The Engagement

      The Engagement

    I look at my portrait on the wall. Time gnaws and destroys peoples faces.
    To waste my face there was time and this man. Time wrinkled my forehead,
    he excavated shadows under my eyes; time pulled my teeth, he crooked my
    mouth; time sharpened my profile, he engraved on me this air of someone
    who retreats; together both have instilled rust and mould into my hollow
    depths.

    By
    Osman Lins

    I8 Sós nesta sala de paredes verdes, uma janela fechada,
    outra aberta à noite e ao compassado som das ondas, no centro do
    triângulo torto em cuaw6kx vértices ficam o Seminário,
    a Praça da Abolição e o Convento dos Franciscanos.
    Podemos ver a cidade como se estivéssemos de pé sobre o telhado.
    O luar embebe o mar e as ruas, fachadas de azuleaw6kx brilham no silêncio.
    Esta será a última das muitas e inúteis conversas
    que tivemos. Lateja o farol.

    I Uno, sereno, e dono, após trinta anos de repartição,
    do meu destino, iria agora perder este governo, ligando-me seja a quem
    for? Desprendi-me do que me tolhia, em mim não há divisões,
    não reverei os colegas de trabalho. Conduzirei agora minha vida
    com a invenção de um maquinista que fizesse avançar
    sua locomotiva para fora dos trilhos. Nada de caminhos feitos: improvisar
    é a regra.

    —Só uma coisa me preocupa. É não conseguir esquecer
    os problemas com o envidraçamento da Secretaria.

    8 Dividida entre a esperança e o medo, enfim me decidi.
    Duas palavras gastaram minha vida: amanhã e depois. Sim, é
    a última vez que nos falamos, não suporto mais suas prorrogações.
    Quanto ao enxoval, continuará nas malas, nas gavetas, até
    que eu morra. Como o lamentarei, se mais inútil me foi a juventude?

    —Não sei se já lhe disse tudo sobre os vidros. Muitos
    estavam partidos e a maioria apresentava manchas de umidade. Umas redondas,
    outras oblongas, ou em forma de estrelas. Algumas bem grandes, com quase
    dois palmos. Poucas janelas continuavam em ordem. Então o Chefe
    me incumbiu de estudar o assunto e tomar as providências que fossem
    necessárias. Um ardil para segurar-me: eu estava a poucos meses
    da aposentadoria.

    —Que interesse podia ele ter nisso?

    —Está no emprego há mais de trinta e nove anos e detesta
    ver alguém aposentar-se no devido tempo. Aguarda a compulsória.
    Cada servidor que se deixa ficar é uma aprovação ao
    seu amor pelos autos e o livro de ponto. Não lhe dei esse prazer.
    No exato minuto em que recebi o Diário Oficial, escrevia
    esta palavra: “sessenta”. Por coincidência é a minha idade.

    8 Ouvem-no, um à sua esquerda, outro à direita,
    todos no sofá, seus mais comuns seguidores, os que melhor conheço:
    ele aos trinta e nove e ele aos vinte e oito anos, aquele tolerante, este
    colérico. Vestem-se os três como era de uso antes da última
    guerra.

    —Faltava ainda a sílaba final. Deixei a palavra incompleta, vesti
    o paletó, dei as costas, saí. Não falei com ninguém,
    nunca mais voltarei àquele purgatório. Custou, mas por fim
    chegou o dia: sou um homem livre até o fim da vida.

    I Livre quer dizer: sem compromisso. Ela aceitará nosso
    rompimento? Se casássemos, levaria para a nova casa todos os retratos
    que ornamentam a sala, registrando as modificações de seu
    rosto, a duração e o fim de suas ânsias. Como poderia
    viver em meio a essa profusão de olhos, penteados, sorrisos e bijuterias,
    eu que sou propenso à unidade, fazendo tudo para manter-me íntegro,
    dentro do presente, sem extraviar-me no passado e sem admitir que invasores
    de outro tempo me perturbem a rigorosa inteireza do que desejaria ser ou
    sou?

    —Trinta longos anos de trabalho. Mereci o prêmio.

    —Realmente.

    —Trinta anos não são trinta dias!

    —Bem sei.

    (A atividade, entre os insetos, é limitada por mudanças
    alheias a eles próprios; o sono, em tão diverso e numeroso
    grupo, não exprime repouso. Como acrobatas que passassem a noite
    num trapézio ou num arame estendido a vinte metros do solo, assim
    dormem, atentos, na atitude que têm quando em vigília.)

