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Lost Horizon

Lost Horizon

The elopement would happen on the wedding’s eve, the day when the
old Manuel Querino was throwing a party. Until then there was only one thing to take care
of: the horse. Because both would not renege on their word given each other. The promise
was under oath, and they had invoked God’s name.
By Luís Jardim

A casa da fazenda do velho Manuel Querino era separada do chiqueiro das cabras por uma
porteirinha que dava para o cercado da roça. Vicência Querino abaixou-se para passar
entre os dois paus da porteira e ficou, curvada, com um pé descansando no pau e outro mal
apoiado no chão, escutando um aboio longínquo que se perdia no meio do mato.

De quem seria aquele aboio sonoro, saudoso, tão diferente de todos os aboios já
decorados pelos seus ouvidos espertos? De Manuelzinho, seu irmão? De Tiúba, o vaqueiro
das Lavras? De Quincas, de Leonilo, de João de Souza? Não, aquele aboio não saía de
nenhuma boca sua conhecida. Era com certeza de alguém estranho, conduzindo alguma rês
rebelde pelas terras do pai dela. Algum vaqueiro das bandas de lá do Grotão ou do
Toquinho, do lado de lá daquelas serras azuis por onde ela nunca andara. Aquelas serras
azuladas, distantes, no meio das quais se distinguia uma pequenina mancha branca que
diziam ser a igreja de Buíque. E como seriam aqueles lugares? Que haveria por lá de
estranho para os seus olhos tão ignorantes e ao mesmo tempo tão ansiosos de novas
paisagens?

O aboio foi despertando o pensamento de Vicência e ela aos poucos se perdia com ele,
como de hábito, em indagações curiosas—como seria isto, como seria aquilo.
Esquecida, a perna curvada adormecia sobre o pau da porteira. O formigueiro dominava o
pé, já inerte, e subia perna acima, como se lhe dessem um número sem conta de
espetadelas de alfinete. Vicência fez uma careta, puxou a perna devagarinho e saiu
manquejando, fazendo uma cara de riso enjoado, praguejando sem raiva:

—Diabo leve essa dormência! Estou que nem velha de juntas travadas!

Adiante Vicência estacou, dando palmadinhas na perna. E enquanto soltava pragas tolas
contra a dormência, o aboio se aproximava, varando a caatinga. Às vezes, quando o vento
mudava de direção, o aboio chegava aos seus ouvidos como um apito de cigarra, triste
como os cantos de fim de tarde. Era antes um gemido do que um canto. Variações de notas
sem palavras, sem significação, mas tão expressivas no seu sentido de tristeza e de
saudade. E o aboio tristonho vinha vindo pelo meio do mato, ora mais perto, ora mais
longe, enchendo de curiosidade os ouvidos espertos de Vicência Querino. Ela ajeitava a
mão no ouvido para ouvir melhor; entortava o pescoço, espichava-o; voltava-se para uma
direção, para outra e fazia-se perguntas mentais: "De quem será, meu Deus? De quem
será essa voz tão bonita?" Apertava os olhos, prendia a respiração, esquecia os
outros sentidos para aguçar o do ouvido.

Seria para pressentir, para adivinhar alguma coisa, todo esse interesse? Não.
Vicência Querino não ouvia daquele aboio nenhuma nota pela qual a lembrança de outra se
despertasse. Aquela curiosidade nascera de repente, sem causas anteriores, simplesmente
pelo gosto do desconhecido, do ignorado. Talvez a mesma curiosidade que lhe despertavam as
serras azuladas lá distante. Apenas, como via as serras desde que se entendera de gente,
e por elas tinha uma estranha curiosidade, ela mesma fantasiava o que de grandioso pudesse
haver do lado de lá: fazendas sempre verdes, gado sempre gordo, cavalos bonitos,
corredores, e a vida fácil entre vaquejadas alegres e cocos bem cantados.

Uma figura de vaqueiro, apagada, indistinta, entrava a mais nessa fantasia, superando
as qualidades de outros vaqueiros, de outros homens seus conhecidos; essa figura era o
melhor cavaleiro, o mais coraaw6kxo, o mais bonito de todos. Vicência Querino porém não
personificava em ninguém conhecido o herói dos seus devaneios de sertaneja de vinte e
cinco anos. Era uma figura, um ser existente apenas no seu pensamento sonhador. Por isso o
dono daquela voz não lhe despertava a lembrança, mesmo involuntária, de nenhum homem
conhecido. Era somente uma voz desconhecida, como lhe eram desconhecidos o herói dos seus
sonhos e a vida do lado de lá das serras. No entanto, a curiosidade de Vicência era cada
vez maior, à proporção que o canto se aproximava.

Não tardou que várias reses aparecessem correndo no fim do pátio, defronte de casa,
tangidas pelo caminho do Vaquejador. Vicência destacou entre elas um boiato de oito
arrobas, raposo, de cabeça levantada, espantadiço, incerto na carreira por estranhar
talvez as paragens em que pisava. Certamente era aquela rês que o dono da voz buscava no
meio do gado. Os chocalhos das vacas despertaram a atenção do velho Manuel Querino. O
velho veio então ao alpendre, acompanhado da Anália, a filha mais nova. Olharam o gado.
Comentaram.

Dois homens a pé, de varas na mão, arrebanhavam as reses. Atrás, meio envolvida na
poeira, distinguia-se a figura dum cavaleiro. Visto de longe, esfumado no pó, lembrava o
vulto de um toco queimado. As reses estacaram, cercadas. O cavaleiro chegou as esporas no
cavalo, contornou de longe o rebanho e dirigiu-se a galope para a casa do velho Manuel
Querino.

Vicência, encostada num esteio do alpendre, observava a figura do desconhecido,
falando com o velho. Seus ouvidos guardaram estas palavras: "Como vai você, João
Toté?" "Que rês é essa?" "De que morreu a finada?" Guardara
somente algumas perguntas do pai, feitas aos berros, porque ele era surdo, mas as
respostas do desconhecido lhe escaparam. Ouvira uma ou outra articulação, sem sentido,
lembrando o mesmo timbre do aboio.

Quando o vaqueiro se dirigia ao rebanho, o velho Querino gritou para a filha:

—Abre ali a porteira do curral, Vicência, que Toté vai prender o gado pra botar
um cambão no boiato!

Vicência correu, satisfeita por prestar aquele serviço. Abriu a porteira e trepou-se
na cerca, um pouco afastada para não espantar o gado.

João Toté vinha atrás do rebanho, dirigindo o cavalo para um lado, para outro,
cercando-o. Usava paletó preto, camisa preta e perneiras de couro. Batendo com o chapéu
de couro nas perneiras, a cabeleira preta, basta, certinha atrás como a de uma imagem de
santo, sacudia-se toda na cadência das pancadas. Vicência achava-a bonita.

As primeiras reses transpuseram a porteira e João Toté levou a mão à boca, ajudando
o aboio. Assim de perto o aboiar do vaqueiro ainda era mais bonito. As notas não se
perdiam, não se destorciam pelo vento. Eram firmes, sonoras, tristonhas.

Vicência Querino não tirava os olhos de cima dele. Além da cabeleira achava bonitos
os olhos pretos, grandes; o pescoço bem feito, folgado na camisa aberta; o jeito mole do
corpo em cima do cavalo fogoso, o bigodinho descaído nos cantos da boca.

Com o gado preso, o velho Querino aproximou-se, gritando:

—Reimosinho, o malvado do boiato! E a pinta é boa, Toté! É pra carro?

João Toté explicou que o boiato era manhoso, tendente a embrabecer, arredio de curral
e de gado manso. Era para vender em S. Caetano, porque dali sempre para pior. Para touro
não servia. Procedia de vaca cachecha e pingadeira de leite. E nove arrobinhas por cento
e oitenta, em tempos daqueles, eram na verdade um bom negócio.

