Tales of the Trembling Earth

    Tales of the
Trembling
Earth

    A roar made the house shake. A blood cascade gushed over the man!
    The foot was agitated as a wounded monster.
    By

    Shazam
    Captain Marvel declared that his name was José and that he was a
    car salesman. He felt bad. Unlike the modern heroes, he wasn’t used to dissimulation,
    intrigue and concealing.

    Extinto o crime no mundo, o Capitão Marvel foi chamado a uma sessão especial do
    Senado norte-americano.

    Lá foi saudado por Lester Brainerd, senador por Louisiana, e recebeu a medalha do
    Mérito Militar e uma pensão vitalícia. Comovido, o Capitão Marvel expressou seu
    agradecimento e manifestou o desejo de viver tranqüilamente por toda a eternidade.

    Para seu retiro, o Capitão Marvel escolheu a cidade de Porto Alegre, no Estado do Rio
    Grande do Sul, Brasil.

    Alugou um quarto numa pitoresca pensão do Alto da Bronze; pensava em escrever suas
    memórias.

    Nos primeiros tempos, o Capitão Marvel despertava a atenção da vizinhança. Sua capa
    vermelha, o interessante macacão que usava, faziam com que uma multidão de garotos
    corresse atrás dele, gritando: "Voa! Voa!" Desgostoso, o Capitão Marvel
    evitava sair à rua. Com o tempo, porém, foi caindo no esquecimento do público.

    A televisão exibia novas séries filmadas; duas ou três revoluções eclodiram no
    país; e o Brasil tornou a levantar o campeonato mundial—o que não acontecia há
    muito tempo—graças a seu arqueiro, um mulatinho chamado Freud de Azevedo, que por
    uma curiosa aberração da natureza, tinha nascido com três braços.

    Além disto, o Capitão Marvel tinha renunciado ao uso de seu uniforme tradicional e
    usava uma roupa comum, de tergal cinza. Suas memórias foram lançadas com relativo
    sucesso pela Editora Vecchi. À tarde de autógrafos compareceram autoridades civis,
    militares e eclesiásticas; críticos viram no livro valores insuspeitados, um novo olhar
    sobre o mundo. Mas depois disto, o Capitão Marvel foi novamente esquecido. Passava os
    dias no seu quarto de pensão, folheando velhas revistas em quadrinhos e relembrando com
    saudades o maligno Silvana, falecido de câncer muitos anos antes. À tarde, o Capitão
    Marvel trabalhava no seu jardim. Conseguira que a dona da pensão lhe cedesse o terreno
    atrás da cozinha e ali plantava rosas. Desejava obter uma variedade híbrida, mas todas
    as suas tentativas tinham sido vãs.

    À noite, o Capitão Marvel assistia à televisão e ia ao cinema. Olhava com
    melancólico desprezo os heróis modernos, vulneráveis a balas, incapazes de voar, usando
    apenas a inteligência bruta. Depois voltava para casa, tomava um soporífero e ia dormir.
    Aos sábados, costumava ficar num bar perto da pensão, tomando cachaça com maracujá e
    conversando com antigos boxeadores.

    Numa destas noites, em que o Capitão Marvel estava especialmente deprimido (já tinha
    tomado oito cálices de bebida), uma mulher entrou no bar, sentou-se ao balcão e pediu
    uma cerveja.

    O Capitão Marvel considerava-a em silêncio. Durante sua longa vida, nunca dera muita
    atenção a mulheres; o combate ao crime era uma tarefa absorvente, então, e ele não
    desejava desperdiçar energias. Mas agora, aposentado, o Capitão Marvel podia olhá-la à
    vontade.

    Não era uma mulher bonita. Teria cerca de quarenta anos, era baixa, gorda e estalava a
    língua depois de cada gole de cerveja. Mas era a única mulher no bar naquela noite de
    sábado.

    Sentado à mesa, o Capitão Marvel olhou sua própria imagem no espelho descascado à
    sua frente. Mesmo naquele ambiente melancólico, era uma esplêndida figura de macho e ele
    não poderia deixar de reconhecer isto.

    —"Posso sentar?"—O Capitão Marvel voltou-se. Era a mulher, com o
    copo de cerveja na mão. Sentou-se.

    Conversaram algum tempo. O nome da mulher—pelo menos, foi o que ela disse—era
    Maria Conceição. O Capitão Marvel declarou chamar-se José e ser vendedor de
    automóveis. Sentia-se mal; ao contrário dos heróis modernos, não tinha o hábito da
    simulação, da intriga, do disfarce.

    "Vamos para o meu quarto, bem?"—sussurrou a mulher às três horas da
    manhã.

    Foram. Era no quarto andar de um velho prédio na rua Marechal Floriano. As escadas de
    madeira, pontilhadas de escarro e pontas de cigarros, rangiam ao peso dos dois. A mulher
    bufava e tinha de parar a cada andar.

    "É a pressão alta". O Capitão Marvel teve vontade de tomá-la nos braços
    e subir voando; mas queria permanecer incógnito.

