-class physiological and anatomical conditions, she digested with
    ease, slept well, had a good pulse, and excellent sight; she was thus fit
    to give him robust, healthy and smart children.

    Machado de Assis

    I

     

    Simăo Bacamarte explained that Dona Evarista possessed
    first-class physiological and anatomical conditions, she digested with
    ease, slept well, had a good pulse, and excellent sight; she was thus fit
    to give him robust, healthy and smart children.

    Machado de Assis

    I

     

     

    De como Itaguaí ganhou uma casa de Orates

     

    As crônicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali
    um certo médico, o Dr. Simăo Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior
    dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra
    e Pádua. Aos trinta e quatro anos regressou ao Brasil, năo podendo el-rei
    alcançar dele que ficasse em Coimbra, regendo a universidade, ou em Lisboa,
    expedindo os negócios da monarquia.

    — A cięncia, disse ele a Sua majestade, é o meu emprego único; Itaguaí
    é o meu universo.

    Dito isto, meteu-se em Itaguaí, e entregou-se de corpo e alma ao estudo
    da cięncia, alternando as curas com as leituras, e demonstrando os teoremas
    com cataplasmas. Aos quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas,
    senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e năo bonita nem
    simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e năo menos
    franco, admirou-se de semelhante escolha e disse-lho. Simăo Bacamarte explicou-lhe
    que D. Evarista reunia condiçőes fisiológicas e anatômicas de primeira
    ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e
    excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, săos e
    inteligentes. Se além dessas prendas, — únicas dignas de preocupaçăo de
    um sábio, D. Evarista era mal composta de feiçőes, longe de lastimá-lo,
    agradecia-o a Deus, porquanto năo corria o risco de preterir os interesses
    da cięncia na contemplaçăo exclusiva, miúda e vulgar da consorte.

    D. Evarista mentiu ŕs esperanças do Dr. Bacamarte, năo lhe deu filhos
    robustos nem mofinos. A índole natural da cięncia é a longanimidade; o
    nosso médico esperou tręs anos, depois quatro, depois cinco. Ao cabo desse
    tempo fez um estudo profundo da matéria, releu todos os escritores árabes
    e outros, que trouxera para Itaguaí, enviou consultas ŕs universidades
    italianas e alemăs, e acabou por aconselhar ŕ mulher um regímen alimentício
    especial. A ilustre dama, nutrida exclusivamente com a bela carne de porco
    de Itaguaí, năo atendeu ŕs admoestaçőes do esposo; ŕ sua resistęncia —
    explicável, mas inqualificável, — devemos a total extinçăo da dinastia
    dos Bacamartes.

    Mas a cięncia tem o inefável dom de curar todas as mágoas; o nosso médico
    mergulhou inteiramente no estudo e na prática da medicina. Foi entăo que
    um dos recantos desta lhe chamou especialmente a atençăo, — o recanto
    psíquico, o exame da patologia cerebral. Năo havia na colônia, e ainda
    no reino, uma só autoridade em semelhante matéria, mal explorada, ou quase
    inexplorada. Simăo Bacamarte compreendeu que a cięncia lusitana, e particularmente
    a brasileira, podia cobrir-se de “louros imarcescíveis”, — expressăo
    usada por ele mesmo, mas em um arroubo de intimidade doméstica; exteriormente
    era modesto, segundo convém aos sabedores.

    — A saúde da alma, bradou ele, é a ocupaçăo mais digna do médico.

    — Do verdadeiro médico, emendou Crispim Soares, boticário da vila,
    e um dos seus amigos e comensais.

    A vereança de Itaguaí, entre outros pecados de que é argüida pelos cronistas,
    tinha o de năo fazer caso dos dementes. Assim é que cada louco furioso
    era trancado em uma alcova, na própria casa, e, năo curado, mas descurado,
    até que a morte o vinha defraudar do benefício da vida; os mansos andavam
    ŕ solta pela rua. Simăo Bacamarte entendeu desde logo reformar tăo ruim
    costume; pediu licença ŕ câmara para agasalhar e tratar no edifício que
    ia construir todos os loucos de Itaguaí e das demais vilas e cidades, mediante
    um estipęndio, que a câmara lhe daria quando a família do enfermo o năo
    pudesse fazer. A proposta excitou a curiosidade de toda a vila, e encontrou
    grande resistęncia, tăo certo é que dificilmente se desarraigam hábitos
    absurdos, ou ainda maus. A idéia de meter os loucos na mesma casa vivendo
    em comum, pareceu em si mesma sintoma de demęncia e năo faltou quem o insinuasse
    ŕ própria mulher do médico.

    — Olhe, D. Evarista, disse-lhe o padre Lopes, vigário do lugar, veja
    se seu marido dá um passeio ao Rio de Janeiro. Isto de estudar sempre,
    sempre, năo é bom, vira o juízo.