    —Que vai fazer agora do descanso? De sua liberdade?

    —Muita coisa. O problema está em escolher.

    8 É o velho quem responde. Os que o ladeiam olham-no de
    suas idades remotas. Ouço, no jovem, um ranger de dobradiças,
    de rolimãs sobre eixo não lubrificado. No outro, de trinta
    e nove anos, em algum impreciso recanto de seu corpo, uma roldana é
    acionada com insistência, pesos em forma de cubo vão e vêm
    no escuro. Diz o moço: “O mar está rugindo”. A roldana interrompe
    os movimentos: “Continua avançando na Praia dos Milagres”. Interfiro:
    “Onde, há um ano, havia residências, hoje só restam
    alicerces e alguns tijolos soltos!” Todos concordam: “É mesmo”.
    Volta o silêncio e os três me contemplam, decerto sem ver-me,
    aflitos com o estorvo de suas almas de serragem, de colheres dobradas,
    de facas cegas, comportas e alçapões. Uma noite foram dez
    os que vieram; ocuparam o sofá, as seis cadeiras, o banco do piano,
    todos irados, numa agitada conversa a respeito de grades e portões.
    Infelizmente, são em geral esses os que me visitam. O de sessenta
    anos faz-me lembrar um zoológico onde todos os bichos estivessem
    mortos e mesmo assim visitados. Mas uma noite eu o vi aos dezessete
    anos. Encheu a sala de sons, contou a história da primeira mulher
    que se deitou com ele, ouviu-me. Há mais de quatro anos aguardo
    seu retorno. Desejaria revê-lo, ardoroso e sensível, talvez
    um pouco perverso, com seu rumor de címbalos e guizos.

    —Nem sequer acabei de escrever “sessenta”. Vesti o paletó e saí.
    Como quem vai tomar um copo de leite. Cheguei a deixar as gavetas abertas:
    não havia, na repartição, um só objeto meu.
    Gostaria de investigar até ao fim o caso das vidraças. Mas,
    pelo menos dessa vez, agi com decisão. Levantei-me, afastei a cadeira,
    fui embora. Quando atravessei o portão, eram exatamente nove horas
    e cinqüenta e dois minutos.

    —É triste sair assim de um lugar.

    —Não vejo por quê.

    8 O jovem, à sua direita, levanta-se, fecha dentro de
    si todos os ferrolhos, bate as portas, cerra as fechaduras que estalam,
    oxidadas.

    —Não consigo esquecer o problema das janelas. É interessante
    refletir sobre ele. Veja. O envidraçamento, todo em caixilhos de
    alumínio anodizado, deveria ser feito com lâminas de três
    milímetros. Entre elas poriam lã de vidro, misturada com
    uma resina própria. Mas as fibras de lã não apresentavam
    distribuição uniforme. Então, preferiu-se um par de
    lâminas chamadas Calorex-Atherrnane, separadas por um tecido
    de algodão, impregnado de melanina-formol. E que se fez para colocar
    as placs nos caixilhos? A massa de vidraceiro é um produto convencional,
    pouco eficaz. Embora o vidro fosse antitérmico, procedeu-se como
    se as variações de temperatura o afetassem: empregaram uma
    gaxeta elástica de neoprene. Este produto vem dando resultado ótimo
    em edifícios grandes, no estrangeiro. Pois bem. Não tardou
    muito, começaram a surgir, nos dez andares, as manchas de umidade.
    Levantando um pouco o neoprene via-se, nas canaletas, água acumulada.
    A distribuição espacial das manchas era irregular. Não
    se notava preferência por uma face qualquer da construção.
    Quanto aos vidros quebrados, quanto a estes, sim: havia preferência.
    Um ritmo. Que pista seguir para esclarecer o problema? Investigar aquilo
    fascinou-me. Em quase trinta anos, era a primeira tarefa mais ou menos
    viva que me chegava às mãos. Olhava osCalorex-Athermane
    como se fossem bichos, vítimas de alguma epidemia. Gatos ou
    cavalos de vidro. Sabe o quanto detestava o Chefe. Passei a odiá-lo
    na medida em que me sentia tentado a não aposentar-me, até
    que descobrisse a verdadeira razão daquelas manchas e das vidraças
    partidas.