—E se não fosse o seu curral, "seu" Querino,—disse João Toté,
terminando a história do boi,—o garrote valentão me deixava no mato. Fizemos até
um estragozinho num descampado que tem aqui embaixo, perto já do seu cercado. O bichinho
corre! Mas corre mais este castanho que o senhor está vendo!—e alisou as crinas do
cavalo, agradando-o.

Deram um dedo de prosa sobre outros assuntos. Por fim João Toté pediu:

—Agora, enquanto Severiano laça o bicho, queria que vosmecê me emprestasse uma
foice. É pra cortar um cambãozinho pro malcriado.

—Pegue se aqui com essa menina—respondeu o velho apontando Vicência,—
que é o homem da casa!

E explicou porque ela era o homem, fazendo cara de riso:

—Esta, a mais nova, é achacada que nem a mãe. Os meus dois homens, Quinca e
Manuelzinho, são plantação de fim de safra: não dão pra nada! Se essa não
amofinar—insistia, apontando Vicência—é quem vai continuar a raça. Porque o
resto, Toté, só tem vista como melancia de beira de riacho: dentro é aguada que só
miolo de facheiro!

O velho ria-se da própria mangação e João Toté protestou por delicadeza:

—É assim o que, "seu" Querino! O galho pode ser torto, mas brota de
tronco linheiro. E quem dá valor à madeira é o nome.

O velho voltou-se, ainda rindo, e insistiu:

—Não é tanto assim não, Toté! No telhado lá da meia-água tem até sucupira
dando cupim!

—É porque tem madeira ruim junto dela!

—Pode ser!—disse o velho.—Mas eu já não posso cortar madeira nova,
estou de dias contados e os dois homens cá de casa só cuidam de caça.

Vicência apresentou-se a João Toté, estirando-lhe a mão, meio acanhada. E indagou,
espantando-o com a experiência que tinha das coisas práticas, dos serviços de homem,
como insinuara o velho:

—Se o boiato é brabo mesmo, o melhor é um cambão novo. A gente tem aí alguns
deles, mas secos, umas penas. O senhor não acha melhor cortar um novo, mais pesado porque
a madeira é verde?

João Toté aceitou esse conselho, dando razão à moça, mas teria aceito qualquer
outro por acanhamento. Vicência correu à casa, apanhou a foice e amolou-a às pressas na
pedra. Depois convidou o vaqueiro:

—O senhor pode me acompanhar. Aqui bem detrás da casa tem uma imburana boa.

Os dois sumiram-se na vereda, sem trocar uma palavra. A árvore esgalhava-se por sobre
um matinho safado, mirrado da sombra enorme. Embaixo dela havia pedras espalhadas, bem
limpas, sinal de que costumavam descansar por ali. Vicência, de foice na mão, estacou
junto ao tronco da imburana, e indagou do vaqueiro:

—Quer cambão bem torto?

Dominado pela disposição da moça, confirmando as referências do pai, João Toté
respondeu, sem saber ao certo o que queria:

— É! Bem torto. Pode ser bem torto.

Vicência desfechou então um golpe de foice no galho a cavaleiro, com toda a força, e
o ferro enterrou se, rangindo na madeira fraca. E quando fazia esforço para a
desencravar, João Toté dominou-se, deu um passo rápido para ela, segurando-a no braço,
exclamando:

—Largue isso, moça! Isso não é serviço de mulher!

Ela respondeu um "que é que tem?" embaraçado, entregando-lhe o instrumento.
Obedecido, João Toté criou alma nova. E, mais senhor de si, mais senhor dos encantos da
moça, aventurou uma opinião:

—Moça do vosso tope, minha filha ou minha mulher, não fazia serviço de homem!

Vicência riu-se, baixando a vista. E ele insistiu, fazendo um intervalo nos golpes que
dava:

—E mesmo em serviço de mulher a senhora não botava muito as mãos.

Acanhado do que dissera, quase sem sentir, dissimulou o embaraço vingando-se na
imburana: deu um golpe tão forte e adoidado que a foice, cortando o galho já meio penso,
enterrou-se violentamente no chão. Por felicidade não lhe cortara o pé. Vicência
adiantou-se, aflita, e ponderou:

—Cuidado, "seu" João, não vá fazer arte!

O medo da moça, traindo a sua disposição de homem, agradou a João Toté. E ele
agradeceu intencionalmente aquele interesse:

—O vosso cuidado era até por pouca coisa, D. Vicência. Gente do meu tope, com
pé ou sem pé vale a mesma coisa, que nao é muita!

Ela não deu resposta. As razões dele não eram as razões dela.

Voltaram à casa. Feito o cambão, João Toté não tinha mais o que esperar. Soltaram
o gado e o boiato saiu se embaraçando no pau entre as mãos, tangido pelos dois homens.
João Toté despediu-se de Anália e de Vicência. Deu a mão ao velho, prometendo
aparecer no dia do amansamento dos animais. E já montado, agradecendo a franqueza do
velho, referiu-se a Vicência:

—Quem tem uma prenda assim, "seu" Querino, não se queixa do povo que
possui. Olhe que deixa muita gente no canto da cerca!

O velho respondeu, rindo, no seu jeito de fazer restrições a tudo:

—Não é tanto assim não, Toté! Não é tanto assim não…

O vaqueiro juntou as esporas no cavalo, levantou o chapéu e correu em direção ao seu
pessoal, que se sumia no caminho do Vaquejador.

De longe, como quando ele vinha vindo, chegou novamente aos ouvidos de Vicência o
aboio saudoso. Somente o aboio era mais bonito e mais triste, e ela agora sabia de quem
era. Olhando, olhando por muito tempo a direção que ele tomou, a mesma onde ficavam, bem
distantes, as serras azuladas, Vicência Querino sentiu como se já não tivesse aquela
mesma curiosidade pelo que de estranho pudesse haver do lado de lá. As serras eram então
como uma paisagem conhecida.

* * *

Mais de vinte vaqueiros estavam espalhados no pátio da Lagoinha, a fazenda do velho
Manuel Querino. Descansavam do almoço sob as árvores, uns conversando, outros
modorrando. Depois, então, recomeçariam o amansamento dos animais. Antes do almoço
montaram de preferência os animais mais novos, menos brabos. Ficaram para o resto da
tarde as burras e burros já taludos, as poldras e poldros valentões.

Em casa, o pessoal da família cuidava de uma coisa, de outra. Uma menina de cabelo
assanhado varria a saleta cheia de cascas de laranjas e de sobras de palhas de cigarro.

O velho Querino, sentado na rede, na sala da frente, conversava com vários amigos,
muitos já da sua idade. João Toté estava na roda, escutando a conversa. O velho narrava
as suas proezas no tempo de moço. E era um gosto ouvi-lo falar de terras estranhas, de
vaquejadas famosas, no tempo em que havia vaqueiros de verdade. Hoje, todos concordavam,
não havia mais. Restava um ou outro cavaleiro perdido no sertão, mas sem mais aquele
gosto pelo trabalho do campo. Também já não era possível exigir-se de um homem o
trabalho exclusivo de montar a cavalo, de tanger o gado. Naqueles tempos antigos uma vaca
de cria valia quarenta mil-réis e uma cuia de farinha se comprava por uma pataca. O caso
agora era diferente. O vaqueiro se via obrigado a tomar outros encargos: a botar roçado,
a criar porco, a trabalhar na enxada. Já ninguém podia perder mais tempo em preparar boi
brabo para uma vaquejada. E até, parecia, os próprios boiatos de hoje eram mirrados, sem
sustança e coragem de correr. Mesmo as danças eram sem vida, sem animação. Onde mais
um coco de durar três dias, como tantas vezes o velho Querino assistira por este mundo a
fora? E os cabras? Quem via mais um cabra interromper uma luta, almoçar, descansar, e
começar de novo, como o célebre Braúna, homem disposto e fazendeiro até de posses?