    A mulher abriu a porta. Era um quartinho miserável decorado com flores de papel e
    imagens sagradas. No centro, uma cama coberta com uma colcha vermelha.

    Arquejante, a mulher voltou-se para o Capitão Marvel e sorriu: "Me beija,
    querido.” Beijaram-se longamente. Sem uma palavra, tiraram a roupa e meteram-se na cama.
    "Como tu és frio, bem"—queixou-se a mulher. Era a pele de aço, a couraça
    invulnerável que tantas vezes protegera o Capitão Marvel e que já começava a
    enferrujar debaixo das axilas O Capitão Marvel pensou em atritar um pouco o peito com as
    mãos; mas tinha medo de soltar faíscas e provocar um incêndio. Assim, limitou-se a
    dizer: "Já vai melhorar. Já vai melhorar."

    —"Vem, querido. Vem"—murmurou a mulher. O Capitão Marvel
    lançou-se sobre ela.

    Um urro de dor sacudiu o quarto. "Tu me mataste! Me mataste! Ai, que
    dor!"—berrava a mulher. Assustado, o Capitão Marvel acendeu a luz: da vagina,
    corria um riacho de sangue. "Me enterraste um ferro, bandido!" Às pressas o
    Capitão Marvel enfiou as calças. "Socorro! Socorro!" Sem saber o que fazer, o
    Capitão Marvel abriu a janela. Luzes começavam a se acender nas casas vizinhas. Ele
    saltou.

    Por um instante, desceu; mas logo em seguida adquiriu equilíbrio e planou suavemente.
    Às vezes, soluçava. Lembrava-se dos tempos em que era apenas Billy Batson, modesto
    locutor de rádio.

    Havia uma palavra capaz de fazê-lo voltar àquela época; mas o Capitão Marvel já a
    esquecera.

    Wedding Night
    Timetable

    Finished the copulation I will say, exhausted as I may be, brief
    words about the beautiful moments we just experienced. I’ll repeat that I love her, that I
    love her.

    "Senhora Presidente:

    Na qualidade de futuro Diretor-Gerente das empresas dirigidas por V.S., e também na
    qualidade de seu futuro genro, submeto à sua apreciação a seguinte

    Agenda para a Noite de Núpcias

    1. Os trabalhos terão início às vinte e três horas na suíte 1.102 do Hotel Real
    Navarino. Trata-se de hotel, e de aposento, habitualmente escolhido por nubentes para a
    noite de núpcias. O apartamento é simpático e acolhedor; há música ambiental, suave e
    romântica; uma reprodução da Maja Desnuda proporciona, particularmente para quem
    vem de um ambiente culto e refinado, como é o caso de sua filha, um sutil estímulo
    erótico. Providenciarei champanhe, e do melhor; entrando, proporei de imediato um brinde.
    Pretendo que o efeito inebriante da bebida elimine qualquer inibição ainda presente na
    noiva.

    2. A seguir, usarei da palavra, fazendo um breve mas emocionado retrospecto de um
    namoro apaixonado, de um noivado ardente; evocarei cenas pitorescas ou ternas, cômicas ou
    dramáticas; ao concluir, abraçarei a noiva, declarando enfaticamente que a amo.

    3. Beijar-nos-emos. O beijo será muito prolongado, da variedade conhecida como de
    língua na qual, modéstia à parte, sou mestre. Com este beijo tenho despertado poderosas
    paixões, inclusive nas mais frígidas. Ao final deste beijo, pode V.S. crer, sua filha
    estará gemendo de prazer.

    4. Seguir-se-á a operação de retirada das roupas. Ajudá-la-ei, transformando este
    momento numa ocasião para carícias e elogios: aos belos seios, à graciosa cintura, as
    longas coxas, que, de acordo com Lorca, compararei a peixes movendo-se na
    semi-obscuridade. Em seguida me despirei. Ela poderá constatar que seu noivo é uma bela
    figura de macho, alto, forte, bronzeado; e se, ao avistar o membro viril, soltar uma
    pequena exclamação, será, não de susto, mas sim de excitação.

    5. Folguedos amorosos. Tomarei a iniciativa, começando por pequenos e úmidos beiaw6kx
    no pescoço, na nuca, nas orelhinhas; e nos seios. Demorar-me-ei a explorar com a ponta da
    língua os delicados mamilos, passando depois à sucção o que arrancará a ela, estou
    seguro, numerosos e repetidos gemidos de prazer. Descendo, prosseguirei, via ventre, aos
    pequenos lábios, que serão acariciados e sugados. Ela então se renderá completamente e
    a levarei nos braços até a cama. Com a experiência acumulada em muitos anos (em camas,
    bancos de automóveis e macegas) decidirei sobre o momento oportuno para a penetração e
    a

    6. Cópula. Será o momento culminante do programa. Tenho para mim que será uma
    cópula arrebatadora, uma torrente de paixão rompendo as comportas para, em meio a
    gemidos de prazer, culminar num cataclísmico orgasmo: triunfo do amor!