    8 Olho meus retratos nas paredes. O tempo rói e destrói
    a face das pessoas. Para gastar minha face, houve o tempo e esse homem.
    O tempo enrugou-me a fronte, ele escavou-me as olheiras; o tempo arrancou-me
    os dentes, ele entortou-me a boca; o tempo aguçou meu perfil, ele
    gravou-me este ar de quem recua; os dois juntos instilaram em minhas ocas
    profundezas a ferrugem e o bolor.

    —Você fala, Mendonça, como se tivesse grande amor por gatos
    ou cavalos. Como se fosse capaz de dar um passo por qualquer coisa viva.

    —Como não? Certas noites de calor, abro a janela do quarto e
    estendo-me na cama. Entram mariposas, às vezes sucede entrar algum
    besouro. Não os mato. Gosto de vê-los.

    —Porque são feitos de arame, de mica, de aparas de cobre. E têm
    olhos de vidro. Após trinta anos de trabalho, você não
    teve em quem dar um abraço de despedida.

    —E abraços por quê? Não eram meus amigos.

    —Algum devia de ser.

    —Nenhum era. Nenhum.

    8 À sua esquerda, arfa outra vez a obscura roldana e a
    voz desse Mendonça grisaIho aprova com firmeza:

    —Fez muito bem. Era assim que eu imaginava encerrar minha carreira,
    há vinte e um anos. Fez muito bem. Para que despedir-se daqueles
    inúteis?

    (As moscas, em grande número, aparecem às vezes imobilizadas,
    como se estivessem mortas, envolvidas em fina e alvacenta poeira. Pequenos
    cogumelos, ao passo que devoram os tecidos dos insetos, semeiam os seus
    esporos mortais. O mínimo golpe de ar ergue-os e transporta-os para
    as moscas ainda não-contaminadas. Os cogumelos crescem, invadem-nas,
    roem seus tecidos, bebem com sede o líquido sangüíneo,
    multiplicam-se, destroem os órgãos todos. As moscas atacadas
    renunciam a voar. Deixam-se ficar numa parede, num lençol, numa
    poltrona, em cima de um arquivo. Em breve, do que foram, resta a casca,
    a vazia aparência, invadida por tênues filamentos.)

    —Se, pelo menos, houvéssemos casado! Ou juntado, como fazem tantos.

    —Não fale assim, Giselda.

    —Podíamos ter filhos com mais de vinte anos.

    —Você não ignora que o meu ordenado era pequeno. Depois,
    veio a morte do velho. Ia abandonar minha mãe?

    —Não. Desde que todos os seus irmãos haviam casado, você
    devia fazer o sacrifício. Ela precisava tanto de alguém para
    atormentar! Só Deus sabe o quanto padeceu aquele pobre homem. Conversou
    mais de uma vez comigo. Dizia que como a mulher se chamava Maria José,
    queria ser ao mesmo tempo a Maria e o José. Não deixava de
    ter razão.

    —É injusto que dissesse isso. Principalmente a uma estranha.

    —Eu não era uma estranha. Quando me tocou pela primeira vez no
    assunto, você era meu noivo há mais de onze anos. E ganhava
    bem.

    8 Novamente no sofá os três, sentados juntos. Rangem
    dentro deles as dobradiças, pesos, roldanas, ferrolhos, rolimãs.
    O de trinta e nove anos leva a mão direita à boca:

    —Fui eu talvez que tive a culpa de tudo. De toda esta aridez. Não
    era tão tarde para mudar. Tinha economias, não? Podia haver
    abandonado o emprego, casado com você, organizado a fábrica
    de grades e portões. Entretanto, fiz o quê?

    8 Escande o jovem, de cabeça baixa:

    —Começou a riscar os famosos quadros. As obras de arte, os retângulos
    quadriculados com oitenta centímetros por quarenta. Três mil
    e duzentos quadrados: três mil e duzentos dias. Esta foi a sua contribuição.
    Ao fim de cada expediente, uma cruz seria desenhada em cima de um quadrado,
    três nas sextas-feiras, duas nas vésperas dos feriados. Para
    medir os dias que faltavam até à aposentadoria. A essa época,
    já restava em você muito pouco de mim.

    —Tinha onze anos de serviço. Esta era a diferença. Num
    emprego para o qual você—não eu—entrou, à custa de
    pedidos e influências. Lembre-se bem disto.

    —Não para passar a vida inteira. Não para passar mais
    de trinta anos. Cruzes num papel! Eu quis produzir artefatos de ferro,
    este era meu sonho. E você… Tudo isso me dá vontade de chorar.
    Fazer pequenas cruzes nos quadrados. Depois de algum tempo, aqueles anos
    pareciam um cemitério.