—O meu tempo era outro, insistia o velho Querino, orgulhoso do seu passado

Era um passado cheio de aventuras sertanejas: cavalos famosos; pegas de boi; parelhas
trocadas de durar noites; juntas para limpar roçados; cachaça; feiras ruidosas, brigas,
tiros, facadas, mas nem uma figura de mulher. A mulher não merecia uma lembrança, não
entrava no rol das aventuras. Só mesmo a mulher cuja disposição ou coragem se
equiparasse à do homem, como uma D. Sebastiana, da Estrela-d’Alva, que acuara dois homens
na ponta do punhal.

João Toté, acompanhando com interesse a narrativa do velho, teve medo de que
Vicência não fosse também assim: valentona, esperta demais. Não desejava uma mulher
que lhe tomasse o fôlego, que falasse mais alto do que ele. Por outro lado não queria
uma mulher moleirona, cheia de dengues como a sua finada. A sua mulher morrera de moleza,
quase de preguiça. Quando se sentava não levantava mais, deixando tudo por fazer, as
galinhas, os bichos tomando conta da casa. Ficava-se durante horas esquecidas esparramada
numa esteira, de almofada parada entre as pernas, com o olhar cravado em pontos perdidos.
De longe, ele ainda se lembrava muito bem, via-se-lhe a amarelidão da cara, onde dois
olhos piongos mal se mexiam. A pobre da lesma não agüentara o primeiro parto. Assim,
como a finada, ele não queria não. Mas não queria Vicência tão disposta a ponto de
resolver-lhe os negócios, de tomar a tarefa que cabia a ele como homem da casa. João
Toté perdera o fio da conversa do velho, e divagava com aquela idéia. Nem ouvia o que
diziam, as opiniões que trocavam. A figura de Vicência enchia-lhe o pensamento, cheia de
gestos masculinos, de ordens de macho, de arrancos de valentão. Bem que o velho a gabara
pela sua desenvoltura, pela sua coragem. Ela era o homem da casa. E seria, como homem, o
continuador da raça. Mas a raça a continuar, se eles dois se casassem, não seria a do
velho, mas a sua própria. O nome Querino desapareceria e só haveria de ficar o dele:
Toté. Podia ser também que até não fosse assim como ele estava pensando. Toda mulher
que ele conhecia—até mesmo a velha sua mãe—quando não era doente, era sempre
desembaraçada, disposta. Vicência teria tomado a dianteira na família porque a irmã
era achacada e os irmãos dois preguiçosos de marca, viciados na caça, na vadiação.
Mesmo, reparando bem, que diabo ela fizera de mais para tanto receio? Abrir uma porteira,
dar um talho de foice? Isso até menino fazia. E fora afinal só o que ele vira. O mais
era gabolice do pai, valorizando o que era seu.

—Essa aqui, tenho cá as minhas dúvidas que não me envergonha não!—disse o
velho Querino apontando Vicência, que entrava na sala com um tição na mão.—Tem
muito da têmpera antiga, e se digo isso não é porque ela seja minha filha. Os outros
também são e eu digo que não dão um caldo. Mas eu com essa digo que não temo muito
homem que conheço.

Vicência entregou o tição ao padrinho, o velho Jacinto Querino, o irmão mais velho
do pai. João Toté fitava-a meio atoleimado. Parara de pensar, dominado pela presença da
moça. E os seus argumentos sumiram-se de vez, como absurdos, sem que a insistência de
Querino sobre as qualidades másculas da filha o impressionassem mais. Desde que chegara,
mal a tinha avistado. E a sua presença ali, pertinho dele, alvoroçava-o. Parecia mais
bonita do que nunca. Cabelos castanho-claros, quase louros, olhos verdes e azuis, o rosto
oval e bem feito como uma palminha de quipá. Nela ficavam bem até aquelas duas espinhas
nascendo, puxando sangue para a face. João Toté notava tudo, encantado, e já não o
atormentava mais a idéia de mulher-homem valentona, dominando. Agora pensava ao
contrário: duas forças juntas valiam até mais. Nela tudo ficava bem e a sua figura de
mulher impunha-se dominadora. Quase riu-se, sentindo-se bem interiormente. A idéia de
casar-se com ela, de tê-la, dono de todos aqueles encantos e qualidades, aliviava-o de um
peso sem causa que vinha sentindo. Era como se desabafasse de uma coisa, de um desânimo.
Uma coisa como incerteza ou impossibilidade. Mas incerteza de que, se ele sabia que a
moça gostava dele? E impossibilidade por que, se nenhuma oposição poderia haver da
parte do pai dela, as duas famílias sendo do mesmo nível?

O velho Manuel Querino por sua vez tomou o tição, soprou a brasa mortiça. Vicência
esperava de lado, cabisbaixa. A fumaça ardia nos olhos do velho, ele recuava o rosto, e o
cigarro de palha passava de um canto a outro da boca, meio mastigado. O velho deu a
primeira baforada, depois de um espaço deu outra e não entregou o tição à filha.
Apertou os olhinhos miúdos, como se ainda ardessem e fitou por algum tempo João Toté.
João Toté mexeu-se no banco e tossiu sem vontade. O velho então fez uma cara de riso,
aquele risozinho mangador que precedia e findava toda a sua conversa:

—Cá na minha opinião água salgada com água doce não presta. Vira água
salobra. Eu só bebo água dum pote só. E bem assim é raça que muito se mistura. Com
essa idéia é que eu guardei Vicência pra se casar com Batista, o filho mais velho aqui
do compadre e mano Jacinto. Havendo barulho fica nas paredes da mesma casa.

Vicência não deu uma palavra, não teve um gesto. O rosto não revelou o menor
contentamento ou a menor tristeza. Era como se nada tivesse ouvido. Todos a olhavam,
curiosos. João Toté empalideceu e baixou a cabeça, raspando com a unha a tábua do
tamborete. O tio falou:

—Caso ela esteja de acordo, posso garantir que o meu filho faz melhor negócio do
que ela.

O velho Manuel Querino dessa vez não riu e afirmou de cara fechada:

—Eu nunca me governei quando tinha pai. Filho meu, eu vivo, também não se
governa! Palavra dada é palavra a cumprir. Pega o tição, Vicência, e traz aqui um
cafezinho pra gente! Pouco tempero pra teu tio.

Vicência retirou-se de cabeça baixa. Os homens na sala gabavam a moça,
comentavam-lhe as prendas. Depois o assunto foi casamento. Falaram do de sicrano e do de
beltrano. O velho Jacinto lembrou, gracejando:

—Toté está na vez de casar de novo. Quem casa uma vez fica no costume.

Tiúba, o vaqueiro das Lavras, tirou pilhéria com o amigo:

—Essa cabeleira de promessa tange as moças, Toté!

João Toté riu-se, sem dar resposta. O velho Manuel Querino tomou aquele seu ar
mangador de sempre e deu a sua opinião:

—Homem, se eu fosse mulher, o diabo é quem se casava com viúvo! Viúvo é café
requentado.

Deram gargalhadas, fizeram outras comparações. João Toté, enfiado, aceitava sem
resposta as brincadeiras que faziam com ele. Caetano, um vizinho do velho Querino,
protestou:

—Já não sou do mesmo pensar, Manuel! Porque tenho cá pra mim que a viúva do
finado Chiquinho do Tanque Novo ainda transtorna qualquer vivente…

—Isso é viúva, rabo de saia!—respondeu o velho Querino, dando uma
gaitada.—Viúvo é café choco e viúva é rapadura. Café sem tempero não vai, mas
o tempero dele serve até puro mesmo.

