Dom Casmurro

    Dom Casmurro

    Seeing my distress and finding out why, a palm tree murmured that
    there was no harm in 15-year-old boys being on the corners with 14-year-old girls. Quite
    the opposite, at that age this was a youngster’s sole obligation and corners were made
    just for that.
    By Machado de Assis

    CAPÍTULO I

    DO TÍTULO

    Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei num trem da Central um
    rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao
    pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era
    curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como
    eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele
    interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.

    —Continue, disse eu acordando.

    —Já acabei, murmurou ele.

    —São muito bonitos.

    Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto;
    estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom
    Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram
    curso à alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos
    da cidade, e eles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: "Dom Casmurro,
    domingo vou jantar com você."—"Vou para Petrópolis, Dom Casmurro; a casa
    é a mesma da Renânia; vê se deixas essa caverna do Engenho Novo, e vai lá passar uns
    quinze dias comigo."—"Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do
    teatro amanhã; venha e dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou-lhe
    cama; só não lhe dou moça."

    Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe
    dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por
    ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei
    melhor título para a minha narração; se não tiver outro daqui até o fim do livro, vai
    este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno
    esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas
    terão isso dos seus autores; alguns nem tanto.

    CAPÍTULO II

    DO LIVRO

    Agora que expliquei o título, passo a escrever o livro. Antes disso, porém, digamos
    os motivos que me põem a pena na mão.

    Vivo só, com um criado. A casa em que moro é própria; fi-la construir de propósito,
    levado de um desejo tão particular que me vexa imprimi-lo, mas vá lá. Um dia. há
    bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua
    de Matacavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu.
    Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo prédio
    assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas e salas. Na
    principal destas, a pintura do teto e das paredes é mais ou menos igual, umas grinaldas
    de flores miúdas e grandes pássaros que as tomam nos bicos, de espaço a espaço. Nos
    quatro cantos do teto as figuras das estações, e ao centro das paredes os medalhões de
    César, Augusto, Nero e Massinissa, com os nomes por baixo… Não alcanço a razão de
    tais personagens. Quando fomos para a casa de Matacavalos, já ela estava assim decorada;
    vinha do decênio anterior. Naturalmente era gosto do tempo meter sabor clássico e
    figuras antigas em pinturas americanas. O mais é também análogo e parecido. Tenho
    chacarinha, flores, legume, uma casuarina, um poço e lavadouro. Uso louça velha e
    mobília velha. Enfim, agora, como outrora, há aqui o mesmo contraste da vida interior,
    que é pacata, com a exterior, que é ruidosa.

    O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a
    adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o
    rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros vá; um homem
    consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.
    O que aqui está é, mal comparando, semelhante à pintura que se põe na barba e nos
    cabelos, e que apenas conserva o hábito externo, como se diz nas autópsias; o interno
    não agüenta tinta. Uma certidão que me desse vinte anos de idade poderia enganar os
    estranhos, como todos os documentos falsos, mas não a mim. Os amigos que me restam são
    de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos-santos. Quanto às
    amigas, algumas datam de quinze anos, outras de menos, e quase todas crêem na mocidade.
    Duas ou três fariam crer nela aos outros, mas a língua que falam obriga muita vez a
    consultar os dicionários, e tal freqüência é cansativa. 

    Entretanto, vida diferente não quer dizer vida pior, é outra coisa. A certos
    respeitos, aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas é
    também exato que perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de memória, conservo alguma
    recordação doce e feiticeira. Em verdade, pouco apareço e menos falo. Distrações
    raras. O mais do tempo é gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e não durmo mal.

    Ora, como tudo cansa, esta monotonia acabou por exaurir-me também. Quis variar, e
    lembrou-me escrever um livro. Jurisprudência. filosofia e política acudiram-me, mas não
    me acudiram as forças necessárias. Depois, pensei em fazer uma História dos
    Subúrbios menos seca que as memórias do Padre Luís Gonçalves dos Santos relativas
    à cidade; era obra modesta, mas exigia documentos e datas como preliminares, tudo árido
    e longo. Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram a falar-me e a dizer-me
    que, uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os tempos idos, pegasse da pena e
    contasse alguns. Talvez a narração me desse a ilusão, e as sombras viessem perpassar
    ligeiras, como ao poeta, não o do trem, mas o do Fausto: Aí vindes outra vez,
    inquietas sombras?…

    Fiquei tão alegre com esta idéia, que ainda agora me treme a pena na mão. Sim, Nero,
    Augusto, Massinissa, e tu, grande César, que me incitas a fazer os meus comentários,
    agradeço-vos o conselho, e vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindo.
    Deste modo, viverei o que vivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo. Eia,
    comecemos a evocação por uma célebre tarde de novembro, que nunca me esqueceu. Tive
    outras muitas, melhores, e piores, mas aquela nunca se me apagou do espírito. É o que
    vais entender, lendo.