    —Você fala como se alguém pudesse alegrar-se em ver morrerem
    assim os dias. Mas tudo era feito com cólera. Eu odiava aquilo tanto
    quanto você.

    —De que servia essa cólera morta? Um preso é mais livre.
    Ele pensa num modo de escapar, mede a altura dos muros, a resistência
    das grades, procura ver se os guardas são venais. Não se
    limita a contar os dias da sentença. Vocês faziam cruzes nos
    quadrados. Só. Imaginavam ser diferentes dos outros. E talvez fossem,
    porém não em coisas importantes. Como todos eles, nunca tiveram
    coragem de ousar fosse o que fosse. Tudo girava em torno de proventos,
    gratificação, adicional, honorários, extraordinários,
    pró-labore, rendimentos, comissão, abono, vencimento, ordenado,
    remuneração, salário, recompensa em espécie,
    promoção, interstício e aposentadoria.

    (Certos parasitas invadem os formigueiros, comem todas as larvas e nem
    os ovos escapam à sua fome. Degradam as colônias invadidas,
    segregando um mel que não nutre as formigas e embriaga-as. Estas,
    alheias a tudo, dedicam-se aos invasores. Outras se tornam escravas de
    formigas guerreiras. Servem às conquistadoras, alimentam-nas, desdobram-se
    em cuidados ante a postura de suas inimigas. Elas próprias, contudo,
    não se reproduzem.)

    —Sua mãe procurava dar a impressão de mártir. De
    uma santa. Nunca vi alguém mais preocupado, neste mundo, em ter
    uma aparência angélica. Devia, para isto, cheirar melhor.
    Seus vestidos recendiam sempre a cachorro molhado.

    —Não é verdade.

    —Foi seu pai quem me disse. A comparação é dele.
    Nunca sabia nada, a ingênua. Tinha sempre a cabeça meio pendida,
    como a das imagens baratas, e as mãos cruzadas no regaço.
    Ignorava os escândalos mais notórios. Para fingir que não
    se ocupava dos assuntos alheios e ouvir mais uma vez, com novos pormenores,
    o que já sabia. Sempre admirando-se.

    —Apesar dos pesares, era boa mulher e carinhosa comigo. Quando eu me
    deitava, ela trazia algodão e me punha nas orelhas, para as formigas
    não entrarem. Insistia para que eu casasse. Contanto que ficasse
    na sua companhia.

    —Sabia que mulher nenhuma agüentaria isto. Sua maneira oblíqua
    de atormentar era invencível. Um dia eu vi quando seu pai indagou
    onde podia encontrar o pó de enxofre; estava com um acesso de urticária.
    Em vez de dizer onde escondera o remédio, ela sentou-se e passou
    meia hora falando sobre lepra. Mansamente. Depois levantou-se, mudou de
    vestido, calçou os sapatos e foi para a igreja. Sem pentear os cabelos.

    —Não é piedoso falar assim dos mortos.

    I8 Daqui podemos ver as cumeeiras das casas e as torres das igrejas;
    o claustro de São Francisco, deserto, com o Orbe Seráfico
    a descer do teto de madeira; as pedras lavradas da Igreja do Carmo; a águia
    bifronte com as asas abertas ante o púlpito, na Santa Casa da Misericórdia.
    A sudoeste, sob o luar, espraia-se o Recife, o casario ocupando as ilhas
    e a planície, escalando os morros periféricos. As luzes do
    farol giram com o rigor de planetas, o mar vai destruindo as casas dos
    Milagres.

    —Quantas vezes, Mendonça, você terá feito essa viagem
    diária entre Recife e Olinda? Não tem também uma folha
    de papel, para marcar as viagens com uma cruz? Há três anos
    e meio sua mãe faleceu. Qual tem sido agora o impedimento? Você
    me visita, sem objetivo, há vinte e oito anos.

    —Para falar a verdade, não me habituei ainda à idéia
    de casar-me. Esses anos todos de convivência com ela…

    —Por que noivou comigo então? Gastei minha vida nessa espera?

    8 Aparece na sala um escaravelho, voa sobre meus retratos, I
    bate no retrato de Giselda aos trinta e poucos anos, cai no chão
    de pernas para o ar, soergue-se. I8 Os dois emudecemos, olhamos
    suas asas membranosas, de um azul quase fosforescente. Outro, e mais outro,
    vêm do corredor, ambos cor de laranja, com breves manchas negras.
    O primeiro ergue vôo novamente, todos se entrecruzam, batem nas cadeiras,
    na lâmpada, na parede, no forro do piano, vão-se pela janela.
    I Com um estremecimento, Giselda cruza as mãos.