A gargalhada estalou e todos falaram ao mesmo tempo, sem se destacar o que de
particular dizia nenhum deles. Anália entrou na sala com uma porção de xícaras e a
marmita do café. O velho Querino reparou a ausência da outra filha e disse à Anália:

—Serviço que um começa o outro não deve acabar.

—Ela não trouxe o café, pai, porque foi no caldeirão buscar um pote de água.
Não tinha ninguém que fosse.

Um bando de vaqueiros chegou à porta, reclamando que estava na hora. O sol já pendia
há muito e restavam ainda dezesseis animais. Uns tomaram um cafezinho, outros pediram
água.

A sala ficou vazia e todos os homens se dirigiram para o curral. As mulheres foram
depois. Os vaqueiros decidiram, como já era um pouco tarde, que os animais fossem
montados de dois em dois. Selaram primeiro uma burra e um poldro do velho Jacinto.
Esperavam que esses animais fossem valentes, porque os sinais eram bons, não enganavam.
Dois vaqueiros de fama montaram. A burra ainda deu uns pinotes, mastigando o freio,
assanhada do berreiro que faziam. O poldro entretanto ficou tremendo sob o cavaleiro. De
ventas acesas, dava de vez em quando um coicezinho sem coragem. Depois, acossado nas
esporas, correu num chouto maneiro, puxando a baixo.

—É de sela! E de nascença!—gritou o velho Manuel Querino.

—Pode ser. Mas eu não gosto de animal que não esperneia quando leva sela pela
primeira vez. É mau sinal!—respondeu o irmão.

A burra, perto do aceiro do pátio, quis desgarrar pelo mato, numa carreira adoidada,
mas um vaqueiro segurou-a pelo freio. Endireitou a bicha para o lado de casa, deu-lhe uma
palmada na anca, e ela saiu às popas, num galopinho assanhado. Acabaram não dando o que
esperavam.

Montaram outros animais, uns mais teimosos, outros menos. Graça de verdade teve a
queda de Luís Broca, enganchado no estribo, as costas ralando-se pela terra. Mais adiante
o burro parou, olhando Luís Broca espernear no barro como um bode na capação. O mais
brabo dos animais tinha sido mesmo a poldra alazã de Tiúba. Montou-a um tal Jeremias, um
vaqueiro desconhecido, trazido de propósito pelo dono da égua. O homem era cavaleiro de
fato. As suas mãos, quando montava, não conheciam arção de sela. Montava com
segurança, sem temer tamanho ou fama. Com a poldra de Tiúba tinha sido assim. Ajoujou-a
nas esporas, o chicote comia por cima, e a bicha velha, dando pinotes de onça agastada,
nem aluiu o homem enfincado em cima dela como uma estaca em terra dura. Nos pulos, um pé
saiu do estribo. O vaqueiro nem deu pela coisa, assanhando cada vez mais a poldra
valentona. Abarcou com as pernas o bucho da égua, largou o freio, açoitando o chicote,
ora na anca, ora na cabeça, de modo que ela se azougasse ainda mais.O animal fez roda,
adoidado, e disparou, tomando sempre a direção que Jeremias queria. Cansada, espumando,
as ventas abertas como dois bueiros, a poldra acabou deixando-se montar por duas vezes sem
reagir. Por fim, dando-a por pronta, o vaqueiro assinalou-a a seu jeito: curvou-se no
pescoço da poldra e assentou dente numa das orelhas. A bicha deu uma popa, tomou impulso
e saiu a toda em direção ao curral. O tal Jeremias desmontou-se com o animal correndo.
Meteu-lhe os dedos nas ventas escancaradas e gritou, acalmando-a:

—Deixa de brabeza, mofina! E reconhece que tu te pegaste foi com um homem! O que
tinhas em cima de ti não era uma forquilha não, zambete! Era um par de pernas de
verdade!

Deu-lhe ainda umas boas tabicadas, e a poldra encolheu-se toda, de rabo entre as pernas
como um cachorro apanhado. Depois da poldra de Tiúba, os animais que se montaram não
passavam, na opinião de Jeremias, de umas grelhas de cangalha. Restavam somente quatro.
Dois deles, os que seriam montados primeiro, diziam os vaqueiros ser brabos de verdade.
Seria montado um de cada vez, porque eram poucos.

João Toté, calado até ali, escorado sem coragem nos paus-a-pique do curral,
prontificou-se a montar o castanho dum fazendeiro da Ribeira. O dono preveniu-o:

—Não tendo boa perna não se atreva, moço, que o bichinho é manhoso!

João Toté respondeu de cara fechada, como se tivesse motivos íntimos para a resposta
brusca:

—Também sou de boa raça, "seu" Lucas! Não vou além das minhas
posses, mas dentro delas sou senhor!

Pulou em cima do animal, já selado, e deu garra do freio.

Encostou com força as esporas bem no vão no poldro, e o poldro, possante, alto, quase
cavalo feito, saiu aos coices, aos saltos, de pescoço arqueado.

O velho Manuel Querino, junto de Lucas, ouvira a resposta do viúvo. Virou-se então
para Vicência e disse baixinho, como se confiasse um segredo que só gente de casa
pudesse ouvir:

—De boa raça, sim senhor, mas o pai roubou cavalo!

Vicência encarou o velho, sem revelar espanto pela acusação. Depois, sem um
transtorno na fisionomia, acompanhou com a vista o movimento do cavalo montado por João
Toté.

No meio do pátio, dando pinotes como um gato, o cavalo rodava, corria, procurando
livrar-se do cavaleiro. O chicote cobria-lhe a anca sem pena. E as pernas do vaqueiro,
acompanhando o movimento do braço no castigo, chegavam-lhe rudemente as esporas. O
cavalo, atordoado, desembestou de arranco em direção ao grosso do pessoal reunido em
torno dum pé de piranha, e estacou de repente, as pernas traseiras levantando-se numa
popa danada. Sem esperar, de mãos soltas, João Toté precipitou-se pelo pescoço do
cavalo, estendendo-se de mau jeito no chão. O pé, na volta que o loro deu, ficou preso
no estribo, quase amarrado. O poldro espantou se, azucrinado ainda mais pela sela que
virava no espinhaço, e correu num galopão, aos coices, arrastando o cavaleiro. Os
vaqueiros correram em socorro. Vicência acompanhou-os, e mais adiante, ligeira como um
gato maracajá, deu garra do beiço do poldro, torcendo-o com toda a força. Jeremias
também estava em cima do bicho, segurando a brida. O poldro deu um gemido, recuando.
Manquejou nas pernas traseiras, e ficou sem ação, de boca escancarada, com a brida
cortando e o beiço torcido na mão da moça. As carnes gordas do peito tremiam,
enegrecidas do suor. Desembaraçaram João Toté e ele se levantou, meio amarelo,
afirmando que não tinha sido nada. Queria montar de novo. Aconselharam que não, já
bastava. Era coisa que sucedia. E o dono do poldro, vingando-se da resposta brusca sem
motivo, repetiu o conselho:

—Eu bem que preveni. E preveni por prevenir!

Mas João Toté insistia, queria montar outra vez. Danara-se porque Vicência, como um
macho disposto, fora quem o acudira primeiro. Teve ímpetos de dizer que mulher cuidava
era de galinha e de bacorinho. Aquilo era uma desmoralização, um desaforo. Quem quisesse
ser homem que vestisse um par de calças. E como ele insistisse no propósito de montar,
sem saber ao certo o que falava, pensando no que deveria dizer a Vicência, os vaqueiros
se calaram, acanhados de aconselhar em vão. Mas o velho Manuel Querino interveio:

—Já se sabe que você tem boa perna, Toté! Não precisa provar não. Isso de
cair, cai-se até da rede parada. Sabemos que você monta. Toda a sua raça foi sempre
cavaleira. Cavalo era com vocês.

