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Conto English Version Conversa ao telefone





Conto

English Version



Conversa ao telefone

It is so rare to see Portuguese-language poems translated into English
and published in the U. S. that the release of an anthology of Brazilian
poets should be enough reason for celebration. It is a shame though that
most of the poems gathered in Nothing the Sun Could Not Explain seem
bland and disconnected from the Brazilian soul.

 

Nothing the Sun Could Not Explain: 20 Contemporary
Brazilian Poets, edited by Michael Palmer, Régis Bonvicino,
and Nélson Ascher (Sun & Moon Classics, 312 pp., $15.95 paper) 

 

By
Décio Torres Cruz

—’ morning! TOW-U World Away Traveler, ‘ help ya?—cumprimentou-me
uma voz do outro lado da linha, comendo metade da pergunta e traduzindo
para a linguagem a correria da cidade. A voz, embora não soasse
suave como a noite de Fitzgerald, tinha um certo quê de calor humano
difícil de se encontrar por essas plagas nova-iorquinas.

—Bom-dia!—respondi em inglês. —Um amigo me informou que vocês
possuem um serviço courier com passagens bem baratas. Gostaria
de saber se vocês oferecem esse serviço para o BRAZIL, enfatizei
bem para evitar confusões às quais já havia me acostumado
devido ao parco conhecimento geográfico que abunda por aqui.

—Claro que sim! Que cidade no Brasil o senhor deseja?—espantou-me a
voz, que sabia que no Brasil havia cidades! Finalmente estou lidando com
alguém que faz parte das raras exceções.

—Olha, estou planejando ir para SALVADOR, na BAHIA, disse, articulando
as vogais e consoantes à americana para não provocar desentendimentos.

—Temos sim—respondeu-me a voz simpática. Temos vôos para
San Salvador com escalas.

“Êpa! Começou!”, pensei com minha gola, pois minha camisa
de malha não tinha botões.

—Escute—disse eu meio apreensivo, já temendo um outro desfecho
e ir parar no meio de alguma guerrilha na América Central como ocorria
há alguns anos. —Estou falando de Salvador, capital da Bahia, B-A-H-I-A
(soletrei), no Brazil, América do SUL! Embora algumas pessoas chamem
Salvador de São Salvador, ela não é em El Salvador,
o país da América Central, entende?—enfatizei, acostumado
com o desvio de minhas cartas para El Salvador, até aprender a colocar
em letras garrafais SOUTH AMERICA ao lado da palavra também garrafal
BRAZIL, pois o nome do país só não era garantia de
destino para os funcionários do correio americano. Na minha mente
vinham lembranças de adolescência quando fiz o exame de proficiência
em inglês da universidade de Michigan. O exame havia sido adiado
pois as provas foram parar naquele país em vez de ir para Salvador
da Bahia.

—Sei muito bem, senhor. San Salvador, na Bahia, no Brazil. Sim, temos
vôos para lá.

Não acreditei! A voz me surpreendera mesmo. E ainda por cima,
ela conhecia o termo São Salvador, esse jeito tão carinhoso
que nós baianos usamos para se referir a ela. Achei uma fofura alguém
em Nova Iorque chamar a minha querida Salvador de San Salvador. Ecos de
Caymmi me chegavam aos ouvidos na voz doce (quando era doce) de Gal Costa,
trazendo saudades inusitadas do nosso ritmo lento, faceiro, amigo, cadente.
De repente, me sinto envolto pela magia baiana, sentindo até um
cheiro de acarajé no ar, coisas que contrastavam totalmente com
o barulho, correria, e a famosa atitude nova-iorquina. Me senti culpado
de estar fazendo pouco caso e mal juízo dos conhecimentos geográficos
da voz. Mas também, depois de um ano respondendo às perguntas
de meus colegas de doutorado se a capital do Brasil é Buenos
Aires e se nós falamos espanhol, nada mais me surpreendia e desenvolvi
uma atitude blasé para lidar com esse tipo de pergunta. A
voz era realmente uma exceção!

—E quanto custa a passagem?—quis saber.

—A passagem ida e volta custa 280 dólares.

—A senhorita tem certeza de que é este realmente o preço
para Salvador, Bahia, Brazil?—repeti incrédulo, embora o texto em
inglês tivesse sido politicamente correto para evitar confronto feminista
de preconceito sexual, coisa que tive que me acostumar a duras penas, pois
se você desconhece o jargão feminista, você acaba quebrando
a cara e sofrendo reprimendas iradas das mulheres.

—Absoluta! Temos um vôo que sai depois de amanhã. O senhor
quer fazer reserva?

“Depois de amanhã!?”, pensei, dessa vez cá com as mangas
da camisa. Precisava refletir.