    D. Evarista ficou aterrada. Foi ter com o marido, disse-lhe “que
    estava com deseaw6kx”, um principalmente, o de vir ao Rio de Janeiro
    e comer tudo o que a ele lhe parecesse adequado a certo fim. Mas aquele
    grande homem, com a rara sagacidade que o distinguia, penetrou a intençăo
    da esposa e redargüiu-lhe sorrindo que năo tivesse medo. Dali foi ŕ câmara,
    onde os vereadores debatiam a proposta, e defendeu-a com tanta eloqüęncia,
    que a maioria resolveu autorizá-lo ao que pedira, votando ao mesmo tempo
    um imposto destinado a subsidiar o tratamento, alojamento e mantimento
    dos doidos pobres. A matéria do imposto năo foi fácil achá-la; tudo estava
    tributado em Itaguaí. Depois de longos estudos, assentou-se em permitir
    o uso de dois penachos nos cavalos dos enterros. Quem quisesse emplumar
    os cavalos de um coche mortuário pagaria dois tostőes ŕ câmara, repetindo-se
    tantas vezes esta quantia quantas fossem as horas decorridas entre a do
    falecimento e a da última bęnçăo na sepultura. O escrivăo perdeu-se nos
    cálculos aritméticos do rendimento possível da nova taxa; e um dos vereadores,
    que năo acreditava na empresa do médico, pediu que se relevasse o escrivăo
    de um trabalho inútil.

    — Os cálculos năo săo precisos, disse ele, porque o Dr. Bacamarte năo
    arranja nada. Quem é que viu agora meter todos os doidos dentro da mesma
    casa?

    Enganava-se o digno magistrado; o médico arranjou tudo. Uma vez empossado
    da licença começou logo a construir a casa. Era na Rua Nova, a mais bela
    rua de Itaguaí naquele tempo; tinha cinqüenta janelas por lado, um pátio
    no centro, e numerosos cubículos para os hóspedes. Como fosse grande arabista,
    achou no Corăo que Maomé declara veneráveis os doidos, pela consideraçăo
    de que Alá lhes tira o juízo para que năo pequem. A idéia pareceu-lhe bonita
    e profunda, e ele a fez gravar no frontispício da casa; mas, como tinha
    medo ao vigário, e por tabela ao bispo, atribuiu o pensamento a Benedito
    VIII, merecendo com essa fraude aliás pia, que o padre Lopes lhe contasse,
    ao almoço, a vida daquele pontífice eminente.

    A Casa Verde foi o nome dado ao asilo, por alusăo ŕ cor das janelas,
    que pela primeira vez apareciam verdes em Itaguaí. Inaugurou-se com imensa
    pompa; de todas as vilas e povoaçőes próximas, e até remotas, e da própria
    cidade do Rio de Janeiro, correu gente para assistir ŕs cerimônias, que
    duraram sete dias. Muitos dementes já estavam recolhidos; e os parentes
    tiveram ocasiăo de ver o carinho paternal e a caridade cristă com que eles
    iam ser tratados. D. Evarista, contentíssima com a glória do marido, vestiu-se
    luxuosamente, cobriu-se de jóias, flores e sedas. Ela foi uma verdadeira
    rainha naqueles dias memoráveis; ninguém deixou de ir visitá-la duas e
    tręs vezes, apesar dos costumes caseiros e recatados do século, e năo só
    a cortejavam como a louvavam; porquanto, — e este fato é um documento
    altamente honroso para a sociedade do tempo, — porquanto viam nela a feliz
    esposa de um alto espírito, de um varăo ilustre, e, se lhe tinham inveja,
    era a santa e nobre inveja dos admiradores.

    Ao cabo de sete dias expiraram as festas públicas; Itaguaí tinha finalmente
    uma casa de Orates.

     

    II

     

     

    Torrentes de loucos

     

    Tręs dias depois, numa expansăo íntima com o boticário Crispim Soares,
    desvendou o alienista o mistério do seu coraçăo.

    — A caridade, Sr. Soares, entra decerto no meu procedimento, mas entra
    como tempero, como o sal das coisas, que é assim que interpreto o dito
    de S. Paulo aos Coríntios: “Se eu conhecer quanto se pode saber, e
    năo tiver caridade, năo sou nada.” O principal nesta minha obra da
    Casa Verde é estudar profundamente a loucura, os seus diversos graus, classificar-lhe
    os casos, descobrir enfim a causa do fenômeno e o remédio universal. Este
    é o mistério do meu coraçăo. Creio que com isto presto um bom serviço ŕ
    humanidade.

    — Um excelente serviço, corrigiu o boticário.

    — Sem este asilo, continuou o alienista, pouco poderia fazer; ele dá-me,
    porém, muito maior campo aos meus estudos.

    — Muito maior, acrescentou o outro.