Disse isso rindo, olhando a filha. João Toté também olhou-a. E os olhos de Vicência
não lhe pareceram de homem, de valentão. Eram claros, mansos, sem a pinta vermelha de
macho brabo. Olhos bonitos, serenos, que nada diziam, além da boniteza que tinham. João
Toté acalmou-se, dominado. Teve quase medo e vergonha de Vicência. E arrependeu-se da
ofensa que lhe fizera em pensamento. Até admitiu, satisfeito da hipótese:
"Acudiu-me de bem querer."

Um menino trouxe um caneco de água para ele. D. Quitéria, a mãe de Vicência,
aconselhou-o:

—É bom, "seu" Toté! Tome sempre um golezinho. Pra queda e susto água
fria é remédio.

João Toté aceitou a água, sentindo-se bem com tantos cuidados. Nisto ouviu-se um
barulho. O vaqueiro Jeremias, aproveitando a indecisão do viúvo, saltara em cima do
cavalo e saíra com ele aos pulos, gritando:

—Agora é comigo, grelha! É comigo, me derruba, me arranca da sela!

O cavalo, já bem desasnado da primeira prova, deu pulos sem gosto, sem o mesmo
ímpeto. Jeremias gritava, de braços levantados, metendo as esporas no poldro. O pessoal
todo assistia e gabava o vaqueiro. O velho Manuel Querino gritou, rindo:

—Esse é de verdade! Esse não cai assim com dois poréns não! O bicho é dos
meus!

E, pilheriando, voltou-se para João Toté:

—Aprende, Toté! Toma aí uma liçãozinha!

Riram-se todos. João Toté também riu, meio encabulado. Com mais umas carreiras o
poldro estava pronto, assinalado ao modo de Jeremias. E ele, envaidecido dos elogios,
acabou montando os três animais restantes. A festa terminou com o sol já posto, quase
escurecendo. Os vaqueiros trataram de selar os cavalos, encabrestar os animais desasnados.
João Toté procurava os seus arreios, sem saber onde os tinham botado. Vicência indicou:

—Pra não haver muita mistura, pendurei com outros ali na imburana.

Foram juntos buscá-los. Vicência mesma tomou a sela num braço, o freio e a manta no
outro. Quando os entregava a João Toté, disse em voz baixa:

—Fiquei sem jeito com as brincadeiras de pai, na vista de gente. Pai quer que eu
case com Batista mas eu não caso.

João Toté, sem esperar por aquilo, ficou embaraçado e não disse uma palavra.
Ouviram passos. Era o velho Manuel Querino. O velho, rindo-se, aos berros, foi dizendo:

—Não disse a você que Vicência era o homem da casa, Toté! Se ela não
ajudasse, você podia sair daqui numa rede. É que você não sabe, mas a queda foi feia,
de mau jeito. Perdi um primo numa dessas. Homão!

João Toté só fazia rir, sem achar palavras. Retirou-se já noite escura, o horizonte
perdido nas trevas.

* * *

Num domingo, dia de feira em Capoeiras, João Toté encontrou-se com Vicência Querino.
Ela havia ido ao povoado, acompanhada do irmão Manuelzinho, assistir ao batizado de uma
prima. João Toté perturbou-se com a presença da moça na venda de João Borrego.
Dirigiu-se a ela meio atarantado, sem saber como começasse. Vicência olhou-o. E
recebeu-o contente, sem se alterar. Era como se visse um conhecido antigo. Apertaram-se as
mãos e João Toté, antes de perguntar pela gente dela, referiu-se à queda:

—Ainda estou envergonhado do quedaço, moça! Passei por um molengo mas eu até
nem sou desprevenido de segurança.

Vicência riu-se e inquiriu:

—O senhor não sentiu mais nada? A gente lá em casa ficou até com cuidado. Mãe
disse: Pinhão roxo é bom.—Nada, D. Vicência! Só foi o susto. Não sei mesmo o que
era que eu tinha pra se dar aquele cochilo. Podia até ter morrido. Também se morresse,
que diabo de falta eu fazia?

Vicência ficou calada por algum tempo. Depois olhou em redor e disse baixinho:

—A gente às vezes pensa que não faz, mas faz.

—Fazia o que, moça! Quem era que ia se lembrar de mim? Poucos amigos, e mulher
não tenho, nem filhos. Bem eu cá suspeito, ninguém me quer! Pra resumir, dona, eu sou
dos tais que quando querem ir por um caminho, chegam os outros e fecham a porteira.

—Quando se quer passar com disposição, seu João Toté, cuido que a porteira
não impede. Só dá mesmo o trabalho de abrir a tranca que os outros fecham.

João Toté espantou-se. Dissera a coisa por alto, com a verdadeira intenção bem
escondida, e a moça compreendera. Era um tino de abismar. Nem faro de cachorro de caça.
E continuou espantado, sem saber mais o que dissesse. Vicência, pronta para qualquer
resposta, não queria se adiantar em perguntas. Olhou, esperando, e calou se.

O viúvo fez um cigarro de palha, cabisbaixo, sem encontrar mais palavras. E assim
decorreu um tempo enorme, um junto do outro como dois mudos. Daí a pouco apareceu
Manuelzinho. Falou com João Toté, aceitou o cigarro oferecido. João Toté danou-se
consigo mesmo, renegando o embaraço que tinha sempre junto da moça. Agora, com
Manuelzinho ali perto, não podia trocar duas palavras. Tudo obra dos olhos dela. Boniteza
só, mas nunca diziam um sim ou um não. Pensando bem, o papel de mulher era o dele. É
ela, como dizia o pai, o homem da casa. Da casa dela só, não! Mandando nele também.
Antes os modos da finada. Ele quando quis casar com ela teve tanto atropelo como arredar
uma palha. E, remoendo essas coisas, deu um muxoxo sem propósito.

—Pensando na morte da bezerra, "seu" João? — gracejou Manuelzinho.

João Toté deu uma risadinha envergonhada e o irmão da moça, como ele era amigo da
família, bem tratado pelo pai, pediu lhe um favor:

—"Seu" João, caso não lhe fosse incômodo, eu lhe pediria pra botar
sentido aí em Vicência, enquanto vou ali no ferreiro encomendar um cão novo pra minha
espingarda.

João Toté respondeu que não tivesse cuidado. Gente do velho Manuel Querino era como
se fosse gente dele. Novamente sós, João Toté criou ânimo e falou, aproveitando-se do
que dissera a Manuelzinho:

—Gente dos Querinos é gente minha pelo respeito que me merece. Mas eu maldo que
nunca que o velho me desse franquia na família. se alguém de lá quisesse casar comigo.
Não há raça boa fora da dele, pensa o velho. E é por isso que ele determina as filhas
pra casar com os parentes. Não lhe tiro o direito. Cada um manda como quer no seu
terreiro.

Vicência encarou-o, séria e respondeu com firmeza:

—Ele determina mas eu não caso. Não disse isso ao senhor? Agora, quem quiser
casar comigo, eu querendo, o resto já não é da minha conta. O carro sempre anda atrás.

João Toté decidiu-se com a mesma emoção de quem decide um passo de morte.

—Pois D. Vicência, a senhora desculpe, se direito eu não tenho da proposta que
lhe faço. Mas é que desde que vi a senhora, naquele dia do boiato, pode crer que a
senhora mora comigo na minha cabeça. Pra falar a verdade é bom confessar: vosmecê não
me larga o pensamento. Aonde eu vou, a senhora vai comigo. Se é fraqueza minha contar,
fica por conta do transtorno, pois às vezes eu cismo que estou doente. Mas, se vou
dormir, o sono não chega porque a senhora não deixa. E me acordo ainda bem os galos não
cantam, D. Vicência, pra ter tempo de pensar na sua imagem. A comida me amarga e o gosto
da água é o mesmo daquela do dia do quedaço. Me desculpe o desaforo, como ia dizendo,
se direito eu não tenho, mas desde o momento em que o velho marcou a senhora pro filho do
irmão—covardia não é, que eu me conheço!—pode crer que a mim a morte não me
espanta. E se ela viesse, eu acho que até louvava a Deus.