    CAPÍTULO III

    A DENÚNCIA

    Ia entrar na sala de visitas, quando ouvi proferir o meu nome e escondi-me atrás da
    porta. A casa era a da Rua de Matacavalos, o mês novembro, o ano é que é um tanto
    remoto, mas eu não hei de trocar as datas à minha vida só para agradar às pessoas que
    não amam histórias velhas; o ano era de 1857.

    —D. Glória, a senhora persiste na idéia de meter o nosso Bentinho no seminário?
    É mais que tempo, e já agora pode haver uma dificuldade.

    —Que dificuldade?

    —Uma grande dificuldade.

    Minha mãe quis saber o que era. José Dias, depois de alguns instantes de
    concentração, veio ver se havia alguém no corredor; não deu por mim, voltou e,
    abafando a voz, disse que a dificuldade estava na casa ao pé, a gente do Pádua.

    —A gente do Pádua?

    —Há algum tempo estou para lhe dizer isto, mas não me atrevia. Não me parece
    bonito que o nosso Bentinho ande metido nos cantos com a filha do Tartaruga, e esta é a
    dificuldade, porque se eles pegam de namoro, a senhora terá muito que lutar para
    separá-los.

    —Não acho. Metidos nos cantos?

    —É um modo de falar. Em segredinhos, sempre juntos. Bentinho quase que não sai
    de lá. A pequena é uma desmiolada; o pai faz que não vê; tomara ele que as coisas
    corressem de maneira que… Compreendo o seu gesto; a senhora não crê em tais cálculos,
    parece-lhe que todos têm a alma cândida…

    —Mas, Sr. José Dias, tenho visto os pequenos brincando, e nunca vi nada que faça
    desconfiar. Basta a idade; Bentinho mal tem quinze anos. Capitu fez quatorze à semana
    passada; são dois criançolas. Não se esqueça que foram criados juntos, desde aquela
    grande enchente, há dez anos, em que a família Pádua perdeu tanta coisa; daí vieram as
    nossas relações. Pois eu hei de crer?… Mano Cosme, você que acha?

    Tio Cosme respondeu com um "Ora!" que, traduzido em vulgar, queria dizer:
    "São imaginações do José Dias; os pequenos divertem-se, eu divirto-me; onde está
    o gamão?"

    —Sim, creio que o senhor está enganado.

    —Pode ser, minha senhora. Oxalá tenham razão; mas creia que não falei senão
    depois de muito examinar…

    —Em todo caso, vai sendo tempo, interrompeu minha mãe; vou tratar de metê-lo no
    seminário quanto antes.

    —Bem, uma vez que não perdeu a idéia de o fazer padre, tem-se ganho o principal.
    Bentinho há de satisfazer os deseaw6kx de sua mãe e depois a Igreja brasileira tem altos
    destinos. Não esqueçamos que um bispo presidiu a Constituinte, e que o Padre Feijó
    governou o império…

    —Governou como a cara dele! atalhou tio Cosme, cedendo a antigos rancores
    políticos.

    —Perdão, doutor, não estou defendendo ninguém, estou citando. O que eu quero é
    dizer que o clero ainda tem grande papel no Brasil.

    —Você o que quer é um capote; ande, vá buscar o gamão. Quanto ao pequeno, se
    tem de ser padre, realmente é melhor que não comece a dizer missa atrás das portas.
    Mas, olhe cá, mana Glória, há mesmo necessidade de fazê-lo padre?

    —É promessa, há de cumprir-se.

    —Sei que você fez promessa… mas uma promessa assim… não sei… Creio que,
    bem pensado… Você que acha, prima Justina?

    —Eu?

    —Verdade é que cada um sabe melhor de si, continuou tio Cosme; Deus é que sabe
    de todos. Contudo, uma promessa de tantos anos… Mas, que é isso, mana Glória? Está
    chorando? Ora esta! Pois isto é coisa de lágrimas?

    Minha mãe assoou-se sem responder. Prima Justina creio que se levantou e foi ter com
    ela. Seguiu-se um alto silêncio, durante o qual estive a pique de entrar na sala, mas
    outra força maior, outra emoção… Não pude ouvir as palavras que tio Cosme entrou a
    dizer. Prima Justina exortava: "Prima Glória! Prima Glória!" José Dias
    desculpava-se: "Se soubesse, não teria falado, mas falei pela veneração, pela
    estima, pelo afeto, para cumprir um dever amargo, um dever amaríssimo…"

    CAPÍTULO IV

    UM DEVER AMARÍSSIMO!