    E tinha razăo. De todas as vilas e arraiais vizinhos afluíam loucos
    ŕ Casa Verde. Eram furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a
    família dos deserdados do espírito. Ao cabo de quatro meses, a Casa Verde
    era uma povoaçăo. Năo bastaram os primeiros cubículos; mandou-se anexar
    uma galeria de mais trinta e sete. O padre Lopes confessou que năo imaginara
    a existęncia de tantos doidos no mundo, e menos ainda o inexplicável de
    alguns casos. Um, por exemplo, um rapaz bronco e vilăo, que todos os dias,
    depois do almoço, fazia regularmente um discurso acadęmico, ornado de tropos,
    de antíteses, de apóstrofes, com seus recamos de grego e latim, e suas
    borlas de Cícero, Apuleio e Tertuliano. O vigário năo queria acabar de
    crer. Quę! um rapaz que ele vira, tręs meses antes, jogando peteca na rua!

     

    — Năo digo que năo, respondia-lhe o alienista; mas a verdade é o que
    Vossa Reverendíssima está vendo. Isto é todos os dias.

    — Quanto a mim, tornou o vigário, só se pode explicar pela confusăo
    das línguas na torre de Babel, segundo nos conta a Escritura; provavelmente,
    confundidas antigamente as línguas, é fácil trocá-las agora, desde que
    a razăo năo trabalhe…

    — Essa pode ser, com efeito, a explicaçăo divina do fenômeno, concordou
    o alienista depois de refletir um instante, mas năo é impossível que haja
    também alguma razăo humana, e puramente científica, e disso trato…

    — Vá que seja, e fico ansioso. Realmente!

    Os loucos por amor eram tręs ou quatro, mas só dois espantavam pelo
    curioso do delírio. O primeiro, um falcăo, rapaz de vinte cinco anos, supunha-se
    estrela-d’alva, abria os braços e alargava as pernas, para dar-lhes certa
    feiçăo de raios, e ficava assim horas esquecidas a perguntar se o sol já
    tinha saído para ele recolher-se. O outro andava sempre, sempre, sempre,
    ŕ roda das salas ou do pátio, ao longo dos corredores ŕ procura do fim
    do mundo. Era um desgraçado, a quem a mulher deixou por seguir um peralvilho.
    Mal descobrira a fuga, armou-se de uma garrucha, e saiu-lhes no encalço,
    achou-os duas horas depois, ao pé de uma lagoa, matou-os a ambos com os
    maiores requintes de crueldade.

    O ciúme satisfez-se, mas o vingado estava louco. E entăo começou aquela
    ânsia de ir ao fim do mundo ŕ cata dos fugitivos.

    A mania das grandezas tinha exemplares notáveis. O mais notável era
    um pobre diabo, filho de um algibebe, que narrava ŕs paredes (porque năo
    olhava nunca para nenhuma pessoa) toda a sua genealogia, que era esta:

    — Deus engendrou um ovo, o ovo engendrou a espada, a espada engendrou
    Davi, Davi engendrou a púrpura, a púrpura engendrou o duque, o duque engendrou
    o marquęs, o marquęs engendrou o conde, que sou eu.

    Dava uma pancada na testa, um estalo com os dedos, e repetia cinco,
    seis vezes seguidas:

    — Deus engendrou um ovo, o ovo, etc.

    Outro da mesma espécie era um escrivăo, que se vendia por mordomo do
    rei; outro era um boiadeiro de Minas, cuja mania era distribuir boiadas
    a toda a gente, dava trezentas cabeças a um, seiscentas a outro, mil e
    duzentas a outro, e năo acabava mais. Năo falo dos casos de monomania religiosa;
    apenas citarei um sujeito que, chamando-se Joăo de Deus, dizia ser o deus
    Joăo, e prometia o reino dos céus a quem o adorasse e as penas do inferno
    aos outros; e depois desse, o licenciado Garcia, que năo dizia nada, porque
    imaginava que no dia em que chegasse a proferir uma só palavra, todas as
    estrelas se despregariam do céu e abrasariam a terra; tal era o poder que
    recebera de Deus.

    Assim o escrevia ele no papel que o alienista lhe mandava dar, menos
    por caridade do que por interesse científico.

    Que, na verdade, a pacięncia do alienista era ainda mais extraordinária
    do que todas as manias hospedadas na Casa Verde; nada menos que assombrosa.
    Simăo Bacamarte começou por organizar um pessoal de administraçăo; e, aceitando
    esta idéia ao boticário Crispim Soares, aceitou-lhe também dois sobrinhos,
    a quem incumbiu da execuçăo de um regimento que lhes deu, aprovado pela
    Câmara, da distribuiçăo da comida e da roupa, e assim também da escrita,
    etc. Era o melhor que podia fazer, para somente cuidar do seu ofício. —
    A Casa Verde, disse ele ao vigário, é agora uma espécie de mundo, em que
    há o governo temporal e governo espiritual. E o padre Lopes ria
    deste pio trocado, — e acrescentava, — com o único fim de dizer também
    uma chalaça: — Deixe estar, deixe estar, que hei de mandá-lo denunciar
    ao papa.