    —Não posso evitar: desde criança tenho pavor desses bichos.

    —Imagine se você visse algum inseto cavernícola, sem olhos,
    com as antenas maiores que os corpos.

    —Nem quero imaginar.

    —Ou as formigas processionárias africanas. Erram através
    das savanas e florestas, devorando as plantas e os bichos. Até as
    árvores fogem espavoridas.

    —Peço que não volte a falar nessas coisas.

    —É um assunto que ninguém pode ignorar. Estamos na época
    dos insetos: setecentos e cinqüenta mil para um milhão de espécies
    animais. Aviões rebocaram algumas redes, feitas de malhas finas,
    fizeram uma limpeza entre quatro mil e vinte mil metros. Onde o ar é
    mais puro e mais deserto. Apanharam trinta e seis milhões de insetos.
    Trinta e seis milhões, Giselda. Por isto eu havia começado
    a formular uma interpretação para o caso dos vidros fraturados.
    Acho que são eles os provocadores.

    —Quem?

    —Alguma espécie de insetos que eu chegaria talvez a identificar.
    As fraturas eram exclusivamente nas lâminas externas , isto é,
    no vidro Calorex. As 1âminas internas , as Athermanes,
    quando apresentavam defeitos, era por causa do que se chama “impacto
    mecânico acidental”. Ora, não existe nada, à exceção
    talvez de um burocrata, cujas reações sejam mais constantes
    e fatais que um inseto.

    —Certamente, Mendonça. E você é um exemplo, por
    mais que pense o contrário. Nos seus primeiros anos de emprego,
    olhava para os companheiros como se estivessem expostos a uma enfermidade
    contra a qual você era imunizado. Como se fosse possível atravessar
    sem perigo um campo de empestados. Falava nos portões que iria fabricar,
    nas grades para balcões, nos sustentos para jarros de flores. Ficávamos
    sentados à mesa, juntos, eu bordando o nosso enxoval, você
    desenhando os objetos que pensava fazer. De súbito, eu escutava
    um rumor como o que fazem os relógios de parede, antes de dar horas.
    Era você mesmo gerando-se em seu ventre, outro, não mais um
    homem, outro, um fibroma de palha e de barbante, com seu vocabulário
    reduzido e sagrado: requisições, modelos, requerimentos,
    autos, instruções, alíneas e parágrafos.

    —É possível que tenha razão. Uma coisa, porém,
    eu consegui: pensar. Fazia tudo que era preciso fazer, mas apenas com as
    mãos. Por dentro, alheio à minha atividade, eu zombava das
    obrigações. Há perceveaw6kx-do-mato que vivem até
    um ano sem cabeça. Todos os meus companheiros são assim.
    Eu, não. Não me compare com eles. Odeio e desprezo aqueles
    pobres de espírito, que atribuem mais importância às
    instruções que a si próprios. Desistiram todos de
    pensar; os regulamentos pensam por eles. Ao sentar-se nas carteiras, sentem
    que representam a Instituição, quase no mesmo sentido em
    que o Papa representa a Igreja. São intocáveis e não
    erram. Através deles os códigos se transformam em ação,
    qualquer coisa de cego e de concreto. Uma sentença. Todo despacho,
    todo carimbo, todo selo é uma sentença necessária
    e inflexível, um ato que se cumpre obrigatoriamente e que ninguém
    pode violar sem perigo. Por isto eu me prendi à tarefa das janelas.
    As manchas tinham formas que não se assemelhavam a selos nem carimbos.
    E quem sabe se, através desse trabalho, eu não chegaria também
    a restaurar o que houve de melhor em mim?

    (As vespas envenenam os porcos-do-mato e levam-nos para seus ninhos,
    paralisados. Suas larvas alimentam-se apenas de caça grossa e viva.
    Se, depois de haver aberto um túnel, sepultar o porco, depositar
    os ovos entre os seus espinhos e fechar o túnel, encontrar à
    entrada um bicho igual ao que acaba de deixar, abrirá novamente
    a galeria, voltando a fechá-la quando vir o porco sepultado e novamente
    a abri-la ante o porco insepulto, repetindo este jogo até cair de
    fadiga, incapaz de perceber que existe um animal enterrado e outro sobre
    a terra.)