    José Dias amava os superlativos. Era um modo de dar feição monumental às idéias;
    não as havendo, servia a prolongar as frases. Levantou-se para ir buscar o gamão, que
    estava no interior da casa. Cosi-me muito à parede, e vi-o passar com as suas calças
    brancas engomadas, presilhas, rodaque e gravata de mola. Foi dos últimos que usaram
    presilhas no Rio de Janeiro, e talvez neste mundo. Trazia as calças curtas para que lhe
    ficassem bem esticadas. A gravata de cetim preto, com um arco de aço por dentro,
    imobilizava-lhe o pescoço; era então moda. O rodaque de chita, veste caseira e leve,
    parecia nele uma casaca de cerimônia. Era magro, chupado, com um princípio de calva;
    teria os seus cinqüenta e cinco anos. Levantou-se com o passo vagaroso do costume, não
    aquele vagar arrastado dos preguiçosos, mas um vagar calculado e deduzido, um silogismo
    completo, a premissa antes da conseqüência, a conseqüência antes da conclusão. Um
    dever amaríssimo!

    CAPÍTULO V

    O AGREGADO

    Nem sempre ia naquele passo vagaroso e rígido. Também se descompunha em acionados,
    era muita vez rápido e lépido nos movimentos, tão natural nesta como naquela maneira.
    Outrossim, ria largo, se era preciso, de um grande riso sem vontade, mas comunicativo, a
    tal ponto as bochechas, os dentes, os olhos, toda a cara, toda a pessoa, todo o mundo
    pareciam rir nele. Nos lances graves, gravíssimo.

    Era nosso agregado desde muitos anos; meu pai ainda estava na antiga fazenda de
    Itaguaí, e eu acabava de nascer. Um dia apareceu ali vendendo-se por médico homeopata;
    levava um Manual e uma botica. Havia então um andaço de febres; José Dias curou
    o feitor e uma escrava, e não quis receber nenhuma remuneração. Então meu pai
    propôs-lhe ficar ali vivendo, com pequeno ordenado. José Dias recusou, dizendo que era
    justo levar a saúde à casa de sapé do pobre.

    —Quem lhe impede que vá a outras partes? Vá aonde quiser, mas fique morando
    conosco.

    —Voltarei daqui a três meses.

    Voltou dali a duas semanas, aceitou casa e comida sem outro estipêndio, salvo o que
    quisessem dar por festas. Quando meu pai foi eleito deputado e veio para o Rio de Janeiro
    com a família, ele veio também, e teve o seu quarto ao fundo da chácara. Um dia,
    reinando outra vez febres em Itaguaí, disse-lhe meu pai que fosse ver a nossa
    escravatura. José Dias deixou-se estar calado, suspirou e acabou confessando que não era
    médico. Tomara este título para ajudar a propaganda da nova escola, e não o fez sem
    estudar muito e muito; mas a consciência não lhe permitia aceitar mais doentes.

    —Mas, você curou das outras vezes.

    —Creio que sim; o mais acertado, porém, é dizer que foram os remédios indicados
    nos livros. Eles, sim, eles, abaixo de Deus. Eu era um charlatão… Não negue; os
    motivos do meu procedimento podiam ser e eram dignos; a homeopatia é a verdade, e, para
    servir à verdade, menti; mas é tempo de restabelecer tudo.

    Não foi despedido, como pedia então; meu pai já não podia dispensá-lo. Tinha o dom
    de se fazer aceito e necessário; dava-se por falta dele, como de pessoa da família.
    Quando meu pai morreu, a dor que o pungiu foi enorme, disseram-me; não me lembra. Minha
    mãe ficou-lhe muito grata, e não consentiu que ele deixasse o quarto da chácara; ao
    sétimo dia. depois da missa, ele foi despedir-se dela.

    —Fique, José Dias.

    —Obedeço, minha senhora.

    Teve um pequeno legado no testamento, uma apólice e quatro palavras de louvor. Copiou
    as palavras, encaixilhou-as e pendurou-as no quarto, por cima da cama. "Esta é a
    melhor apólice", dizia ele muita vez. Com o tempo, adquiriu certa autoridade na
    família, certa audiência, ao menos; não abusava, e sabia opinar obedecendo. Ao cabo,
    era amigo, não direi ótimo, mas nem tudo é ótimo neste mundo. E não lhe suponhas alma
    subalterna; as cortesias que fizesse vinham antes do cálculo que da índole. A roupa
    durava-lhe muito; ao contrário das pessoas que enxovalham depressa o vestido novo, ele
    trazia o velho escovado e liso, cerzido, abotoado, de uma elegância pobre e modesta. Era
    lido, posto que de atropelo, o bastante para divertir ao serão e à sobremesa, ou
    explicar algum fenômeno, falar dos efeitos do calor e do frio, dos pólos e de
    Robespierre. Contava muita vez uma viagem que fizera à Europa, e confessava que a não
    sermos nós, já teria voltado para lá; tinha amigos em Lisboa, mas a nossa família,
    dizia ele, abaixo de Deus, era tudo.