    Uma vez desonerado da administraçăo, o alienista procedeu a uma vasta
    classificaçăo dos seus enfermos. Dividiu-os primeiramente em duas classes
    principais: os furiosos e os mansos; daí passou ŕs subclasses, monomanias,
    delírios, alucinaçőes diversas. Isto feito, começou um estudo acurado e
    contínuo; analisava os hábitos de cada louco, as horas de acesso, as aversőes,
    as simpatias, as palavras, os gestos, as tendęncias; inquiria da vida dos
    enfermos, profissăo, costumes, circunstâncias da revelaçăo mórbida, acidentes
    da infância e da mocidade, doenças de outra espécie, antecedentes na família,
    uma devassa, enfim, como a năo faria o mais atilado corregedor. E cada
    dia notava uma observaçăo nova, uma descoberta interessante, um fenômeno
    extraordinário. Ao mesmo tempo estudava o melhor regímen, as substâncias
    medicamentosas, os meios curativos e os meios paliativos, năo só os que
    vinham nos seus amados árabes, como os que ele mesmo descobria, ŕ força
    da sagacidade e pacięncia. Ora, todo esse trabalho levara-lhe o melhor
    e o mais do tempo. Mal dormia e mal comia; e, ainda comendo, era como se
    trabalhasse, porque ora interrogava um texto antigo, ora ruminava uma questăo,
    e ia muitas vezes de um cabo a outro do jantar sem dizer uma só palavra
    a D. Evarista.

     

    III

     

     

    Deus sabe o que faz

     

    A ilustre dama, ao fim de dois meses, achou-se a mais desgraçada das
    mulheres; caiu em profunda melancolia, ficou amarela, magra, comia pouco
    e suspirava a cada canto. Năo ousava fazer-lhe nenhuma queixa ou reproche,
    porque respeitava nele o seu marido e senhor, mas padecia calada, e definhava
    a olhos vistos. Um dia, ao jantar, como lhe perguntasse o marido o que
    é que tinha, respondeu tristemente que nada; depois atreveu-se um pouco,
    e foi ao ponto de dizer que se considerava tăo viúva como dantes. E acrescentou:

    — Quem diria nunca que meia dúzia de lunáticos…

    Năo acabou a frase; ou antes, acabou-a levantando os olhos ao teto,
    — os olhos, que eram a sua feiçăo mais insinuante — negros, grandes,
    lavados de uma luz úmida, como os da aurora. Quanto ao gesto, era o mesmo
    que empregara no dia em que Simăo Bacamarte a pediu em casamento. Năo dizem
    as crônicas se D. Evarista brandiu aquela arma com o perverso intuito de
    degolar de uma vez a cięncia, ou, pelo menos, decepar-lhe as măos; mas
    a conjetura é verossímil. Em todo caso, o alienista năo lhe atribuiu intençăo.
    E năo se irritou o grande homem, năo ficou sequer consternado. O metal
    de seus olhos năo deixou de ser o mesmo metal, duro, liso, eterno, nem
    a menor prega veio quebrar a superfície da fronte quieta como a água de
    Botafogo. Talvez um sorriso lhe descerrou os lábios, por entre os quais
    filtrou esta palavra macia como o óleo do Cântico :

    — Consinto que vás dar um passeio ao Rio de Janeiro.

    D. Evarista sentiu faltar-lhe o chăo debaixo dos pés. Nunca dos nuncas
    vira o Rio de Janeiro, que posto năo fosse sequer uma pálida sombra do
    que hoje é, todavia era alguma coisa mais do que Itaguaí. Ver o Rio de
    Janeiro, para ela, equivalia ao sonho do hebreu cativo. Agora, principalmente,
    que o marido assentara de vez naquela povoaçăo interior, agora é que ela
    perdera as últimas esperanças de respirar os ares da nossa boa cidade;
    e justamente agora é que ele a convidara a realizar os seus deseaw6kx de
    menina e moça. D. Evarista năo pôde dissimular o gosto de semelhante proposta.
    Simăo Bacamarte pegou-lhe a măo e sorriu, — um sorriso tanto quanto filosófico,
    além de conjugal, em que parecia traduzir-se este pensamento: — “Năo
    há remédio certo para as dores da alma; esta senhora definha, porque lhe
    parece que a năo amo; dou-lhe o Rio de Janeiro, e consola-se.” E porque
    era homem estudioso tomou nota da observaçăo.

    Mas um dardo atravessou o coraçăo de D. Evarista. Conteve-se, entretanto;
    limitou-se a dizer ao marido que, se ele năo ia năo iria também, porque
    năo havia de meter-se sozinha pelas estradas.

    — Irá com sua tia, redargüiu o alienista.

    Note-se que D. Evarista tinha pensado nisso mesmo; mas năo quisera pedi-lo
    nem insinuá-lo, em primeiro lugar porque seria impor grandes despesas ao
    marido, em segundo lugar porque era melhor, mais metódico e racional que
    a proposta viesse dele.

    — Oh! mas o dinheiro que será preciso gastar! suspirou D. Evarista
    sem convicçăo.