—Olha, posso ligar novamente para reconfirmar depois? Sabe como é,
não estava pretendendo viajar assim tão de supetão,
em cima da hora. Preciso de um tempo para pensar se terei condições.

—Pois não, senhor. E qual é mesmo o seu nome?

—Cruz—dei o meu último nome, pois o primeiro é uma dificuldade
terrível para eles pronunciarem. —C-R-U-Z—soletrei para que ela
não pensasse que eu era parente de Tom Cruise, como já haviam
me perguntado várias vezes devido à semelhança fonética.

—Ah, seu nome é espanhol?

—É sim, como é que adivinhou? —Não sabia se ela
queria dizer hispânico em vez de espanhol, e nunca se sabe se há
um preconceito por detrás da pergunta ou não. —Na verdade,
meu nome é brasileiro da cruz (e não da silva), mas a minha
pretensa árvore genealógica indica que minha família
é originária de Sevilha, na Espanha, antes de meus ancestrais
se debandarem pelo resto da península ibérica, atravessarem
os mares, e se engalfinharem pelas florestas brasileiras, metendo um pé
na taba e outro na senzala alheia, se você consegue entender a ironia
do meu discurso pós-colonial. Como?! Não, não moramos
mais em florestas, a única floresta que sobrou foi a amazônica,
pois meus ancestrais eram tão anti-ecológicos quanto os seus,
talvez um pouco menos, porque pelo menos a Amazônia ainda está
lá, até quando, só Deus sabe! A gente vive em casas
e edifícios, localizados em ruas e avenidas, em cidades modernas
e antigas vilas coloniais, algumas grandes, outras pequenas, outras gigantescas,
que nem aqui. Mas, continuando, meu outro nome, Torres, vem de Toledo,
também na Espanha, e não Toledo em Ohio. A gente no Brasil
é tudo uma mistura só, e acho que é por causa dessa
minha ascendência espanhola que o povo daqui fica me perguntando
se no Brasil falamos espanhol, não é? Ah, você também
não sabia que não falamos espanhol? A gente entende espanhol
porque ambas são originárias do Latim Vulgar, mas os falantes
de espanhol não nos compreendem. Por quê? Acho que é
por causa do sistema fonético, nossa língua tem mais sons
que em espanhol. Não, não falamos latim na América
Latina, mas falamos um bando de vulgaridade, sim! Não, nossa língua
não é brasileiro, brasileiro é nossa nacionalidade.
Embora muita gente ache que nossa língua seja brasileira mesmo,
como aqui muita gente acha que vocês falam americano e não
inglês, nós falamos português-brasileiro e não
português-português, entende? Sim, claro, de Portugal. Como
é que os portugueses foram parar no Brasil? Sei lá, dizem
que foi por causa de uma falta de vento no mar, mas isso é história
pra boi dormir. Na verdade os portugueses estavam era caçando umas
indiazinhas para comer, sacumé? Sim, sei que eles foram politicamente
incorretos, mas isso foi há quase quinhentos anos atrás,
e os portugueses não eram nada puritanos como os ingleses. Espanhol?
Sim, espanhol francês, holandês, e depois veio gente de todo
canto, que nem aqui, só que lá o povo se misturou mesmo!

Resolvi brincar com a voz, revelando um pouco de intimidades familiares
e históricas para quebrar o tom impessoal que essas conversas telefônicas
sempre adquirem, coisa que adoro fazer. Lembro que quando liguei para a
NYNEX instalar o meu novo número telefônico, fiquei horas
de papo com a telefonista, que, inusitadamente, parecia não ter
nada a fazer na vida a não ser falar ao telefone. A voz da companhia
telefônica acabou me contando metade da vida dela, filhos, gato,
e cachorro! Afinal de contas, telefone é para comunicação,
não é? E haja papo! Essas coisas também acontecem
por aqui, principalmente quando a solidão ataca.

—E quais são as condições?—perguntei interrompendo
meu devaneio.

—Bem, o senhor não poderá levar nenhuma bagagem além
de uma pequena mala de mão, e terá que retornar dentro de
uma semana. Naturalmente, como se trata de serviço courier,
o senhor terá que levar uma encomenda.

—Ah, é? E como vou saber se não estarei carregando alguma
muamba, ou droga, ou bomba, sei lá?—perguntei para me certificar.

Isso tudo dava à viagem um tom de transgressão, de risco
e aventura, à la James Bond. Já pensou se carrego algo proibido
e me barram na alfândega, qual seria a manchete dos jornais? “Professor
universitário, com a desculpa de estar fazendo doutorado no exterior,
foi pego com a mão na botija contrabandeando drogas!”—imagino a
página policial do jornal A Tarde. O que diriam meus colegas
e amigos? Décio, o espião vestido que abalou Salvador,
parodio os folhetins dos anos 70: “Giselle, a espiã nua que abalou
Paris”.