    Cópula realizada, direi, ainda que ofegante, breves palavras sobre os belos momentos
    vividos. Repetirei que a amo, que a amo. E então—sono reparador.

    Para a segunda noite, a agenda será ligeiramente alterada, com a introdução de novos
    tipos de folguedo, e assim na terceira e na quarta noites (na quinta não haverá
    atividades). Ao cabo de meses um padrão acabará por se estabelecer, e tudo cairá na
    rotina. O noivo, contudo, aguardará ansioso a oportunidade de novas experiências: outra
    boca a beijar, outras coxas a acariciar. Boca e coxas que poderão ser as suas, Senhora
    Presidente."

    Apex of
    Pyramid

    Go, son, she used to say, enjoy yourself. Enjoy yourself?—the
    boy, annoyed. With what, in school? You’re so stupid, mom, you never learn anything.

    Seria o cheiro, talvez—mistura de odores, de terra de serragem molhada, do suor de
    homens e animais exóticos. Seria o cheiro; talvez. Talvez não. O fato é que ela estava
    se sentindo mal ali, muito mal. Meu Deus, pensou, eu queria estar em minha casa, é a
    coisa que eu mais queria neste momento

    O homem diante dela, o Breno (Breno ou Bruno) parecia não perceber seu mal-estar.
    Sorria o tempo todo, um sorriso humilde—humilde mas debochado; um sorriso de dentes
    estragados. As cáries dele me repugnam, ela pensou, e lhe ocorreu: será por isso que me
    sinto mal? Indignou-se: não é a mim mesma que devo fazer perguntas; é a esse homem,
    afinal sou jornalista.

    Corrigiu-se: estagiária. Estagiária de quarenta anos, mas estagiária. Ainda não
    estava formada.

    Abriu a bolsa, tirou a caneta—de ouro (os olhos do homem brilharam ou ela os
    adivinhou brilhar)—e um maço de folhas de papel. Vamos ver, disse, o senhor é da
    base. Sim, disse o Breno (ou Bruno), sou da base; fico no meio da base. A senhora sabe,
    eles dizem que eu sou o mais forte. Sei, ela disse, estou vendo. Fui o primeiro a ser
    convidado, acrescentou o homem, orgulhoso. Foi o primeiro a ser convidado—ela
    escreveu, e perguntou: há quanto tempo isso? Ah, respondeu o homem, há muito tempo, há
    uns dez anos mais ou menos.

    Dez anos. O que fazia ela há dez anos? Morava no casarão de Higienópolis, então, e
    os dias fugiam um atrás do outro. De manhã o marido aproximava-se dela, a pasta na mão:
    já vou, Selma, te diverte. Beijava-a. Ela o beijava também, sabendo que de modo algum se
    divertiria—nem naquele dia, nem em nenhum outro dia. Mas o marido estava com pressa,
    estava saindo, não era o momento de se queixar. Tomava mais um gole de café, suspirava,
    pegava uma revista.

    —Foi o Ruivo quem me convidou—disse o homem.

    Ela estremeceu. Quem, perguntou, tentando disfarçar a perturbação. O Ruivo, repetiu
    o Breno, ou Bruno; não sei o nome dele, acho que ninguém sabe. Todo o mundo aqui chama
    ele de Ruivo.

    Passou um homem baixinho, um homem que parecia um anão: era um anão. Carregava
    sem esforço um enorme tamborete. Sorriu para ela e desapareceu. Selma estremeceu.
    Escreveu—Ruivo o convi—; não terminou a palavra, começava a faltar
    tinta na caneta. Eu deveria usar uma esferográfica, como todo o mundo, pensou, enquanto
    sacudia desesperadamente a caneta; mas não sou como todo o mundo, uso caneta-tinteiro e
    me esqueço de enchê-la. Tentou de novo:—dou, sim, conseguia terminar a palavra. Convidou.

    O Breno, ou Bruno, falava, animado.

    —O Ruivo me convidou. Nós éramos guris, eu tinha uns treze, e ele um pouco
    mais—dezesseis, acho. Um dia chegou perto de mim e disse: sabe, Bruno…

    (Bruno! O nome era Bruno. Não deveria esquecer. Por via das dúvidas anotou num canto
    da folha: Bruno.)

    —aquela casa de muro alto? Ali tem coisa, Bruno. Que coisa, eu perguntei. Ruivo
    não quis dizer, ele era assim mesmo, misterioso. Riu e disse: eu vou te mostrar, vem
    comigo. Fui com ele. Chegamos ao muro, ele mandou que eu me abaixasse, subiu nos meus
    ombros—e foi assim que tudo começou, dona, todo o nosso negócio. O Ruivo era muito
    ágil, mas eu não, eu era um pouco desajeitado, ele então me ensinou como é que eu
    deveria fazer para não deixar ele cair. Custei a aprender, mas aprendi. Só que, a
    senhora sabe, eu sou alto, mas o Ruivo é baixinho, então não deu para ele olhar por
    cima do muro. Falta muito, Ruivo, eu perguntei lá de baixo, um tanto agoniado porque as
    botinas dele me machucavam os ombros. Falta, ele disse, falta um metro e tanto. Saltou lá
    de cima, muito aborrecido.