    — Que importa? Temos ganho muito, disse o marido. Ainda ontem o escriturário
    prestou-me contas. Queres ver?

    E levou-a aos livros. D. Evarista ficou deslumbrada. Era uma via-láctea
    de algarismos. E depois levou-a ŕs arcas, onde estava o dinheiro.

    Deus! eram montes de ouro, eram mil cruzados sobre mil cruzados, dobrőes
    sobre dobrőes; era a opulęncia.

    Enquanto ela comia o ouro com os seus olhos negros, o alienista fitava-a,
    e dizia-lhe ao ouvido com a mais pérfida das alusőes:

    — Quem diria que meia dúzia de lunáticos…

    D. Evarista compreendeu, sorriu e respondeu com muita resignaçăo:

    — Deus sabe o que faz!

    Tręs meses depois efetuava-se a jornada. D. Evarista, a tia, a mulher
    do boticário, um sobrinho deste, um padre que o alienista conhecera em
    Lisboa, e que de aventura achava-se em Itaguaí, cinco ou seis pajens, quatro
    mucamas, tal foi a comitiva que a populaçăo viu dali sair em certa manhă
    do męs de maio. As despedidas foram tristes para todos, menos para o alienista.
    Conquanto as lágrimas de D. Evarista fossem abundantes e sinceras, năo
    chegaram a abalá-lo. Homem de cięncia; e se alguma coisa o preocupava naquela
    ocasiăo, se ele deixava correr pela multidăo um olhar inquieto e policial,
    năo era outra coisa mais do que a idéia de que algum demente podia achar-se
    ali misturado com a gente de juízo.

    — Adeus! soluçaram enfim as damas e o boticário.

    E partiu a comitiva. Crispim Soares, ao tornar a casa, trazia os olhos
    entre as duas orelhas da besta ruana em que vinha montado; Simăo Bacamarte
    alongava os seus pelo horizonte adiante, deixando ao cavalo a responsabilidade
    do regresso. Imagem vivaz do gęnio e do vulgo! Um fita o presente com todas
    as suas lágrimas e saudades, outro devassa o futuro com todas as suas auroras.

     

    IV

     

     

    Uma teoria nova

     

    Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro,
    Simăo Bacamarte estudava por todos os lados uma certa idéia arrojada e
    nova, própria a alargar as bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava
    dos cuidados da Casa Verde, era pouco para andar na rua, ou de casa em
    casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e virgulando as
    falas de um olhar que metia medo aos mais heróicos.

    Um dia de manhă, — eram passadas tręs semanas, — estando Crispim Soares
    ocupado em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o
    mandava chamar.

    — Trata-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou
    o portador.

    Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se năo alguma
    notícia da comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve
    ficar claramente definido, visto insistirem nele os cronistas: Crispim
    amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram separados um só dia.
    Assim se explicavam os monólogos que ele fazia agora, e que os fâmulos
    lhe ouviam muita vez: “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na
    viagem de Cesária? Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr. Bacamarte.
    Pois agora agüenta-te; anda, agüenta-te, alma de lacaio, fracalhăo, vil,
    miserável. Dizes amém a tudo, năo é? aí tens o lucro, biltre!” —
    E muitos outros nomes feios, que um homem năo deve dizer aos outros, quanto
    mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tăo depressa
    ele o recebeu como abriu măo das drogas e voou ŕ Casa Verde.

    Simăo Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria
    abotoada de circunspeçăo até o pescoço.

    — Estou muito contente, disse ele.

    — Notícias do nosso povo? perguntou o boticário com a voz tręmula.

    O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:

    — Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experięncia científica.
    Digo experięncia, porque năo me atrevo a assegurar desde já a minha idéia;
    nem a cięncia é outra coisa, Sr. Soares, senăo uma investigaçăo constante.
    Trata-se, pois, de uma experięncia, mas uma experięncia que vai mudar a
    face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha
    perdida no oceano da razăo; começo a suspeitar que é um continente.

    Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou
    compridamente a sua idéia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta
    superfície de cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios,
    de textos, de exemplos. Os exemplos achou-os na história e em Itaguaí;
    mas, como um raro espírito que era, reconheceu o perigo de citar todos
    os casos de Itaguaí, e refugiou-se na história. Assim, apontou com especialidade
    alguns personagens célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal,
    que via um abismo ŕ esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula, etc.,
    uma enfiada de casos e pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas,
    e entidades ridículas. E porque o boticário se admirasse de uma tal promiscuidade,
    o alienista disse-lhe que era tudo a mesma coisa, e até acrescentou sentenciosamente:

    — A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.

    — Gracioso, muito gracioso! exclamou Crispim Soares, levantando as
    măos ao céu.