João Toté tirou o chapéu quando pronunciou o nome de Deus e empacou, desconfiado,
arrependido do que tinha dito. Ficou de cabeça baixa olhando a biqueira do sapatão,
puxando devagarinho o bigode para dentro da boca.

Vicência, se estava comovida pelo que acabava de ouvir, não demonstrava. Contudo
esperou que ele continuasse, olhando-o. Conhecia-lhe a indecisão. Esperou, esperou, mas
João Toté era um burro acuado. Ela então instigou-o, em voz baixa:

—Pode continuar, "seu" João Toté! Proposta nenhuma fez ainda o senhor.

—Eu me embaraço, dona. Eu não chego a um resultado no que sinto, mas,
confessando a verdade, a sua presença me desarma, me faz até mal. E muito pior eu fico
sem ela. Por outras palavras, se a senhora quisesse eu casava. E, como ia dizendo, quero
ser desculpado, se direito eu não tenho no que digo. Pode me desculpar, certa de que
desculpa a um menino que não sabe o que faz. Eu não quero dizer nada, mas cuido que
doideira começa assim. De juízo atravessado eu ando, não nego.

—Há muito que eu quero, "seu" João. Direito eu lhe dei e não foi de
hoje. Julgo até que se o senhor falasse antes, talvez pai não ajustasse aquilo com
Batista. Agora eu lhe previno duma coisa, pra sua decisão: a gente se casar, vai ser
labuta, porque pai tem cabeça de ferro.

—D. Vicência, por sua causa, e não estou me gabando, eu botaria abaixo a facão,
se preciso fosse, tudo quanto é pau do sertão. Não é pra me gabar, eu repito, mas acho
que ainda não nasceu barreira que eu não atrevesse, para alcançar a senhora do lado de
lá. E Deus queira me perdoar, mas eu até matava gente. Mesmo…

—Manuelzinho apontou ali—preveniu Vicência.

João Toté, branco como algodão, pediu no mesmo instante uma quarta de cachaça a
João Borrego. O copinho tremia-lhe na mão, entornando a cachaça. Virou o de um trago,
já pela metade, e a aguardente não lhe deixou nenhum ranço na goela.

—Quem bebe e não cospe não sabe beber! —gritou João Borrego de dentro do
balcão, andando de um lado para outro como passarinho na gaiola.

—Então bote uma conta da boa aí pra mim!—pediu Manuelzinho, chegando-se
para junto do balcão.

O irmão de Vicência engoliu a cachaça, olhou João Toté e indagou, ficando de boca
aberta:

—Que diabo tem o senhor, "seu" João, que o sangue sumiu-se da cara?

João Toté respondeu que era sem causa. Talvez resultado da queda. Andava ultimamente
assim, com umas visagens pelo corpo. Vicência aconselhou-o, sabendo a verdadeira causa:

—Cuide do achaque, "seu" João! Fora da morte, pra tudo há remédio.

João Toté prometeu cuidar do que fosse preciso. Despediram-se, tomando destinos
diferentes.

Um mês depois, na mesma feira, os dois tornaram a encontrar-se. João Toté
justificou, bendizendo, o vício dos filhos do velho Manuel Querino. A mania de caça
favorecia o encontro dos dois, o irmão sempre ausente com negócios de espingarda.

Dessa vez Vicência Querino era a intranqüila. João Toté ao contrário mostrava a
todos o seu contentamento, alegre e risonho como uma criança. Vicência, sisuda, com a
disposição de quem trata dum problema grave, falou-lhe em primeiro lugar.

O senhor decida depressa como vai ser, "seu" João, porque pai marcou o
casamento pra daqui a um mês!

João Toté franziu a testa, encarando-a. Pensou um instante e propôs sem a indecisão
de outrora:

—A garupa do meu cavalo é macia e duvido que outro homem, correndo atrás de mim
com distância de duas braças, me pegue mais nesse mundão. É só a senhora querer!

Vicência respondeu incontinenti:

—Fugir eu fujo, "seu" João. Mas juro que pai morre de raiva, se não
matar a nós dois.

—Indo nós dois duma vez, D. Vicência, vou tão alegre pra debaixo da terra como
vai semente pra nascer. Indo eu só, eu padeço. Mas indo só a senhora, eu ficando,
queira crer que muita cova vai se abrir por este sertão a fora.

João Toté conquistara o posto de homem que antes era de Vicência. Estava disposto a
tudo, não conhecia obstáculo com que não lutasse até vencer ou morrer. Era um jogo de
morte, mas o que ele buscava era a vida. E por ela iria longe, sentindo forças para varar
distâncias. Só não iria muito além das próprias forças, fazendo o impossível, se
Vicência impedisse. Mas Vicência estava de acordo. O furto se daria na véspera do
casamento, dia em que o velho Manuel Querino ia dar uma festinha. Daí até lá só
haveria um cuidado: tratar do cavalo, porque os dois não voltavam atrás à palavra dada
um ao outro. A promessa foi sob jura, invocado o nome de Deus.

* * *

Na véspera do casamento apareceu tanta gente como não se esperava. Até os parentes
mais afastados dos Querinos vieram. E de toda parte chegavam vaqueiros, fazendeiros
montados, conduzindo mulheres nas garupas dos cavalos, ou acompanhando, a passo lento, as
famílias a pé, aos bandos.

João Toté chegou à boquinha da noite. Amarrou seu castanho bem afastado de casa, de
propósito, e não tirou a sela. A manta de couro de bode, comprida, cobria metade da
garupa. Os arreios eram novos, de segurança. Depois tirou as esporas e amarrou-as
juntamente com o chicote nas correinhas do arção da sela. Afivelou melhor o cinturão e
retirou da cintura a pistola e o punhal, atando uma arma à outra numa correia.
Pendurou-as no pescoço do cavalo, dando um nó com as crinas. Em seguida olhou a estrada
larga, cuspiu de banda e dirigiu-se para a festa.

Quando entrou em casa, o velho Manuel Querino veio logo ao seu encontro, rindo-se,
pilheriando aos gritos:

—Você já aprendeu a montar, Toté? Arranje um bode mocho, capado, e ensaie pelo
meio do pátio!

O outro também riu, satisfeito, estirando-lhe a mão. O velho abraçou-o, fazendo
perguntas.

A casa estava bem clara, as paredes com uma porção de alcoviteiros pendurados dos
tornos. Gente muita conversando. Mulheres fumando, rindo, batendo boca. Da sala da frente
via-se o fumaceiro na cozinha, a lenha se queimando sob panelas de coisas boas. Três
violas penduradas nos armadores de redes e dois ganzás embrulhados em lenços, postos no
batente de uma janela. Meninos corriam pelo meio da gente grande, brincando, traquinando.
João Toté reparava tudo, disfarçadamente. Precisava conhecer bem o terreno em que
pisava, ter noção exata das coisas, de modo a poder escolher o melhor momento. A tarefa
era difícil, arriscada. Mas ele estava disposto a tudo. E por isso mesmo é que se
prevenia com mil cuidados, com mil cautelas, para não botar a caçada a perder.
Mostrava-se bem disposto, alegre, sem dar o menor sinal do seu propósito. O velho Manuel
Querino, que de vez em quando o olhava, indagou rindo:

—Já machucou os ossos do noivo, Toté?

—Ainda não tive a satisfação, "seu" Querino. Cadê esse felizardo?