    —Abaixo ou acima? perguntou-lhe tio Cosme um dia.

    —Abaixo, repetiu José Dias cheio de veneração.

    E minha mãe, que era religiosa, gostou de ver que ele punha Deus no devido lugar, e
    sorriu aprovando. José Dias agradeceu de cabeça. Minha mãe dava-lhe de quando em quando
    alguns cobres. Tio Cosme, que era advogado, confiava-lhe a cópia de papéis de autos.

    CAPÍTULO VI

    TIO COSME

    Tio Cosme vivia com minha mãe, desde que ela enviuvou. Já então era viúvo, como
    prima Justina; era a casa dos três viúvos.

    A fortuna troca muita vez as mãos à natureza. Formado para as serenas funções do
    capitalismo, tio Cosme não enriquecia no foro: ia comendo. Tinha o escritório na antiga
    Rua das Violas, perto do júri, que era no extinto Aljube. Trabalhava no Crime. José Dias
    não perdia as defesas orais de tio Cosme. Era quem lhe vestia e despia a toga, com muitos
    cumprimentos no fim. Em casa, referia os debates. Tio Cosme, por mais modesto que quisesse
    ser. sorria de persuasão. 

    Era gordo e pesado, tinha a respiração curta e os olhos dorminhocos. Uma das minhas
    recordações mais antigas era vê-lo montar todas as manhãs a besta que minha mãe lhe
    deu e que o levava ao escritório. O preto que a tinha ido buscar à cocheira segurava o
    freio, enquanto ele erguia o pé e pousava no estribo; a isto seguia-se um minuto de
    descanso ou reflexão. Depois, dava um impulso, o primeiro, o corpo ameaçava subir, mas
    não subia; segundo impulso, igual efeito. Enfim, após alguns instantes largos, tio Cosme
    enfeixava todas as forças físicas e morais, dava o último surto da terra, e desta vez
    caía em cima do selim. Raramente a besta deixava de mostrar por um gesto que acabava de
    receber o mundo. Tio Cosme acomodava as carnes, e a besta partia a trote.

    Também não me esqueceu o que ele me fez uma tarde. Posto que nascido na roça (donde
    vim com dois anos) e apesar dos costumes do tempo, eu não sabia montar, e tinha medo ao
    cavalo. Tio Cosme pegou em mim e escanchou-me em cima da besta. Quando me vi no alto
    (tinha nove anos), sozinho e desamparado, o chão lá embaixo, entrei a gritar
    desesperadamente: "Mamãe! mamãe!" Ela acudiu pálida e trêmula, cuidou que me
    estivessem matando, pegou-me, afagou-me, enquanto o irmão perguntava:

    —Mana Glória, pois um tamanhão destes tem medo de besta mansa?

    —Não está acostumado.

    —Deve acostumar-se. Padre que seja, se for vigário na roça, é preciso que monte
    a cavalo; e, aqui mesmo, ainda não sendo padre, se quiser florear como os outros rapazes,
    e não souber, há de queixar-se de você, mana Glória.

    —Pois que se queixe; tenho medo.

    —Medo! Ora, medo!

    A verdade é que eu só vim a aprender equitação mais tarde, menos por gosto que por
    vergonha de dizer que não sabia montar. "Agora é que ele vai namorar deveras",
    disseram quando eu comecei as lições. Não se diria o mesmo de tio Cosme. Nele era velho
    costume e necessidade. Já não dava para namoros. Contam que, em rapaz, foi aceito de
    muitas damas, além de partidário exaltado; mas os anos levaram-lhe o mais do ardor
    político e sexual, e a gordura acabou com o resto de idéias públicas e específicas.
    Agora só cumpria as obrigações do ofício e sem amor. Nas horas de lazer vivia olhando
    ou jogava. Uma ou outra vez dizia pilhérias.