    Quanto ŕ idéia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário
    extravagante; mas a modéstia, principal adorno de seu espírito, năo lhe
    sofreu confessar outra coisa além de um nobre entusiasmo; declarou-a sublime
    e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”. Esta expressăo
    năo tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como
    as demais vilas, arraiais e povoaçőes da colônia, năo dispunha de imprensa,
    tinha dois modos de divulgar uma notícia; ou por meio de cartazes manuscritos
    e pregados na porta da câmara e da matriz; — ou por meio de matraca.

    Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um
    ou mais dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na măo.

    De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente e ele anunciava
    o que lhe incumbiam, — um remédio para sezőes, umas terras lavradias,
    um soneto, um donativo eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo
    discurso do ano, etc. O sistema tinha inconvenientes para a paz pública;
    mas era conservado pela grande energia de divulgaçăo que possuía. Por exemplo,
    um dos vereadores, — aquele justamente que mais se opusera ŕ criaçăo da
    Casa Verde, — desfrutava a reputaçăo de perfeito educador de cobras e
    macacos, e aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas tinha o cuidado
    de fazer trabalhar a matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas
    pessoas afirmavam ter visto cascavéis dançando no peito do vereador; afirmaçăo
    perfeitamente falsa, mas só devida ŕ absoluta confiança no sistema. Verdade,
    verdade, nem todas as instituiçőes do antigo regímen mereciam o desprezo
    do nosso século.

    — Há melhor do que anunciar a minha idéia, é práticá-la, respondeu
    o alienista ŕ insinuaçăo do boticário.

    E o boticário, năo divergindo sensivelmente deste modo de ver disse-lhe
    que sim, que era melhor começar pela execuçăo.

    — Sempre haverá tempo de a dar ŕ matraca, concluiu ele.

    Simăo Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:

    — Supondo o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares,
    é ver se posso extrair a pérola, que é a razăo; por outros termos, demarquemos
    definitivamente os limites da razăo e da loucura. A razăo é o perfeito
    equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia e só insânia.

     

    O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente
    que năo chegava a entendę-la, que era uma obra absurda; e, se năo era absurda,
    era de tal modo colossal que năo merecia princípio de execuçăo.

    — Com a definiçăo atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a
    loucura e a razăo estăo perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba
    e onde a outra começa. Para que transpor a cerca?

    Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma
    intençăo de riso, em que o desdém vinha casado ŕ comiseraçăo; mas nenhuma
    palavra saiu de suas egrégias entranhas.

    A cięncia contentou-se em estender a măo ŕ teologia, — com tal segurança,
    que a teologia năo soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí
    e o universo ŕ beira de uma revoluçăo.

     

    V

     

     

    O terror

     

    Quatro dias depois, a populaçăo de Itaguaí ouviu consternada a notícia
    de que um certo Costa fora recolhido ŕ Casa Verde.

    — Impossível!

    — Qual impossível! foi recolhido hoje de manhă.

    — Mas, na verdade, ele năo merecia… Ainda em cima! depois de tanto
    que ele fez…

    Costa era um dos cidadăos mais estimados de Itaguaí. Herdara quatrocentos
    mil cruzados em boa moeda de el-rei Dom Joăo V, dinheiro cuja renda bastava,
    segundo lhe declarou o tio no testamento, para viver “até o fim do
    mundo”. Tăo depressa recolheu a herança, como entrou a dividi-la em
    empréstimos, sem usura, mil cruzados a um, dois mil a outro, trezentos
    a este, oitocentos ŕquele, a tal ponto que, no fim de cinco anos, estava
    sem nada. Se a miséria viesse de chofre, o pasmo de Itaguaí seria enorme;
    mas veio devagar; ele foi passando da opulęncia ŕ abastança, da abastança
    ŕ mediania, da mediania ŕ pobreza, da pobreza ŕ miséria, gradualmente.
    Ao cabo daqueles cinco anos, pessoas que levavam o chapéu ao chăo, logo
    que ele assomava no fim da rua, agora batiam-lhe no ombro, com intimidade,
    davam-lhe piparotes no nariz, diziam-lhe pulhas. E o Costa sempre lhano,
    risonho. Nem se lhe dava de ver que os menos corteses eram justamente os
    que tinha ainda a dívida em aberto; ao contrário, parece que os agasalhava
    com maior prazer; e mais sublime resignaçăo. Um dia, como um desses incuráveis
    devedores lhe atirasse um chalaça grossa, e ele se risse dela, observou
    um desafeiçoado, com certa perfídia: — “Vocę suporta esse sujeito
    para ver se ele lhe paga”. Costa năo se deteve um minuto, foi ao devedor
    e perdoou-lhe a dívida. — “Năo admira, retorquiu o outro; o Costa
    abriu măo de uma estrela, que está no céu”. Costa era perspicaz, entendeu
    que ele negava todo o merecimento ao ato, atribuindo-lhe a intençăo de
    rejeitar o que năo vinham meter-lhe na algibeira. Era também pundonoroso
    e inventivo; duas horas depois achou um meio de provar que lhe năo cabia
    um tal labéu; pegou de algumas dobras, e mandou-as de empréstimo ao devedor.

     

    — Agora espero que… — pensou ele sem concluir a frase.