—Meu senhor, os nossos serviços são seguros e de alta
confiança!—repreendeu-me a voz, destruindo o balão da minha
fantasia em quadrinhos.

—Desculpe, era só uma brincadeira—minto. —Voltarei a ligar mais
tarde.

—Pois não, senhor Cruz, fico aguardando a sua ligação.

—E qual a sua graça?—perguntei em tom de gozação.

—Perdão?!—retrucou ela, literalmente como eles costumam dizer
por aqui quando não entendem algo. Ela não havia captado
a brincadeira no estilo shakesperiano. Também era querer demais
da pobre coitada, acostumada com roteiros bem precisos, demarcados de ponto-a-ponto.
Na sua pequena cabine onde provavelmente deve atender as ligações,
não havia muito espaço sobrando para imaginação
ou abstração. Tudo deveria se resumir à objetividade
e a precisão da linguagem. Sem metáforas.

—Qual é o seu nome para que eu possa contactá-la diretamente
quando voltar a ligar e não ter que me perder no labirinto borgeano
e no processo penal da burocracia telefonista kafkiana?—perguntei, obviamente
omitindo as referências literárias para não confundir
ou entediar a moça (ou a senhora, ou o senhor, sei lá! Quem
me garante que não havia um travesti de voz macia, tipo la Close,
do outro lado? Nessa cidade pós-moderna, tudo é possível,
e tudo o que eu tinha como fonte de referência era apenas uma voz).

—Ah, sim, desculpe. Me chamo Mary!—respondeu enfática, estranhamente
me dando o prenome.

“Mary! Que coisa mais impessoal, comum, e no entanto, pura! Como deve
ser ter um nome que reporta sempre a um símbolo de virgindade e
santidade?”, pensei comigo mesmo.

(Existe outra forma de pensar a não ser consigo mesmo? É
cada uma! [Ou cada duas?] Português tem tanta maluquice gostosa de
se brincar, principalmente piada de português! Depois de dois anos
afastado da minha língua, me deleitava com certas expressões,
e sentia saudades de nossas brincadeiras, de falar besteira, do dicionário
de baianês. O povo aqui é sério demais).

—Obrigado, Mary. Te ligarei mais tarde.

A alegria me invadiu de repente. Que maravilha poder passar uma semana
em Salvador pelo mesmo preço que gastei para ir a Daytona Beach
no Spring Break, essas férias de uma semana que são
concedidas aos estudantes americanos para poderem fugir do tédio
infernal e do frio invernal! Contactei o meu amigo Daniel, que havia me
dado a dica, para confirmar se não era armação, e
depois fui passear pelas largas ruas de Manhattan em direção
ao Central Park. Traduzido literalmente, “parque central”, não sei
porque cargas elétricas, sempre me lembra uma marca de biscoito
creme cracker, em bom baianês. Qual será a sensação
de comer, no Parque Central, biscoito Águia Central (ou bolacha,
como se diz no interior da Bahia)?

Ó, dúvidas filosóficas de besteirol que me transportam
aos cacos teatrais de minha amiga Fanta Maria da Bofetada, agora Santa
Noviça Rebelde. Lembrei de outra historia que um amigo me contara.
A tia dele, bem baiana, visitando Nova York e querendo ligar para casa
a cobrar, dirige-se a um guarda na rua e pergunta em baianês: “Moço,
onde é que fica a Telebahia daqui?”

Rio das minhas próprias maluquices. A vontade de estar em Salvador
era maior do que a de ver o show de Gilberto Gil programado para o Parque
na próxima semana. E se essa passagem não fosse para Salvador?
No ano anterior, quase perdia minha reserva em um vôo para Daytona
Beach na Flórida porque a agente da American Airlines tinha me colocado
em um vôo para Dayton, Ohio, que de Beach não tem nada. Além
de ter que fazer milhares de escalas desnecessárias, iria pagar
o triplo do que me custaria, para ir para um local que não pretendia
ir.

A gente reclama que brasileiro não sabe escrever, mas o americano
escolarizado é péssimo em ortografia. Será que a norma
escrita está fadada ao esquecimento?—divago enquanto passeio. Lembro
a história do homem que foi parar em Atenas, na Grécia, quando
ele só queria ir para Atenas, no Texas. Ou era Atenas na Georgia?
Também não culpo as pobres coitadas que são bombardeadas
por uma propaganda constante de que o mundo é aqui. Para confundir
mais ainda, várias cidades possuem o mesmo nome de cidades européias
e de xarás americanas: Atenas e Paris, no Texas. Nápoles
na Flórida. Toledo em Ohio, e Salamanca em Nova York. Até
uma réplica de Nueva Jork, como hablan los hispanicos, pode
ser encontrada agora em Las Vegas. E viva o país do simulacro! Como
se não bastasse as cidades aqui serem todas iguais umas às
outras, com raras exceções, os nomes também pouco
importam. É tudo padronizado: American Standard, que ironicamente
é uma marca de privada.