Batista apresentou-se, satisfeito, de fatiota branca e bem engomada. Abraçaram-se.
Trocaram palavras amáveis de felicitações e de agradecimentos. João Toté entretanto
não tinha visto ainda a noiva. Estimava dar-lhe também os parabéns. O velho gritou, com
o risozinho de costume:

—Vem cá, Vicência! Vem aqui falar com Toté, o amansador de cavalo manso!

As graças do velho eram sempre recebidas com risos. Lembraram, os que conheciam o
fato, a queda desastrosa do viúvo. Vicência não tardou. Apresentou-se, indiferente,
calma, e estirou a mão a João Toté, rindo-se como fizera com os outros que a haviam
cumprimentado. Ele também se embaraçou, e, por delicadeza, aventurou-se:

—Peço licença pra ter a mesma opinião do pai do noivo: ele faz mais negócio do
que ela. Não porque deixe de ter muitas qualidades, que sou o primeiro a reconhecer.

Vicência baixou a cabeça. O pessoal que estava na roda riu, achando engraçada a
opinião dada, e o velho pai também deu a sua:

—A minha opinião é outra, Toté velho! Quem faz negócio em família bota o
dinheiro pra circular na mesma casa. Prejuízo ou lucro é sempre do mesmo povo. Agora,
sendo o negócio com estranhos, aí a coisa é outra.

—Esse velho é um sabidão! Isso não bota água a pinto!— interrompeu o
velho Gusmão, compadre dele, que se chegava para a roda.

A conversa tomou outro rumo. Daí a pouco Anália veio chamar o pessoal para comer
alguma coisa. O velho Querino bateu palmas e anunciou:

—Quem quiser comes e bebes que emboque lá pra dentro! Tem um putici de coisas. E
quem não quiser, que fique vadiando no samba, que já vai começar!

Três homens, na porta da frente, repinicaram as violas. Os ganzás se remexeram,
imitando a cascavel. Alguns pares foram se formando e com pouco se dançava parelha
trocada. Um caboclo baixo, de pescoço curto e de veias grossas, soltou o coro da dança:

Tava a paca roendo o coco,
Veio a cutia e tomou.
Quero ver levantar cinza,
Como ontem levantou!

Enquanto o pessoal se divertia, uns dançando, outros manjando na saleta, Anália
chamou Vicência para a camarinha. Estava aflita. Queria dizer uma coisa. E no escuro,
cortando as palavras para tomar fôlego, foi dizendo em cochicho:

—Está tudo perdido, Vicência! Pai sabe de tudo. Ele me botou em confissão e eu
fui obrigada a dizer que tu fugias hoje. Ele quis sair daqui ontem mesmo pra liquidar
"seu" Toté. Mãe foi quem impediu. Mas ele disse que esse desaforo precisava
dum ensino. E já está tudo combinado, Vicência. Quando pai der ao pessoal o último
trago de cachaça, dizendo que só se dança mais dois ou três cocos, Manuelzinho,
Quinca, um cabra que eu não sei quem é e mais dois filhos de tio Jacinto vão pra curva,
lá no fim da cerca. Só o teu noivo, Batista, está na ignorância. Eles já cortaram
até um galho da braúna. Botam no caminho e quando "seu" Toté se apear pra
arredá lo, eles o matam. Pai quer que tu vejas tudo da garupa do cavalo. Virgem, eu não
sei como pai é assim! E não há quem diga, fazendo aqueles agrados todos a
"seu" Toté. É preciso não ter coração pra se ficar assim como pai. Eu estou
com tanto medo, Vicência! Pega só aqui nas minhas mãos!

No escuro da camarinha não se via o rosto de Vicência. Ela pegou nas mãos geladas da
irmã e indagou, de voz abafada:

—E quem disse a pai que a gente se gostava, pra ele maldar, e te botar em
confissão?

—Ora, quem disse, Vicência! E tu és boba! Quem não conhecia o teu transtorno?
Desde que tu largaste de olhar aquelas serras do lado de lá, como era teu costume, pai
ficou de pulga na orelha. Ficou maldando. Tu pensas que enganavas, mas a gente via,
Vicência. Tu vivias distraída, pensando, pensando Até de memória fraca tu ficaste.
Respondias adoidadamente ou então ficavas de ouvidos tapados, quando a gente te fazia uma
pergunta. Até mãe desconfiou! E eu disse a ela. Mãe não desaprova. Ela gosta de
"seu" Toté. Eu rezei tanto pra que ele não viesse, e ele está aí. Está aí,
coitado, inocente. Vai morrer como carneiro de festa. Mesmo na véspera.

—Vicência! Vicência! —gritaram da sala.

—Já vou, pai! E mandou que a irmã saísse primeiro e dissesse que ela estava se
arrumando.

Vicência ficou só no quarto. Não podia demorar muito. Não tinha o direito de
pensar, de chorar, de imaginar um meio de salvação. E este meio não havia. O pai era
uma onça, daria o bote de qualquer maneira em cima do carneiro inocente. Quer ela fugisse
quer não, "seu" Toté era um homem morto. Se soubesse antes teria fugido há
mais tempo. Agora era tarde. Estava tudo perdido.

A porta da camarinha se abriu e o pai indagou, de voz áspera:

—Que está fazendo aí, Vicência, encafuada neste escuro?

Vicência levantou a tampa da arca e respondeu:

—Estou procurando o meu frasco de cheiro, pai! saio já. —Anda com isso! O
teu noivo está na sala sem dama.

Vicência incorporou se à dança como dama do noivo. Os pares se trocavam nas
umbigadas e a mazurca dos pés acompanhava o ritmo das violas. Quando o caboclo baixo
tirava os versos, os instrumentos paravam. Depois tornavam a tocar e a dança cada vez
mais se animava. Suavam, limpavam com os lenços a testa e o pescoço. A poeira
levantava-se, ardia nos olhos. De vez em quando pares novos se juntavam à dança, outros
saíam. Vicência, arrogantemente, desafiando as iras do pai, não tirava os olhos claros
de cima de João Toté. E ele às vezes distraía os seus, com medo que notassem. Ela
insistia, entretanto. Era como se quisesse guardar bem na vista um rosto que não haveria
de ver nunca mais. João Toté inquietava-se. Aquilo não era o sinal convencionado. Era
um modo estranho, fora dos hábitos de Vicência. Não via justificativa para tanta
imprudência. Se notassem? Se maldassem? Estaria tudo perdido, na certa. Ela, que até ali
fora dissimulada, sobretudo com ele próprio, a ponto de deixá-lo incerto no direito que
tinha, mostrava-se agora como uma criança sem tino, descobrindo as artes a todo o mundo.
João Toté desviava os olhos dos dela, mas de vez em quando arriscava um olhar rápido,
de soslaio, para se certificar se ela ainda insistia no propósito de olhá-lo. Insistia,
não arredava os olhos de cima dele. Era como se não tivesse outra coisa para olhar, para
ver. João Toté se impacientava cada vez mais. Baixou a cabeça, errando constantemente o
passo da dança. Uma desanimação, um desalento começava a invadir-lhe o espírito. Daí
a pouco pediu desculpas à moça com quem dançava e saiu da roda. A parelha trocada
entretanto continuava animada. Vicência seguiu-o com os olhos, até quando ele
desapareceu na escuridão do alpendre.

A dança rolou por muito tempo, sem que João Toté reentrasse na sala. Afinal bateram
palmas, estacando os pares. Fora Vicência que batera. Depois falou:

—Agora, minha gente, um descansinho pra retemperar as forças!

Todos acharam boa a idéia. Desfeita a roda, os homens dirigiram-se para o terreiro em
busca de ar. Sopravam, tangendo o cansaço. A noite era de escuro. Nem uma estrela se via
no céu.