    Ela escrevia, escrevia. Não quero olhar para este homem—pensava—não quero
    olhar as coisas ao redor. Saltou lá de cima—escreveu.

    Um grito! Ouviu um grito. Não, um grito não, antes um guincho, um guincho angustiado.
    Meu Deus, perguntou-se de novo, onde é que fui me meter?

    Indignou-se: não, não vou me entregar! Não vou me deixar atemorizar, esta fase já
    passou! Forçou-se a parar de escrever, forçou-se a erguer a cabeça, a sorrir, a falar:

    —Foi então que apareceram os outros.

    Isto mesmo, dona, disse o Bruno (Bruno?). Foi o Ruivo que disse: Bruno (Bruno!)
    precisamos de mais gente, só tu não me chega. Ruivo, eu disse, tenho uns irmãos, posso
    falar com eles. Bruno (Bruno!), ele disse, vamos precisar de cinco caras: três para a
    base, dois para ficarem em cima da base e eu…

    (—no ápice, ela escreveu; se antecipava)

    …por cima de todos. Fiquei muito contente, dona (riu, o Bruno), porque nós somos
    justamente cinco irmãos: os dois gêmeos e os outros. Só que eu não sabia se eles
    gostariam da coisa… Mas o Ruivo convenceu eles, disse que todos poderiam espiar por cima
    do muro, depois dele; depois que ele olhasse, ficaria na base, outro poderia olhar.

    Um grito, desta vez. Um grito de homem, e logo o guincho de um animal enfurecido. Ela
    tornou a se encolher A caneta agora traçava no papel palavras invisíveis. A tinta tinha
    secado de vez.

    O Ruivo tinha lábia—estava dizendo o homem, e havia admiração em sua voz. O
    Ruivo era bom mesmo… Convenceu os meus irmãos. Mas levamos uma semana treinando para
    formar a pirâmide; o Ruivo perdia a paciência, o Ruivo gritava que a gente nunca ia
    aprender nada. Mas aprendemos. No fim, a gente estava fazendo uma bela pirâmide.

    Enxugou os olhos. Barbaridade, murmurou, isto foi há dez anos, quem diria.

    Há dez anos, e era verão. Te diverte, dizia o marido, saindo. A empregada aparecia,
    trazendo o menino pela mão: já vou indo, Dona Selma, o Serginho está atrasado para o
    colégio. Vai, meu filho, ela dizia, te diverte. Te diverte?—o menino, aborrecido. Se
    divertir com que, no colégio? Tu és burra, mãe, tu nunca aprendes nada!

    Saía, altaneiro como o pai. Ela suspirava, pegava a revista e ia para a piscina.

    Uma manhã, continuava o Bruno, ou Breno, fomos até a casa. Ficamos escondidos num
    campinho próximo, porque tinha um carrão preto estacionado no portão. Quando saiu, o
    Ruivo nos fez sinal. Corremos até o muro, formamos a pirâmide. Ruivo subiu por nossas
    costas. Olhou. Não disse nada, pulou o muro e desapareceu lá dentro.

    Um urro. Mas isto agora é um leão!—pensou, alarmada.

    Isto que eu ouvi tem de ser um leão, e pode estar solto! Mordeu o dorso da mão,
    sacudiu a cabeça—pouco lhe importava que o homem notasse sua perturbação. E que
    foi que o Ruivo viu lá, perguntou.

    Nada, disse o homem. O Ruivo disse que não tinha nada lá.

    O Ruivo mentiu—era o que ela deveria escrever, ou dizer; mas não
    escreveria nem diria. Estava pensando no adolescente ruivo saltando do alto do muro,
    caindo junto à borda da piscina; estava pensando em seu susto, e no sorriso debochado
    dele, e depois na idéia, a idéia fascinante—por que não?—estava
    pensando em seus dedos trêmulos abrindo o chambre…

    Hoje—o homem concluía—trabalhamos todos aqui, no circo do Ruivo. Nosso
    número ainda é a pirâmide. Só que Ruivo não trabalha mais com a gente. Agora ele é o
    dono de tudo. Está por cima—disse o homem, com seu sorriso de dentes estragados.

    Por cima. O Ruivo por cima. Ela guinchava, ela urrava, ela gritava, ela
    gemia—ninguém ouviria: a casa estava vazia, os muros eram altos e grossos. Há dez
    anos…

    —Olá, Selma—disse uma voz atrás dela.

    Voltou-se: um homem bem vestido, um homem elegante apesar da reduzida estatura. Era
    ele, sim; era o

    —Olá, Ruivo.

    ápice da pirâmide.