    CAPÍTULO VII

    D. GLÓRIA

    Minha mãe era boa criatura. Quando lhe morreu o marido, Pedro de Albuquerque Santiago,
    contava trinta e um anos de idade, e podia voltar para Itaguaí. Não quis; preferiu ficar
    perto da igreja em que meu pai fora sepultado. Vendeu a fazendola e os escravos, comprou
    alguns que pôs ao ganho ou alugou, uma dúzia de prédios, certo número de apólices, e
    deixou-se estar na casa de Matacavalos, onde vivera os dois últimos anos de casada. Era
    filha de uma senhora mineira, descendente de outra paulista, a família Fernandes.

    Ora, pois, naquele ano da graça de 1857, D. Maria da Glória Fernandes Santiago
    contava quarenta e dois anos de idade. Era ainda bonita e moça, mas teimava em esconder
    os saldos da juventude, por mais que a natureza quisesse preservá-la da ação do tempo.
    Vivia metida em um eterno vestido escuro, sem adornos, com um xale preto, dobrado em
    triângulo e abrochado ao peito por um camafeu. Os cabelos, em bandós, eram apanhados
    sobre a nuca por um velho pente de tartaruga; alguma vez trazia touca branca de folhas.
    Lidava assim, com os seus sapatos de cordovão rasos e surdos, a um lado e outro, vendo e
    guiando os serviços todos da casa inteira, desde manhã até a noite.

    Tenho ali na parede o retrato dela, ao lado do do marido, tais quais na outra casa. A
    pintura escureceu muito, mas ainda dá idéia de ambos. Não me lembra nada dele, a não
    ser vagamente que era alto e usava cabeleira grande; o retrato mostra uns olhos redondos,
    que me acompanham para todos os lados, efeito da pintura que me assombrava em pequeno. O
    pescoço sai de uma gravata preta de muitas voltas, a cara é toda rapada, salvo um
    trechozinho pegado às orelhas. O de minha mãe mostra que era linda. Contava então vinte
    anos, e tinha uma flor entre os dedos. No painel parece oferecer a flor ao marido. O que
    se lê na cara de ambos é que, se a felicidade conjugal pode ser comparada à sorte
    grande, eles a tiraram no bilhete comprado de sociedade.

    Concluo que não se devem abolir as loterias. Nenhum premiado as acusou ainda de
    imorais, como ninguém tachou de má a boceta de Pandora, por lhe ter ficado a esperança
    no fundo; em alguma parte há de ela ficar. Aqui os tenho aos dois bem casados de outrora,
    os bem-amados, os bem-aventurados, que se foram desta para a outra vida, continuar um
    sonho provavelmente. Quando a loteria e Pandora me aborrecem, ergo os olhos para eles, e
    esqueço os bilhetes brancos e a boceta fatídica. São retratos que valem por originais.
    O de minha mãe, estendendo a flor ao marido, parece dizer: "Sou toda sua, meu guapo
    cavalheiro!" O de meu pai, olhando para a gente, faz este comentário: "Vejam
    como esta moça me quer…" Se padeceram moléstias, não sei, como não sei se
    tiveram desgostos: era criança e comecei por não ser nascido. Depois da morte dele,
    lembra-me que ela chorou muito; mas aqui estão os retratos de ambos, sem que o encardido
    do tempo lhes tirasse a primeira expressão. São como fotografias instantâneas da
    felicidade.

    CAPÍTULO VIII

    É TEMPO

    Mas é tempo de tornar àquela tarde de novembro, uma tarde clara e fresca, sossegada
    como a nossa casa e o trecho da rua em que morávamos. Verdadeiramente foi o princípio da
    minha vida; tudo o que sucedera antes foi como o pintar e vestir das pessoas que tinham de
    entrar em cena, o acender das luzes, o preparo das rabecas, a sinfonia… Agora é que eu
    ia começar a minha ópera. "A vida é uma ópera", dizia-me um velho tenor
    italiano que aqui viveu e morreu… E explicou-me um dia a definição, em tal maneira que
    me fez crer nela. Talvez valha a pena dá-la; é só um capítulo.

    CAPÍTULO IX

    A ÓPERA

    Já não tinha voz, mas teimava em dizer que a tinha. "O desuso é que me faz
    mal", acrescentava. Sempre que uma companhia nova chegava da Europa, ia ao
    empresário e expunha-lhe todas as injustiças da terra e do céu; o empresário cometia
    mais uma, e ele saía a bradar contra a iniqüidade. Trazia ainda os bigodes dos seus
    papéis. Quando andava, apesar de velho, parecia cortejar uma princesa de Babilônia. As
    vezes, cantarolava, sem abrir a boca, algum trecho ainda mais idoso que ele ou tanto;
    vozes assim abafadas são sempre possíveis. Vinha aqui jantar comigo algumas vezes. Uma
    noite, depois de muito Chianti, repetiu-me a definição do costume, e como eu lhe
    dissesse que a vida tanto podia ser uma ópera, como uma viagem de mar ou uma batalha,
    abanou a cabeça e replicou:

    —A vida é uma ópera e uma grande ópera. O tenor e o barítono lutam pelo
    soprano, em presença do baixo e dos comprimários, quando não são o soprano e o
    contralto que lutam pelo tenor, em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimários.
    Há coros a numerosos, muitos bailados, e a orquestração é excelente…

    —Mas, meu caro Marcolini…

    —Quê?…

    E, depois de beber um gole de licor, pousou o cálix, e expôs-me a história da
    criação, com palavras que vou resumir.