    —As fraturas nos vidros do prédio não apresentavam orientação
    preferencial ou distribuição regular. Mas havia uma ordem,
    uma mecânica, um compasso como o dos insetos: em todos os andares,
    do primeiro ao décimo, observava-se maior freqüência
    de janelas fraturadas no segmento Leste da face Norte; no segmento Norte
    da face Oeste; e no segmento Oeste da face Sul. A freqüência
    de vidros fraturados diminuía gradativamente em direção
    oposta a cada um desses segmentos.

    8 O de cabelos grisalhos parece interessado, tem o ar de um pai
    que assiste o filho prestar bom exame:

    —E a face Este?

    —A face Este não é provida de janelas. Mas tudo indica
    que, se as possuísse, as mais atingidas seriam as do segmento Sul.
    Pode muito bem haver algum motivo para que a espécie de insetos
    responsável pelos estragos nos vidros tivesse inclinação
    pela aresta esquerda das superfícies verticais envidraçadas.
    Em Lima houve um edifício onde se observou o mesmo fenômeno.
    E as abelhas não executam, para indicar a fonte de alimento, uma
    dança complexa e exata, relacionada com a posição
    do sol? Assim, os insetos e a água se conjugariam para arruinar
    o prédio. A título de experiência, tentei evitar a
    entrada de água pelas gaxetas, vedando as bordas com mástique.
    Em algumas janelas, mandei substituir o par de lâminas por uma só
    lâmina de Calorex de seis milímetros de espessura,
    fixada com neoprene ou com massa não endurecível Igás,
    com bagueta. Veja bem: as janelas substituídas e não tratadas
    com mástique apresentaram um espectro de umidade na superfície
    interna das gaxetas; as outras resistiram à penetração
    da água. Mas tanto umas como outras continuaram a apresentar fraturas,
    naquele mesmo ritmo. Em algumas zonas fraturadas havia restos de matéria
    orgânica. Isto foi provado em exames de laboratório. Então
    pus-me a ler sobre insetos daninhos. Os que transmitem a peste, o cólera,
    o tifo, o tracoma, as disenterias, os sugadores de seiva, destruidores
    de frutos, roedores de sementes, comedores de folhas, de raízes,
    os inimigos dos animais domésticos, os que invadem continentes e
    flagelam regiões inteiras. Não encontrei referência
    a nenhum que destruísse os vidros. Mas aprendi uma coisa que me
    atordoa. Eles resistem a todo e qualquer tóxico e serão,
    um dia, os senhores da terra. Não é sem motivo que você
    estremece quando vê um besouro.

    8 Que importa, se não existirei e se de mim não
    haverá descendência? Eu seguia de ônibus, quando vi
    o pássaro: voou sobre a relva e alteou-se em direção
    à igreja. Foi nesse dia que o adolescente apareceu, suas campainhas
    soando com alegria no frígido silêncio desta sala. Eu e Mendonça
    tínhamos os dedos enlaçados; estávamos assim há
    muito tempo, sem falar, e nenhum sentia a mão do outro. Então
    ele surgiu, Mendonça aos dezessete anos, como surgiram há
    pouco esses besouros. Entrou sorrindo, abriu o piano, correu os dedos pelo
    teclado, perguntou se iamos casar. Mendonça parecia não vê-lo,
    respondi que sim, ofereci-lhe um cálice de licor.

    —Vocês já estão velhos demais para começar
    alguma coisa.

    8 Foi nesse momento, numa iluminação, que percebi
    minha ruína. Estava noiva há vinte e quatro anos e de modo
    algum tencionava ainda casar-me com este homem. Eu já o decidira.
    E não sabia.

    —Que terá sido feito de Raquel?

    8 Ouvi dentro do homem, cuaw6kx olhos feriam com desprezo e náusea
    o adolescente, um rumor de mola que se parte e vibra distendida, abafado
    ranger de parafusos, de pregos arrancados. Respondeu em voz quase inaudível:

    —Não sei quem era Raquel.

    —Como não sabe? Lembre-se. Foi naquele ano, logo depois da Guerra,
    quando reviveram a Festa do Frontispício, na Igreja do Carmo. A
    devoção da imagem no nicho da fachada. Todos de joelhos sobre
    as lajes do adro, à noite, rezando a ladainha. Como não se
    lembra? Ela estava junto de você. Você rezava dos dentes para
    fora. Pensou, quando ela sorriu: “É uma rapariga”. E ficou trêmulo.
    Não conhecia mulher.