João Toté descansava num cepo, fumando, desanimado. A esperança lhe fugira, a
coragem desaparecera. Tinha um vago pressentimento de que Vicência estragara tudo. Um
relaxamento apossava-se dele, tirava-lhe a vontade, anulava-lhe a disposição. A cabeça
estava como se fosse oca, sem nenhum pensamento alojado lá dentro. Não tinha força,
ânimo para pensar, imaginar. Encostado na parede, de cigarro na mão, se o deixassem ali
dormiria, esqueceria tudo, como um bicho sem propósito nenhum na vida.

Muitas mulheres na saleta comiam pamonha, canjica, beiju seco.

Outras ajeitavam o cabelo ou suspendiam as saias, limpando os babados suaw6kx da poeira
vermelha.

Ouviu-se o som das violas que se afinavam. E um toque animado, acompanhado dos ganzás,
convidou novamente o pessoal à dança. Alguns pares estacionavam na sala, esperando o
número. Vicência gritou, animada:

—"Seu" Toté! "Seu" Toté!

João Toté despertou como um boi lerdo na ponta do ferrão. Aquela voz sempre lhe
comunicava vida nova. Com o coração aos pinotes, atarantado, João Toté seguiu igual a
um menino que obedece a chamado de pai ou de mãe. Não pôde mais entretanto recuperar o
ânimo, dispor interiormente a sua conduta. Era um cabeça lesa, sem vontade, sem
direção, sem propósito. Vicência convidou-o, rindo:

—Dance comigo, "seu" Toté!

O viúvo não respondeu, entregue ao acaso, sem ser mais senhor de si. Essa
imprudência extrema de Vicência não o impressionou mais, não teve forças de chamá-lo
à realidade. Encostou-se à moça, com o olhar cravado no candeeiro defronte. O velho
Querino olhou a filha fixamente. Ela correspondeu à sua insistência, como num desafio. E
ficaram os dois por algum tempo se olhando sem pestanejar. Pareciam duas crianças
brincando de pegar um sério. O velho perdeu, afinal, e desviou o olhar para João Toté.
Ele porém não atendeu ao do velho, com o seu preso à luz do candeeiro, tonto por ela
como uma mariposa. Os primeiros passos se remexeram na dança e foi preciso Vicência
despertar o seu cavalheiro:

—Acorde, "seu" Toté! A dança começou.

João Toté moveu as pernas com o esforço de quem arrastasse um grande peso. Dançava
sem ritmo, errando, sem vontade. Movia-se dominado por uma força alheia à sua vontade.
Talvez a vontade masculina de Vicência, obrigando-o. As parelhas se trocavam, circulando.
A voz do caboclo marcava a cadência na carretilha dos versos ligeiros. João Toté
continuava ausente de si mesmo, sem noção de nada. Se parassem a dança de repente, é
possível que continuasse a dançar só, como um bêbado. Vicência, no tumulto,
aproveitando o trecho da sala onde a luz era mais fraca, pegou-lhe na mão, apertando-a.
João Toté pareceu despertar, alentando-se, mas, quando a mão de Vicência largou a sua,
voltou à inconsciência a que se entregara. Era um cego sem guia, um homem aniquilado,
morto.

O velho Querino acompanhava-os com o olhar espreitador, mastigando o cigarro de palha
apagado. Vicência notava a vigilância do velho. E quando passava perto dele, dançando,
levantava o rosto, com modos de debique. Daí a pouco se ouvia o vozeirão do velho.

—Parar um instante, minha gente! Mais uma bicada a todos pra esquentar o sangue e
depois três dancinhas pra terminar!

Vicência estremeceu. Era o sinal. Na segunda dança o pessoal iria para a tocaia.
João Toté morreria como um mocó na espera. Se fugissem, morreria lá sangrando como um
porco. Se ficassem, morreria no terreiro da mesma forma.

O velho distribuiu ele mesmo a caninha. As mulheres beberam primeiro. Depois os homens.
E o copinho passava de boca em boca, ouvindo-se em seguida estalidos de língua e
referências elogiosas à cachaça de primeira ordem. A João Toté poderiam ter dado
veneno, porque ele não sabia o que estava bebendo. Continuava distante, sem se achar a si
mesmo.

Servida a aguardente, os pares retomaram a posição da dança. E as violas gemeram os
primeiros sons. Vicência avançou para o meio da roda e bateu palmas. Todos a olharam. Ia
falar. O pai encarou-a, procurando adivinhar o que iria sair da boca da filha. Vicência
olhou para todos, depois demorou a vista em cima de João Toté. Ele porém não prestava
atenção à roda, não se despertara, alheio a tudo, e esperava somente que a música
tocasse para dançar automaticamente.

Vicência falou:

—Pai, não é preciso nada do que o senhor arranjou, pois a vingança quem vai
tomar sou eu mesma.

Todos ficaram surpresos, suspensos. Ninguém sabia do que se tratava, a não ser os que
estavam de posse do segredo. Anália começou a chorar e a mãe levou-a para a camarinha.
Vicência prosseguiu, impassível:

—Quando um desaforado se mete pra banda da filha dum homem, ela mesma deve dar a
lição.

E, aproximando-se de João Toté, que permanecia indiferente a tudo, como se não
tivesse ouvido nada, assentou-lhe com toda a força uma bofetada na cara. As marcas dos
dedos ficaram-lhe na face, o sangue subiu e João Toté estremeceu todo, sem se arredar do
lugar, como um bicho mortalmente ferido. Os olhos pularam, alargaram-se, tornaram-se olhos
de louco. Antes que tivesse qualquer idéia, que fizesse qualquer movimento, dentro
daqueles dois segundos, outra bofetada estalou-lhe na face já apanhada. João Toté deu
um gemido, um estranho gemido, arredou violentamente o pessoal que estava na sua frente, e
saiu correndo como um alucinado.

Poucos minutos depois se ouviu um tropel de cavalo, longe, num desembesto de morte. O
velho Querino franziu a testa e ordenou ao cantador:

—Bote a festa pra frente, "seu" Terto!

O caboclo cantou, engrossando as veias do pescoço curto:

Corre, corre, meu cachorro,
Meu cachorro corredor!
Pega a onça, pega o bicho,
Vai pegar o meu amor.

A dança reanimou-se. A barra da manhã vinha nascendo. Vicência saiu para o alpendre
e os versos do caboclo acompanhavam os seus ouvidos:

Volta, volta, meu cachorro,
Meu cachorro corredor!
Foi-se a onça, foi-se o bicho,
Foi-se embora o meu amor.

A velha Quitéria veio atrás da filha e indagou:

—Estás chorando, Vicência?

—Eu, mãe! Chorando por quê? Quem é que tem olho de formiga pra não ficar de
vista vermelha com esse poeirão lá de dentro!

Quando a velha saiu, Vicência parecia procurar com ansiedade uma coisa esquecida. Mas
lá longe não se via nada, a bruma da manhã tapando tudo. Perto, entretanto, as coisas
eram as mesmas: um couro de bode espichado e pendurado numa jurema; mais embaixo o curral,
vendo-se a caveira duma rês enfiada numa estaca, de um lado, sob uma braúna, o carro de
boi com dois anuns sentados nos fueiros e perto de casa as touceiras de gravatá com uma
porção de cascas de ovo espetadas nas pontas das folhas compridas.

Vicência procurava à distância, o horizonte sumido na névoa. O sol ia dissipando o
nevoeiro e esboçavam-se, meio indistintos ainda, os contornos das serras azuladas.
Vicência olhava, ansiosa, sem ver nada. Esperou que o nevoeiro passasse. Passou. Porém
outro, talvez o dos próprios olhos, continuava a impedir-lhe a visão. Vicência
insistia, insistia, apertando os olhos, mas não enxergava nada.

As serras azuladas, lá distantes, eram então como uma paisagem perdida.

This short story was originally published under the title "Paisagem
Perdida" on Maravilhas do Conto Moderno Brasileiro, Editora Cultrix, 1961, 330
pp

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