    Deus é o poeta. A música é de Satanás, jovem maestro de muito futuro, que aprendeu
    no conservatório do céu. Rival de Miguel, Rafael e Gabriel, não tolerava a precedência
    que eles tinham na distribuição dos prêmios. Pode ser também que a música em demasia
    doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu gênio
    essencialmente trágico. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo, e ele expulso do
    conservatório. Tudo se teria passado sem mais nada, se Deus não houvesse escrito um
    libreto de ópera do qual abrira mão, por entender que tal gênero de recreio era
    impróprio da sua eternidade. Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. Com o
    fim de mostrar que valia mais que os outros,—e acaso para reconciliar-se com o
    céu,—compôs a partitura, e logo que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno.

    —Senhor, não desaprendi as lições recebidas, disse-lhe. Aqui tendes a
    partitura, escutai-a emendai-a, fazei-a executar, e se a achardes digna das alturas,
    admiti-me com ela a vossos pés…

    —Não, retorquiu o Senhor, não quero ouvir nada.

    —Mas, Senhor…

    —Nada! nada!

    Satanás suplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cansado e cheio de
    misericórdia, consentiu em que a ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um
    teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes,
    primárias e comprimárias, coros e bailarinos.

    —Ouvi agora alguns ensaios!

    —Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libreto; estou
    pronto a dividir contigo os direitos de autor.

    Foi talvez um mal esta recusa; dela resultaram alguns desconcertos que a audiência
    prévia e a colaboração amiga teriam evitado. Com efeito, há lugares em que o verso vai
    para a direita e a música, para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a
    beleza da composição, fugindo à monotonia, e assim explicam o terceto do Éden, a ária
    de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão. Não é raro que os mesmos lances se
    reproduzam, sem razão suficiente. Certos motivos cansam à força de repetição. Também
    há obscuridades; o maestro abusa das massas corais, encobrindo muita vez o sentido por um
    modo confuso. As partes orquestrais são aliás tratadas com grande perícia. Tal é a
    opinião dos imparciais.

    Os amigos do maestro querem que dificilmente se possa acha obra tão bem acabada. Um ou
    outro admite certas rudezas e tais ou quais lacunas, mas com o andar da ópera é
    provável que estas sejam preenchidas ou explicadas, e aquelas desapareçam inteiramente,
    não se negando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todo ao
    pensamento sublime do poeta. Já não dizem o mesmo os amigos deste. Juram que o libreto
    foi sacrificado, que a partitura corrompeu o sentido da letra, e, posto seja bonita em
    alguns lugares, e trabalhada com arte em outros, é absolutamente diversa e até
    contrária ao drama. O grotesco, por exemplo, não está no texto do poeta; é uma
    excrescência para imitar as Mulheres Patuscas de Windsor. Este ponto é contestado
    pelos satanistas com alguma aparência de razão. Dizem eles que, ao tempo em que o jovem
    Satanás compôs a grande ópera, nem essa farsa nem Shakespeare eram nascidos. Chegam a
    afirmar que o poeta inglês não teve outro gênio senão transcrever a letra da ópera,
    com tal arte e fidelidade, que parece ele próprio o autor da composição; mas,
    evidentemente, é um plagiário.

    —Esta peça, concluiu o velho tenor, durará enquanto durar o teatro, não se
    podendo calcular em que tempo será ele demolido por utilidade astronômica. O êxito é
    crescente. Poeta e músico recebem pontualmente os seus direitos autorais, que não são
    os mesmos, porque a regra da divisão é aquilo da Escritura: "Muitos são os
    chamados, poucos os escolhidos". Deus recebe em ouro, Satanás em papel.

    —Tem graça…

    —Graça? bradou ele com fúria; mas aquietou-se logo, e replicou:—Caro
    Santiago, eu não tenho graça, eu tenho horror à graça. Isto que digo é a verdade pura
    e última. Um dia, quando todos os livros forem queimados por inúteis, há de haver
    alguém, pode ser que tenor, e talvez italiano, que ensine esta verdade aos homens. Tudo
    é música, meu amigo. No princípio era o dó, e do dó fez-se ré,
    etc. Este cálix (e enchia-o novamente), este cálix é um breve estribilho. Não se ouve?
    Também não se ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na mesma ópera…

    CAPÍTULO X

    ACEITO A TEORIA

    Que é demasiada metafísica para um só tenor, não há dúvida; mas a perda da voz
    explica tudo, e há filósofos que são, em resumo, tenores desempregados.