    8 Ao meu lado, o barulho de metais era bem nítido e mais
    assustador: folhas de zinco dobradas pelo vento.

    —Não conhecia, Giselda. Foi ela quem tomou a mão dele
    e chamou: “Vamos”. Saíram pela Camboa do Carmo como namorados, dobraram
    a Travessa de São Pedro, cruzaram o Pátio, entraram por um
    matagal, ficaram nus. Ela forrou o vestido no capim. Ele pensava nas cobras,
    mas deitou-se. Quando explodiu a girândola, Mendonça estava
    sentado e só então viu o corpo da mulher, estendido no chão.
    Debruçou-se, Giselda, e beijou aqueles pés empoeirados. Então,
    começou a chover. Ele deitou-se novamente e disse: “Vamos ficar
    aqui, Raquel. Vamos nascer sob a chuva, como duas sementes”.

    —Amaram-se outra vez?

    —Isto. Amaram-se outra vez.

    8 A narrativa exaltara-me. Mas eu não sabia se era o acontecimento
    ou o próprio Mendonça que me comunicava o ardor dos dezessete
    anos. Seu júbilo aderia a tudo, os móveis pareciam mais novos,
    a sala mais clara, o piano ressoava às palavras lançadas
    com mais força. Até sua perfidia brilhava como um sol. Naquele
    instante me lembrei do pássaro—houvera-o esquecido—e achei que devia
    evocar tão raro e simples acontecimento. Vou de ônibus. Ao
    passar ante o Colégio da Sagrada Família, um pássaro
    desliza sobre a relva e, erguendo vôo, orienta-se em direção
    à rosácea da capela. Com o movimento do ônibus, há
    um instante, uma fração de segundo em que o vitral chameja,
    refletindo o sol, numa palpitação breve e cegante. No centro
    dessa chama está o pássaro suspenso. Ofuscada, não
    mais o vejo e tenho a impressão de que ele foi consumido por aquela
    pulsação, engolido ou reduzido a cinzas pelo vidro em fogo.

    —Podemos descobrir defesas contra a água, Giselda. Mas não
    contra os insetos. Justamente por serem tão pequenos, têm
    probabilidades enormes de sobreviver. Matam a sede numa gota dágua;
    num fragmento de palha escapam às inundações. Só
    há uma esperança: a extinção de numerosas formas
    foi precedida de uma tendência para o gigantismo. Crescer, para eles,
    é um inimigo mais fatal que os pássaros, os batráquios
    e os répteis. Nenhuma espécie de mimetismo os defende contra
    crescer muito. E inúmeros insetos estão crescendo. Descobrimos,
    esmagados contra uma janela, dois odonatos. Suas asas, cheias de nervuras
    grossas como veias, eram maiores que as de uma andorinha.

    8 Os dois antigos Mendonça, hoje tão silentes,
    erguem-se, dão-me adeus. É sempre assim: nunca se vão
    ao mesmo tempo este Mendonça e os outros, nunca chegam juntos e
    “eles” jamais aparecem sozinhos. Na soleira, o mais jovem se volta para
    o velho:

    —Não são os insetos que invadirão a terra. E sim
    os burocratas, Mendonça. Imagine que mundo. Depois de trinta anos,
    você nem sequer teve de quem se despedir.

    I Ela fecha a porta, senta-se à minha frente. Em bandos
    espessos, verdadeiras nuvens com a extensão de uma cidade grande,
    alguns, sem motivo plausível, cruzam os mares, percorrendo milhares
    de quilômetros, até se dissolverem. Certas espécies
    não comem durante a migração, conduzidas por um impulso
    maior do que tudo e composto de todos os impulsos que constituem a sua
    natureza: comer, cruzar, repousar, tudo se transforma em ir. O bater de
    suas asas pardas ouve-se à distância. Não sei mais
    como é o rosto de Giselda, nem o descobrirei nesses retratos onde
    ele se desfez, de mecha sobre a testa (à Clara Bow?), com franja
    negra, ruiva, de sobrancelhas altas, de olhos espantados, parte do rosto
    coberta pela cabeleira loura, e os cantos dos lábios voltados para
    baixo, imitando não sei que celebridade, seu último ídolo,
    liame final de seu espírito com um mundo mais alto, onde aspirou
    viver mesmo depois de extinta a juventude.

    —Você acha, Giselda, que o tempo traz obrigações?