    Esse último rasgo do Costa persuadiu a crédulos e incrédulos; ninguém
    mais pôs em dúvida os sentimentos cavalheirescos daquele digno cidadăo.
    As necessidades mais acanhadas saíram ŕ rua, vieram bater-lhe ŕ porta,
    com os seus chinelos velhos, com as suas capas remendadas. Um verme, entretanto,
    roía a alma do Costa; era o conceito do desafeto. Mas isso mesmo acabou;
    tręs meses depois veio este pedir-lhe um cento e vinte cruzados com promessa
    de restituir-lhos daí a dois dias; era o resíduo da grande herança, mas
    era também uma nobre desforra: Costa emprestou o dinheiro logo, logo, e
    sem juros. Infelizmente năo teve tempo de ser pago; cinco meses depois
    era recolhido ŕ Casa Verde.

    Imagina-se a consternaçăo de Itaguaí, quando soube do caso. Năo se falou
    em outra coisa, dizia-se que o Costa ensandecera, ao almoço, outros que
    de madrugada; e contavam-se os acessos, que eram furiosos, sombrios, terríveis,
    — ou mansos, e até engraçados, conforme as versőes. Muita gente correu
    ŕ Casa Verde, e achou o pobre Costa, tranqüilo, um pouco espantado, falando
    com muita clareza, e perguntando por que motivo o tinham levado para ali.
    Alguns foram ter com o alienista. Bacamarte aprovava esses sentimentos
    de estima e compaixăo, mas acrescentava que a cięncia era a cięncia, e
    que ele năo podia deixar na rua um mentecapto. A última pessoa que intercedeu
    por ele (porque depois do que vou contar ninguém mais se atreveu a procurar
    o terrível médico) foi uma pobre senhora, prima do Costa. O alienista disse-lhe
    confidencialmente que este digno homem năo estava no perfeito equilíbrio
    das faculdades mentais, ŕ vista do modo como dissipara os cabedais que…

    — Isso, năo! isso, năo! interrompeu a boa senhora com energia. Se ele
    gastou tăo depressa o que recebeu, a culpa năo é dele.

    — Năo?

    — Năo, senhor. Eu lhe digo como o negócio se passou. O defunto meu
    tio năo era mau homem; mas quando estava furioso era capaz de nem tirar
    o chapéu ao Santíssimo. Ora, um dia, pouco tempo antes de morrer, descobriu
    que um escravo lhe roubara um boi; imagine como ficou.

    A cara era um pimentăo; todo ele tremia, a boca escumava; lembra-me
    como se fosse hoje. Entăo um homem feio, cabeludo, em mangas de camisas,
    chegou-se a ele e pediu água. Meu tio (Deus lhe fale n’alma!) respondeu
    que fosse beber ao rio ou ao inferno. O homem olhou para ele, abriu a măo
    em ar de ameaça, e rogou-lhe esta praga: — “Todo o seu dinheiro năo
    há de durar mais de sete anos e um dia, tăo certo como isto ser o sino
    salamăo
    ! E mostrou o sino salamăo impresso no braço. Foi isto,
    meu senhor; foi esta praga daquele maldito.

    Bacamarte espetara na pobre senhora um par de olhos agudos como punhais.
    Quando ela acabou, estendeu-lhe a măo polidamente, como se o fizesse ŕ
    própria esposa do vice-rei e convidou-a a ir falar ao primo. A mísera acreditou;
    ele levou-a ŕ Casa Verde e encerrou-a na galeria dos alucinados.

    A notícia desta aleivosia do ilustre Bacamarte lançou o terror ŕ alma
    da populaçăo. Ninguém queria acabar de crer, que, sem motivo, sem inimizade;
    o alienista trancasse na Casa Verde uma senhora perfeitamente ajuizada,
    que năo tinha outro crime senăo o de interceder por um infeliz. Comentava-se
    o caso nas esquinas, nos barbeiros; edificou-se um romance, umas finezas
    namoradas que o alienista outrora dirigira ŕ prima do Costa, a indignaçăo
    do Costa e o desprezo da prima. E daí a vingança. Era claro. Mas a austeridade
    do alienista, a vida de estudos que ele levava, pareciam desmentir uma
    tal hipótese. Histórias! Tudo isso era naturalmente a capa do velhaco.
    E um dos mais crédulos chegou a murmurar que sabia de outras coisas, năo
    as dizia, por năo ter certeza plena, mas sabia, quase que podia jurar.

    — Vocę, que é íntimo dele, năo nos podia dizer o que há, o que houve,
    que motivo…

    Crispim Soares derretia-se todo. Esse interrogar da gente inquieta e
    curiosa, dos amigos atônitos, era para ele uma consagraçăo pública. Năo
    havia duvidar; toda a povoaçăo sabia enfim que o privado do alienista era
    ele, Crispim, o boticário, o colaborador do grande homem e das grandes
    coisas; daí a corrida ŕ botica. Tudo isso dizia o carăo jucundo e o riso
    discreto do boticário, o riso e o silęncio, porque ele năo respondia nada;
    um dois, tręs monossílabos, quando muito, soltos, secos, encapados no fiel
    sorriso, constante e miúdo, cheio de mistérios científicos, que ele năo
    podia, sem desdouro nem perigo, desvendar a nenhuma pessoa humana

    — Há coisa, pensavam os mais desconfiados.