    Dalila’s Bargains
    Even before the movie starts I can imagine what it’s all about: a
    pathetic pornographic thing, old, dark, mute—the woman with the dog, the woman with
    two men, the woman with another woman.

    Tudo bem em São Paulo, eu satisfeito na posição de gerente de uma cadeia de
    lojas—boa casa, dois automóveis, viagem para o Caribe marcada, tudo—quando, de
    repente, telefona de Porto Alegre minha mãe. O velho está doente, ele não dá conta da
    casa e dos negócios…

    Sou filho único. Tomo o primeiro avião.

    Encontro meu pai bem melhor. Mas já que estou, resolvo botar em ordem o negócio
    deles, uma lojinha de confecções para homens; no Mont’Serrat. Dava bem quando era a
    única loja da zona, com sua fiel clientela de funcionários públicos e pequenos
    comerciantes. Graças a ela estudei, terminei um curso. É por isto que o meu diploma de
    contador está pendurado atrás da caixa, junto com alvarás e o retrato do meu avô,
    fundador do estabelecimento.

    Agora, porém, vejo que há outra loja na rua, bem defronte à nossa—a Casa
    Dalila. Também pequena, também desarrumada, tem um movimento bem maior. Por
    quê?—pergunto-me, olhando a proprietária, uma velha de cabelos oxigenados e olhos
    pintados que, da porta, me encara desafiadora. Não sabe com quem está lidando.

    Lanço-me ao trabalho. Uma investigação preliminar me revela que grande parte de
    nossa clientela faz agora suas compras na Casa Dalila. E logo descubro por quê: as notas
    de compra dão direito à freqüência de certas sessões cinematográficas realizadas nas
    noites de sexta-feira, nos fundos da própria Casa Dalila. Obtenho algumas destas notas. E
    marco minha passagem para sábado. Pretendo resolver o assunto à minha moda: rápido,
    eficiente, sem barulho.

    Às nove da noite de sexta-feira, de óculos escuros e bigodes postiços, toco a
    campainha da Casa Dalila. A porta se abre; aparece a cara pintada da velha. Mostro as
    notas de compra, entro, e sou conduzido a uma sala mal iluminada dos fundos da loja. Ali,
    entre manequins sorridentes e caixotes de mercadorias, estão os outros espectadores. Não
    sou o único de óculos escuros. Sento-me num tosco banco de madeira, acendo um cigarro e
    espero.

    Está nervosa, a Dona Dalila. Corre pela sala, ajeita a tela rasgada, consulta o
    relógio; finalmente anuncia, com voz rouca, que a sessão vai começar. Apaga a luz e
    liga o velho e barulhento projetor.

    Um letreiro aparece na tela: "As Aventuras de Dalila". Antes mesmo que o
    filme se inicie já imagino do que se trata: uma lamentável coisa pornográfica, antiga,
    escura, muda—a mulher com o cachorro, a mulher com dois homens, a mulher com outra
    mulher. De fato, a primeira cena já mostra uma cama; e dentre peles e plumas emerge o
    rosto da devassa: olhos pintados de preto, boca em coração —linda, a diaba, apesar
    de tudo.

    Entra o cachorro; depois os dois homens; depois a outra mulher. A platéia ri e
    aplaude; de entusiasmo, alguns gemem, mesmo.

    O filme termina. A luz se acende. Resmungos; quer mais, alguém. Não, diz a velha, por
    hoje é só. Só na sexta que vem. E não esqueçam as notas de compra.

    Meio oculto atrás de um manequim, espero que todos saiam. A velha está enrolando o
    filme. Saio do meu esconderijo; ao me ver, assusta-se.

    —Que foi?—grita, enraivecida. —Já teminou! Te arranca. Cai fora logo
    que é tarde e eu ainda tenho muito que fazer.

    Tiro o bigode e os óculos. Recua, surpresa: Mas é o filho de Dona Cecília! Exato,
    digo, e acrescento: o filho dos teus concorrentes. Estou aqui para terminar com a
    palhaçada.

    Ri, incrédula. Terminar, como? Por quê? Porque é concorrência desleal, digo. Só
    por isto.

    —Teus pais podem fazer o mesmo na loja deles—observa, sarcástica.

    —Cala a boca!—berro (mas minha fúria é calculada). —Meus pais não
    são ordinários como tu, sua vaca! São honestos!

    Assusta-se: Não precisa gritar, não sou surda; e depois, o que tem de mal em passar
    uns filmezinhos? É uma sujeira—grito—atrair fregueses com estes truques!

    Suspira. Está bem, diz. Não passo mais filmes. Começa a tirar o rolo da máquina.

    —Me dá isto aqui—ordeno.

    —Para quê?—a voz é trêmula, e há verdadeiro pavor nos olhos. Ah!

    —Dá aqui!—repito.

    Tenta escapar pela porta dos fundos. Agarro-a, tiro-lhe o filme. Tenta reagir. Aplaco-a
    com um bom murro.

    —Vou queimar esta droga—digo, ainda ofegante.— Aqui mesmo, e já!