    —Acho que, quando não se tem substância, tudo é
    pretexto para negações. Você foi um fracasso.

    —Devia ter visto o problema dos vidros? Até deslindá-lo?

    —Devia ter-se ligado realmente a alguém. Ou a alguma coisa. Você
    tem vivido como um doido que passasse vinte, trinta anos numa estação,
    sem decidir-se a tomar o trem ou a voltar para casa.

    —Se é isto o que pensa de mim, acho que devo ir embora.

    —Há quatro anos queria romper este noivado. Desde o dia em que
    o vi aos dezessete anos. Lembra-se?

    —Não.

    —Contei a história do pássaro que voou até à
    altura da rosácea e que desapareceu dentro do brilho de um vidro.
    Você me olhava, com seus olhos quase de criança, como se eu
    não houvesse concluído. Então você levantou-se
    e esmurrou-o. Foi como se agitasse uma porção de campainhas,
    como se batesse em tubos de prata. Não se lembra? Nenhum dos dois
    gritava nem gemia. Você abriu a porta, foi embora com as suas campainhas,
    você disse três ou quatro palavrões, apanhou o chapéu
    e saiu sem despedir-se, com dez polias zumbindo no seu coração
    de pó. Não se lembra?

    —Não. Não houve nada disso.

    —Fiquei sozinha, escutando ainda aquele som de prata, que repercutia
    pelo corredor, e asseverei a mim mesma que não me casaria com você,
    e que só a esperança de revê-lo aos dezessete anos
    impediria romper este noivado. Como você envelheceu, Mendonça!
    Por que só ouço agora, em sua alma, rangidos de ferragens?

    (Os insetos parecem criação de algum gênio ocioso
    e imaginativo. Corpos esféricos, em forma de gravetos, de sementes,
    de moedas, a cabeça alongada como faca, ápteros, de asas
    estendidas ou incrustadas no dorso, armados de pinças, de brocas,
    de aguilhões, de mandíbulas, olhos facetados, antenas, as
    pernas curtas, ou longas, ou incontáveis, negros, coloridos, mudos,
    vozes da Noite, cantores do Verão, úteis, predadores, habitantes
    das águas da superfície, das profundezas, do ar, eles, mais
    do que nenhuma outra espécie viva, sondam as possibilidades do mundo.)

    —Devem ter sido estes anos todos de ressentimento que mataram o que
    havia de melhor em mim.

    —Não existem mais cidades inexpugnáveis. Mas um homem,
    para ser saqueado, tem de abrir os portões.

    —Talvez houvesse gasto as minhas energias no esforço que fiz
    para me defender. Não queria ligar-me àquela gente. Não
    era como eles e detestava o que eram. Eu pensava. Pensei até o último
    instante, e o Chefe sabia. Sabia que eu desprezava todos os gestos mecânicos.
    Foi por isto que me confiou o problema dos vidros. Mas compreendi o ardil
    e fui embora. Pus o paletó, afastei a cadeira…

    —Agora, não precisa pôr o paletó. Nem afastar o
    sofá. Também não é preciso despedir-se.

    8 Duas aranhas saem da boca de Mendonça, descem pelo ombro,
    saltam para o chão, um grilo põe-se a cantar. Mariposas giram
    em torno da lâmpada. Pela janela aberta entra zumbindo uma nuvem
    de mosquitos. Na veneziana fechada aparece uma lagarta, gafanhotos pousam
    no sofá e na moldura do espelho. Na face exterior da vidraça
    vejo um louva-a-deus olhando-nos. Três besouros enormes irrompem
    zumbidores. Formigas vermelhas passam por baixo da porta, seguem em fila
    cerrada na direção do meu quarto. Enorme borboleta azul adeja
    sobre nós. Sinto na perna esquerda o rastro de uma centopéia.

    —Você não voltará a ver-me, Giselda. Em idade nenhuma.

    8 Passa por mim, com seu barulho de correntes arrastadas, de
    arame farpado rasgando couro de bois, de argola de rede gemendo ao peso
    de mortos soprados pelo vento. Fecho os olhos e recordo os alegres rumores
    cuja volta esperei em vão ao longo destes anos, sinetas de colégio,
    guizos, maracás, sons de brinquedos de corda, balanço de
    criança rangendo compassadamente em sombreados galhos de mangueira.

     

    “Noivado”, the original title of this short story
    was published in Nove, novena, Editora Companhia das Letras, São
    Paulo.

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