    Eu, leitor amigo, aceito a teoria do meu velho Marcolini, não só pela
    verossimilhança, que é muita vez toda a verdade, mas porque a minha vida se casa bem à
    definição. Cantei um duo terníssimo, depois um trio, depois um quatuor…
    Mas não adiantemos; vamos à primeira parte, em que eu vim a saber que já cantava,
    porque a denúncia de José Dias, meu caro leitor, foi dada principalmente a mim. A mim é
    que ele me denunciou.

    CAPÍTULO XI

    A PROMESSA

    Tão depressa vi desaparecer o agregado no corredor, deixei o esconderijo, e corri à
    varanda do fundo. Não quis saber de lágrimas nem da causa que as fazia verter a minha
    mãe. A causa eram provavelmente os seus projetos eclesiásticos, e a ocasião destes é a
    que vou dizer, por ser já então história velha; datava de dezesseis anos.

    Os projetos vinham do tempo em que fui concebido. Tendo-lhe nascido morto o primeiro
    filho, minha mãe pegou-se com Deus para que o segundo vingasse, prometendo, se fosse
    varão, metê-lo na Igreja. Talvez esperasse uma menina. Não disse nada a meu pai, nem
    antes, nem depois de me dar à luz, contava fazê-lo quando eu entrasse para a escola, mas
    enviuvou antes disso. Viúva, sentiu o terror de separar-se de mim; mas era tão devota,
    tão temente a Deus, que buscou testemunhas da obrigação, confiando a promessa a
    parentes e familiares. Unicamente, para que nos separássemos o mais tarde possível,
    fez-me aprender em casa primeiras letras, latim e doutrina, por aquele Padre Cabral, velho
    amigo do tio Cosme, que ia lá jogar às noites.

    Prazos largos são fáceis de subscrever; a imaginação os faz infinitos. Minha mãe
    esperou que os anos viessem vindo. Entretanto ia-me afeiçoando à idéia da Igreja;
    brincos de criança, livros devotos, imagens de santos, conversações de casa, tudo
    convergia para o altar. Quando íamos à missa, dizia-me sempre que era para aprender a
    ser padre, e que reparasse no padre, não tirasse os olhos do padre. Em casa, brincava de
    missa,—um tanto às escondidas, porque minha mãe dizia que missa não era coisa de
    brincadeira. Arranjávamos um altar, Capitu e eu. Ela servia de sacristão, e alterávamos
    o ritual, no sentido de dividirmos a hóstia entre nós, a hóstia era sempre um doce. No
    tempo em que brincávamos assim, era muito comum ouvir à minha vizinha: "Hoje há
    missa?" Eu já sabia o que isto queria dizer, respondia afirmativamente, e ia pedir
    hóstia por outro nome. Voltava com ela, arranjávamos o altar, engrolávamos o latim e
    precipitávamos as cerimônias. Dominus, non sum dignus… Isto, que eu devia dizer
    três vezes, penso que só dizia uma, tal era a gulodice do padre e do sacristão. Não
    bebíamos vinho nem água; não tínhamos o primeiro, e a segunda viria tirar-nos o gosto
    do sacrifício.

    Ultimamente não me falavam já do seminário, a tal ponto que eu supunha ser negócio
    findo. Quinze anos, não havendo vocação, pediam antes o seminário do mundo que o de S.
    José. Minha mãe ficava muita vez a olhar para mim, como alma perdida, ou pegava-me na
    mão, a pretexto de nada, para apertá-la muito.

    CAPÍTULO XII

    NA VARANDA

    Parei na varanda; ia tonto, atordoado, as pernas bambas, o coração parecendo querer
    sair-me pela boca fora. Não me atrevia a descer à chácara, e passar ao quintal vizinho.
    Comecei a andar de um lado para outro, estacando para amparar-me, e andava outra vez e
    estacava. Vozes confusas repetiam o discurso do José Dias:

    "Sempre juntos…"

    "Em segredinhos…"

    "Se eles pegam de namoro…"

    Tijolos que pisei e repisei naquela tarde, colunas amareladas que me passastes à
    direita ou à esquerda, segundo eu ia ou vinha, em vós me ficou a melhor parte da crise,
    a sensação de um gozo novo, que me envolvia em mim mesmo, e logo me dispersava, e me
    trazia arrepios, e me derramava não sei que bálsamo interior. Às vezes dava por mim,
    sorrindo, um ar de riso de satisfação, que desmentia a abominação do meu pecado. E as
    vozes repetiam-se confusas:

    "Em segredinhos…"

    "Sempre juntos…"

    "Se eles pegam de namoro…"

    Um coqueiro, vendo-me inquieto e adivinhando a causa, murmurou de cima de si que não
    era feio que os meninos de quinze anos andassem nos cantos com as meninas de quatorze, ao
    contrário, os adolescentes daquela idade não tinham outro ofício, nem os cantos outra
    utilidade. Era um coqueiro velho, e eu cria nos coqueiros velhos, mais ainda que nos
    velhos livros. Pássaros, borboletas, uma cigarra que ensaiava o estilo, toda a gente viva
    do ar era da mesma opinião.

    Com que então eu amava Capitu, e Capitu a mim? Realmente, andava cosido às saias
    dela, mas não me ocorria nada entre nós que fosse deveras secreto. Antes dela ir para o
    colégio, eram tudo travessuras de criança; depois que saiu do colégio, é certo que
    não estabelecemos logo a antiga intimidade, mas esta voltou pouco a pouco, e no último
    ano era completa. Entretanto, a matéria das nossas conversações era a de sempre. Capitu
    chamava-me às vezes bonito, mocetão, uma flor; outras pegava-me nas mãos para contar-me
    os dedos. E comecei a recordar esses e outros gestos e palavras, o prazer que sentia
    quando ela me passava a mão pelos cabelos, dizendo que os achava lindíssimos. Eu, sem
    fazer o mesmo aos dela, dizia que os dela eram muito mais lindos que os meus. Então
    Capitu abanava a cabeça com uma grande expressão de desengano e melancolia, tanto mais
    de espantar quanto que tinha os cabelos realmente admiráveis; mas eu retorquia
    chamando-lhe maluca. Quando me perguntava se sonhara com ela na véspera, e eu dizia que
    não, ouvia-lhe contar que sonhara comigo, e eram aventuras extraordinárias, que
    subíamos ao Corcovado pelo ar, que dançávamos na lua, ou então que os anaw6kx vinham
    perguntar-nos pelos nomes, a fim de os dar a outros anaw6kx que acabavam de nascer. Em todos
    esses sonhos andávamos unidinhos. Os que eu tinha com ela não eram assim, apenas
    reproduziam a nossa familiaridade, e muita vez não passavam da simples repetição do
    dia, alguma frase, algum gesto. Também eu os contava. Capitu um dia notou a diferença,
    dizendo que os dela eram mais bonitos que os meus, eu, depois de certa hesitação,
    disse-lhe que eram como a pessoa que sonhava… Fez-se cor de pitanga.

    Pois, francamente, só agora entendia a emoção que me davam essas e outras
    confidências. A emoção era doce e nova, mas a causa dela fugia-me, sem que eu a
    buscasse nem suspeitasse. Os silêncios dos últimos dias, que me não descobriam nada,
    agora os sentia como sinais de alguma coisa, e assim as meias palavras, as perguntas
    curiosas, as respostas vagas, os cuidados, o gosto de recordar a infância. Também
    adverti que era fenômeno recente acordar com o pensamento em Capitu, e escutá-la de
    memória, e estremecer quando lhe ouvia os passos. Se se falava nela, em minha casa,
    prestava mais atenção que dantes, e, segundo era louvor ou crítica, assim me trazia
    gosto ou desgosto mais intensos que outrora, quando éramos somente companheiros de
    travessuras. Cheguei a pensar nela durante as missas daquele mês, com intervalos, é
    verdade, mas com exclusivismo também.

    Tudo isto me era agora apresentado pela boca de José Dias, que me denunciara a mim
    mesmo, e a quem eu perdoava tudo, o mal que dissera, o mal que fizera, e o que pudesse vir
    de um e de outro. Naquele instante, a eterna Verdade não valeria mais que ele, nem a
    eterna Bondade, nem as demais Virtudes eternas. Eu amava Capitu! Capitu amava-me! E as
    minhas pernas andavam, desandavam, estacavam, trêmulas e crentes de abarcar o mundo. Esse
    primeiro palpitar da seiva, essa revelação da consciência a si própria, nunca mais me
    esqueceu, nem achei que lhe fosse comparável qualquer outra sensação da mesma espécie.
    Naturalmente por ser minha. Naturalmente também por ser a primeira.

    Excerpted from Dom Casmurro by Machado de Assis, Edições de
    Ouro, Rio de Janeiro, 1969, 272 pp

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