    —Espera um pouco! —o tom agora é de súplica, e a boca sangra.—Me faz
    um único favor. Me deixa assistir o filme pela última vez.

    —Para quê?

    —Deixa eu passar o filme. Depois te explico.

    Consulto o relógio. Tenho tempo; e mesmo, não vi direito o filme.

    —Está bom.

    Coloca o filme na máquina, apaga a laz. Sento-me no banco, acendo um cigarro. Ela
    senta-se junto a mim. Olhamos o rosto na tela—os olhos pintados, a boca em coração.

    —Sabe quem é esta aí?—murmura ao meu ouvido. —Sou eu mesma.

    —Mentira tua.

    —Palavra. Eu mesma, na Europa. Fui muito famosa… A bela Dalila.

    Olho-a. De fato, parece-me reconhecer no rosto gordo os traços da mulher da tela.

    —Passa o filme de novo. Não há dúvida: os mesmos olhos, a mesma boca. —Sou
    eu, sim—sussurra, e ri.

    Caímos no chão, entre os manequins. Sábado de manhã já estou no avião, a caminho
    de São Paulo. Já convenci os velhos a vender a loja para Dalila; já acertei a mesada
    que lhes mandarei de São Paulo; e já resolvi que tão cedo não voltarei ao bairro de
    Mont’Serrat, em Porto Alegre.

    Tales of the
    Trembling
    Earth

    A roar made the house shake. A blood cascade gushed over the man!
    The foot was agitated as a wounded monster.

    A nova empregada, é o que eles dizem, tem dois defeitos: come demais e—gozado
    isto—se queixa dos bichinhos em sua cama. Não se queixa da cama, nem do quarto; se
    queixa dos bichinhos que não a deixam dormir.

    Mas a nova empregada, eles dizem, tem qualidades: é limpa, é trabalhadora, é
    honesta. Tudo computado, eles estão satisfeitos.

    Eles: o Senhor Isidoro, Dona Débora, e seus dois filhos: o Alberto e o Júlio. Estavam
    de acordo: muito boa, a nova empregada. A Gertrudes. Uma colona de origem alemã,
    gigantesca. Trabalhadora, quieta. Do serviço para a cama, da cama para o serviço. (Nem
    podiam imaginar o que ia acontecer, eles.)

    Uma manhã—dois meses depois da chegada de Gertrudes—marido e mulher
    acordaram com uma sensação de asfixia. As janelas estavam fechadas (era inverno), mas
    mesmo nos meses frios a porta ficava aberta, para o caso de as crianças chamarem à
    noite, e também para garantir um mínimo de ventilação. Dona Débora sofria de
    bronquite asmática.

    Aquela manhã, porém, notaram que a porta estava obstruída por uma grande massa de
    contornos indistintos. Dona Débora acendeu a luz, saltou da cama, e foi ver o que havia.

    A porta estava bloqueada por um pé. O que ela via era a sola calosa de um grande pé.
    Alarmada, chamou o marido: Isidoro! Isidoro! Olha ali, na porta do quarto! É um pé,
    Isidoro! Eu acho que é o pé da Gertrudes!

    O marido sentou na cama, tonto de sono. Não quero essa mulher no meu quarto,
    resmungou, enquanto procurava os óculos. Manda ela já de volta para a cozinha.

    —Não, Isidoro!—a mulher arfava, o peito começando a chiar. —Eu acho
    que ela não pode, Isidoro! Ela ficou enorme, Isidoro!

    Ele colocou os óculos, saiu da cama e foi até a porta. Examinou cuidadosamente o
    estranho objeto. É um pé enorme—disse—de uma pessoa branca. Só pode ser o pé
    da Gertrudes, mesmo.

    —E agora?—perguntou a mulher apavorada.

    —A primeira coisa—disse o marido—é nós sairmos daqui.

    Espiou por uma fresta entre o pé e o marco da porta.

    —Não vejo nada… Gertrudes! Tira o pé daí, faz favor!

    Um gemido abafado veio de longe. O Senhor Isidoro escutou com atenção. Creio que a
    cabeça está na cozinha, disse. Chega aqui mulher, vê se consegue entender o que ela
    diz.

    A esposa aproximou-se da porta, a mão em concha na orelha.

    —Ela diz que não tira o pé. Ela disse que não sai daqui. Ela disse que não
    volta para o quarto dela, que lá os bichinhos incomodam demais.

    —Desaforo!—gritou o Senhor Isidoro, irritado. —Tira este pé daí,
    ouviste? Tira!

    Um grito veio do quarto ao lado:

    —Mãe!

    —É o Júlio—disse Dona Débora, apavorada. —É o meu filhinho, o meu
    Júlio.

    —Mãe—dizia Júlio—tem um pé enorme aqui na porta, mãe! A gente não
    pode sair!

    —Não te assusta, filhinho—disse o pai.

    —Não estou assustado—disse Júlio. Não estava mesmo; tinha só dez anos,
    mas era muito vivo e esperto. O outro, de doze, era mais quieto.