    Um desses limitou-se a pensá-lo, deu de ombros e foi embora. Tinha negócios
    pessoais. Acabava de construir uma casa suntuosa. Só a casa bastava para
    deter e chamar toda gente; mas havia mais, — a mobília, que ele mandara
    vir da Hungria e da Holanda, segundo contava, e que se podia ver do lado
    de fora, porque as janelas viviam abertas, — e o jardim, que era uma obra-prima
    de arte e de gosto. Esse homem, que enriquecera no fabrico de albardas,
    tinha tido sempre o sonho de uma casa magnífica, jardim pomposo, mobília
    rara. Năo deixou o negócio das albardas, mas repousava dele na contemplaçăo
    da casa nova, a primeira de Itaguaí, mais grandiosa do que a Casa Verde,
    mais nobre do que a da câmara. Entre a gente ilustre da povoaçăo havia
    choro e ranger de dentes, quando se pensava ou se falava ou se louvava
    a casa do albardeiro, — um simples albardeiro, Deus do Céu!

    — Lá está ele embasbacado, diziam os transeuntes, de manhă.

    De manhă, com efeito, era costume do Mateus estatelar-se, no meio do
    jardim, com os olhos na casa, namorado, durante um longa hora, até que
    vinham chamá-lo para almoçar. Os vizinhos, embora o cumprimentassem com
    certo respeito, riam-se por trás dele, que era um gosto. Um desses chegou
    a dizer que o Mateus seria muito mais econômico, e estaria riquíssimo,
    se fabricasse as albardas para si mesmo; epigrama ininteligível, mas que
    fazia rir ŕ bandeiras despregadas.

    — Agora lá está o Mateus a ser comtemplado, diziam ŕ tarde.

    A razăo deste outro dito era que, de tarde, quando as famílias saíam
    a passeio (jantavam cedo) usava o Mateus postar-se ŕ janela, bem no centro,
    vistoso, sobre um fundo escuro; trajado de branco, atitude senhoril, e
    assim ficava duas e tręs horas até que anoitecia de todo. Pode crer-se
    que a intençăo do Mateus era ser admirado e invejado, posto que ele năo
    a confessasse a nenhuma pessoa, nem ao boticário, nem ao padre Lopes, seus
    grandes amigos. E entretanto năo foi outra a alegaçăo do boticário, quando
    o alienista lhe disse que o albardeiro talvez padecesse do amor das pedras,
    mania que ele Bacamarte descobrira e estudava desse algum tempo. Aquilo
    de contemplar a casa…

    — Năo, senhor, acudiu vivavemente Crispim Soares.

    — Năo?

    — Há de perdoar-me; mas talvez năo saiba que ele de manhă examina a
    obra, năo a admira; de tarde, săo os outros que admiram a ele e ŕ obra.
    — E contou o uso do albardeiro, todas as tardes, desde cedo até o cair
    da noite.

    Uma volúpia científica alumiou os olhos de Simăo Bacamarte. Ou ele năo
    conhecia todos os costumes do albardeiro, ou nada mais quis, interrogando
    o Crispim, do que confirmar alguma notícia incerta ou suspeita vaga. A
    explicaçăo satisfę-lo; mas como tinha as alegrias próprias de um sábio,
    concentradas, nada viu o boticário que fizesse suspeitar uma intençăo sinistra.
    Ao contrário, era de tarde, e o alienista pediu-lhe o braço para irem a
    passeio. Deus! era a primeira vez que Simăo Bacamarte dava ao seu privado
    tamanha honra; Crispim ficou tręmulo, atarantado, disse que sim, que estava
    pronto. Chegaram duas ou tręs pessoas de fora, Crispim mandou-as mentalmente
    a todos os diabos; năo só atrasavam o passeio, como podia acontecer que
    Bacamarte elegesse alguma delas, para acompanhá-lo, e o dispensasse a ele.
    Que impacięncia! que afliçăo! Enfim, saíram. O alienista guiou para os
    lados da casa do albardeiro, viu-o ŕ janela, passou cinco, seis vezes por
    diante, parando, examinando as atitudes, a expressăo do rosto. O pobre
    Mateus, apenas notou que era objeto da curiosidade ou admiraçăo do primeiro
    vulto de Itaguaí, redobrou a expressăo, deu outro relevo ŕs atitudes…
    Triste! triste, năo fez mais do que condenar-se; no dia seguinte, foi recolhido
    ŕ Casa Verde.

    (First of three parts. O Alienista was originally published
    in Papéis Avulsos, a collection of short stories by Machado de Assis.)

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