Ando pelo parque lembrando de Simon e Garfunkel, Olodum, John Lennon.
A música me acompanha. Ao longe, escuto um grupo de músicos
andinos tocando “El Condor Pasa.” Penso, repenso, decido! Preciso voltar
às minhas raízes. Não, a minha voz não ia fazer
uma sacanagem dessas. Ela era pura e virgem demais para isso. E lá
fui eu feliz da vida reconfirmar minha reserva, antevendo e antegozando
(pode-se gozar por antecedência?) os prazeres da terra brasilis.

—Boa-tarde! Senhorita Mary?

—Sim, eu mesma, quem deseja?

—Aqui é aquele brasileiro chato que lhe encheu de perguntas de
manhã sobre a passagem para Salvador.

—Ah, sim, senhor Cruz. O senhor quer confirmar sua reserva?

—Sim, mas antes ainda tenho uma pergunta. Onde é a primeira escala?

—Deixe-me ver no computador. Ah, o senhor vai parar em San Juan e depois
segue para San Salvador.

—Você quer dizer, Salvador da Bahia, não é?

—Sim, lá mesmo.

—E qual é o nome da companhia?

—QWFRT Linhas Aéreas.

—Não entendi.

—QWFRT Linhas Aéreas.

—Estranho, nunca ouvi falar dessa companhia. Ela vai até o Brasil?

—Vai sim.

—E qual a duração de vôo?

—O senhor sai de Nova York até San Juan, são três
horas e meia. De San Juan até San Salvador são mais duas
horas.

—Estranho. Cinco horas e meia de vôo somente?! O mínimo
são oito horas e meia.

—Só são cinco horas e meia de vôo de Nova York até
San Salvador.

—Mary, sem querer ser chato, mas você poderia confirmar se esta
cidade para a qual você está me mandando, com muamba e tudo,
é no Brasil mesmo?

—Um momento. (Pausa. Escuto o barulho do teclado do computador do outro
lado).

—Sr. Cruz, infelizmente a nossa linha não opera com o Brasil,
só com a América Central.

—O quê!!?—exclamei indignado. —Mary Virgem do céu, como
é que você me faz perder meu tempo e toda a minha emoção
quando desde o começo eu vinha lhe dizendo que eu queria ir para
Salvador da Bahia, Brazil, América do Sul, e não para San
Salvador em El Salvador, América Central? O que vai acontecer com
todos os meus planos que alimentei durante o intervalo do almoço
até agora? O que será dos meus sonhos de fugir dessa cidade,
onde todo mundo vive deprimido e irritado, para ver os amigos, família,
minha terra, passear pela praia, ao sol ou na chuva de junho, tomar água
de coco, comer um acarajé em Itapuã com guaraná ou
cerveja, passear pelas ruas coloniais do Pelô ao som do Olodum ou
do Ilê Ayê? Dançar forró, comer milho e canjica,
tomar licor? A senhorita sabe o que isso significa? Não é
a mesma coisa que comer feijoada na rua 46 ou em Newark!

—I’m sorry, sr. Cruz. Infelizmente não compreendo nada
do que está dizendo, nem posso fazer nada pelos seus sonhos. Talvez
o senhor deva acomodá-los à realidade. Se quiser ir para
San Salvador, o vôo sai depois de amanhã. Caso contrário,
passar bem.—e desligou, deixando-me a ver barcos valsando na água
azul do Porto da Barra projetados na parede azul do apartamento.

Como posso passar bem depois dessa decepção? Talvez a
não-tão-virgem mãe-do-filho Mary tivesse razão
e eu devesse ir conhecer a homônima de minha cidade. Ou talvez eu
devesse escrever para o prefeito de Salvador requisitando a volta do antigo
nome popular de Cidade da Bahia. Certamente, se os governantes tivessem
adotado a fala dos personagens do amado Jorge, eu não teria passado
por essas tribulações. Mas personagens literários
só fazem estória, pois a História, da mesma forma
que o minúsculo cubículo de Mary e sua indiferença
aos sonhos alheios, não tem lugar para a imaginação.

 
Décio Torres Cruz teaches at the Federal University
of Bahia and at the State University of Bahia, in Salvador, Brazil. He
is presently a Fulbright scholar on a Ph.D. program in Comparative Literature
at the State University of New York at Buffalo. He has published several
articles, essays, poems, and short stories in renowned journals, newspapers,
and anthologies in different places in Brazil, and also in Buffalo, NY.



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