    —É o pé da Gertrudes—disse o Senhor Isidoro. —Mas não te assusta,
    filho, o papai já dá um jeito.

    Voltou-se para a mulher:

    —Um pé na nossa porta, um pé na porta das crianças, a cabeça na cozinha. Ela
    está ocupando toda a casa. A perna e a coxa devem estar bloqueando o corredor.

    —E agora?—perguntou a esposa, cada vez mais assustada.

    O dono da casa apertou os lábios e fitou a mulher. Não há jeito, disse, temos de
    amputar.

    —Um dedo?—disse a mulher, recuando.

    —No mínimo.

    Ela estava horrorizada.

    —Mas assim, a frio? E a dor?

    —O que é que se vai fazer? Ou ela, ou nós.

    —Pelo menos,—suspirou a esposa—avisa a coitada.

    Ele se aproximou da fresta da porta.

    —Gertrudes!—gritou, na direção da cozinha. —Gertrudes! Vamos tomar uma
    pequena providência. Vamos te dar um cortezinho no pé, ouviste? É para a gente poder
    passar. Depois traremos socorro, e tudo vai terminar bem. Ouviste?

    Um gemido foi a resposta.

    —Será que ela ouviu?—perguntou a Dona Débora.

    O Senhor Isidoro consultou o relógio.

    —Não sei. Mas não posso perder mais tempo. Vamos começar.

    Foi até a janela, quebrou uma vidraça e voltou com um grande caco de vidro.

    Tens álcool aí, perguntou à mulher. Muito pouco, ela disse, e ele, que droga! Logo
    agora que a gente precisava, pediu que ela lhe despejasse o líquido nas mãos. Depois,
    pediu que ela colocasse uma cadeira ao lado da porta, subiu e ficou à altura do grande
    artelho. É como casca de árvore disse, tocando a sola do pé. —Tem um calo enorme
    aqui, um calo do tamanho da tampa de um bueiro, bem onde eu queria cortar.

    Da cozinha veio uma risadinha abafada. Sente cócegas, a coitada—murmurou a Dona
    Débora.

    —Vou começar!—gritou o marido.

    Tomando impulso, cravou a lâmina de vidro na base do dedo. Um urro fez estremecer a
    casa! Uma cascata de sangue jorrou sobre o homem! O pé se agitava como um monstro ferido!

    —Pára, Isidoro!—gritava Dona Débora, horrorizada.

    —Agora não posso parar! Agora que comecei não posso parar! Tenho de ir até o
    fim!

    Os gritos de Gertrudes se transformaram num uivo medonho, contínuo. No quarto ao lado
    Júlio chorava alto.

    —Pára, Isidoro!

    —Cala a boca, mulher!

    Cortando sempre, Isidoro chegou ao osso. Para desarticular a falange usou a coluna do
    quebra-luz como alavanca. Finalmente o grande dedo tombou como um galho quebrado. Uma
    lufada de ar entrou no quarto.

    O Senhor Isidoro espiava pela abertura.

    —O que estás vendo?—perguntou a esposa.

    —É bem como eu imaginava—ele disse. —O corpo é enorme, ocupa todo o living.
    A barriga parece uma montanha. As tetas parecem duas montanhas. Enche a casa, esta
    mulher.

    —Coitada—disse a esposa. —Não fala assim, Isidoro.

    Ele examinava a ferida da amputação.

    —Continua sangrando. Tenho de dar um jeito nisto. Não posso subir por aqui, está
    muito escorregadio.

    Passou os olhos pelo quarto.

    —Aquilo ali não é o ferro elétrico?

    —É.

    —Bota na tomada. Quando estiver bem quente me dá.

    Enquanto o ferro esquentava, ele acalmava os filhos:

    —Se acalmem. O papai já vai aí.

    De repente se lembrou da empregada.

    —Gertrudes!

    Nenhuma resposta. Deve ter desmaiado, concluiu. A esposa lhe alcançou o
    ferro—quentíssimo—e ele o aplicou à superfície sangrenta. Um cheiro de carne
    assada encheu o quarto. Tu estás fazendo comida, mãe? Estás fazendo comida para nós?
    perguntou Júlio. Pobre criança, disse ela, ainda não, filhinho, ainda não estou
    fazendo comida—daqui a pouco, Julinho, espera só um pouquinho.

    —Deu resultado—gritou o Senhor Isidoro. —Cauterizei a ferida. Agora não
    sangra mais.

    Desceu.

    —Vamos, Débora. Sobe ali, passa pela abertura, e sai.

    —Eu? Mas eu não passo por aí!—protestou Débora.

    —Sobe!

    Mas a mulher tinha razão. Não passou mesmo, depois de várias tentativas.

    —Tu és uma baleia, mesmo!—resmungou o Senhor Isidoro.

    —Não tenho culpa, Isidoro.

    Isidoro avaliava a situação.

    —Bom. Vamos fazer o seguinte: eu passo e tiro as crianças, que é o mais
    importante agora. Depois venho te buscar.

    Dona Débora concordou. O Senhor Isidoro beijou-a, içou-se pelo pé acima e com algum
    esforço transpôs o coto do dedo. A primeira coisa que viu foi suas ferramentas
    espalhadas pelo chão do living. Estivera consertando uma cadeira na noite
    anterior; ficara com sono e fora dormir, sem guardar o material—apesar das
    reclamações da mulher. Agora, com as ferramentas, sentia-se armado. Pegou o serrote e
    brandiu-o no ar gritando para Débora:

    —Viste, Débora? Viste como às vezes é bom ser desorganizado ?

    Isidoro escalou uma coxa de Gertrudes, e olhou ao redor. Como tinha imaginado, o corpo
    da empregada ocupava praticamente toda a casa. Caminhou sobre o ventre montanhoso, cuja
    gordura caía em pregas nos flancos. O Senhor Isidoro teve vontade de levantar a camisola,
    para ver como estavam as partes, mas desistiu—a hora não era para sacanagens.

    A porta do quarto de Júlio estava bloqueada pelo outro pé. O homem galgou-o com certa
    facilidade; já tinha adquirido prática e além disto agarrava-se nos pelinhos loiros.
    Examinou o sulco entre o primeiro e o segundo artelhos, cheio de um sujeira de meses
    (limpa, ela? Pois sim). Por ali não poderia tirar as crianças. Este pé, contudo,
    parecia menor, e não fechava totalmente a abertura. Concluiu que se cortasse a unha do
    dedão conseguiria uma fresta bastante ampla. Para este trabalho usou o serrote e se saiu
    bem. Logo as crianças estavam fora; passado o susto, Júlio divertia-se, brincando de
    escorregador nas coxas da empregada.

    Mas o Senhor Isidoro estava preocupado. Não tinha meios de sair do living; todas
    as aberturas estavam bloqueadas. Terei de cavar um túnel no braço, raciocinou, e atingir
    a porta da rua pelo corredor.

    Neste trabalho foi ajudado pelas crianças. Usaram formão, talhadeira e a lâmina da
    plaina—e naturalmente o ferro elétrico como cautério. Gertrudes não reagia aos
    golpes, embora estivesse quente. O Senhor Isidoro imaginava que ela estivesse desmaiada
    (de fome. Alimentar um corpo destes agora não vai ser fácil), mas não se preocupava.
    Queria sair dali o mais depressa possível para trazer socorro. De repente Júlio começou
    a chorar:

    —Coitada da Gertrudes! Tão boa, e nós aqui machucando ela! Trouxemos a
    pobrezinha para Porto Alegre só para fazer mal para ela!

    O Senhor Isidoro parou o trabalho, tomou-o nos braços suaw6kx de sangue.

    —Não, filhinho, não é nada disto. O que estamos fazendo é para o nosso bem e
    para o bem de Gertrudes. Temos de buscar ajuda, não vês? E depois—a gente não
    tirou Gertrudes de casa. Ela é que quis vir para a cidade para melhorar de vida, ganhar
    dinheiro, arranjar um namorado… comer mais. Se não fosse a gente ela teria ficado lá
    no interior, nunca teria progredido. Agora—quem mandou ela ser gulosa e comer tanto,
    não é verdade? Isto foi um castigo. Mas eu não estou brabo, não; logo a gente vai sair
    daqui e buscar um médico para ela.

    Júlio mais calmo, voltaram ao trabalho, que ia se tornando cada vez mais difícil. O
    Senhor Isidoro teve de construir um sistema de sustentação, à semelhança do usado em
    minas. Usou para isto a madeira dos móveis. O túnel era tão comprido que ele teve de
    instalar também uma rede elétrica. Isidoro cavava, os meninos transportavam a carne
    cortada.

    O trabalho levou cerca de doze horas. A noite atingiram o antebraço, furaram a pele e
    saltaram para a palma da mão. Afastaram os dedos—e viram-se diante da porta! A
    saída!

    Depois libertaram a Dona Débora, depois se abraçaram, riram, contavam-se a história
    uns para os outros, mil vezes.

    A história que eles contam é esta.

    Eu conto outra história. Sou empregada, sou uma colona do interior, mas sei ler e
    escrever, sei contar histórias. A história que eu conto é de quatro bichinhos que
    passeavam pelo meu corpo, me picando, me mordendo, me tirando sangue. Quatro bichinhos que
    estavam à vontade, como habitantes de urna terra amável. Vão ver, os quatro bichinhos
    quando a terra tremer. Vão ver que histórias lhes conta esta terra trêmula.

    These short stories were excerpted from Os Melhores Contos de Moacyr
    Scliar, Global Editora, São Paulo, 1984. In the original they were called:
    "Shazam," "Agenda para a Noite de Núpcias," "Ápice de
    Pirâmide," "Ofertas da Casa Dalila," and "Histórias da Terra
    Trêmula."

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