The Confession

    
The Confession

    Why insist on playing with fire, which is precisely what this
    government and its so-called allies are doing when so much time and effort are wasted on a
    nearly pointless cabinet shuffle, while vital matters at hand go unresolved?
    By Cristovam Buarque

    Continued from last issue.

    Os homens vieram e já não foi para me dar peia. Já não era cabra do Coronel. Era
    soldado fardado de mesmo. Quando eles chegaram perguntando mansinho com aquela voz
    não-sei-o-que-quero-dizer de soldado, perguntando se ali vivia Astrogildo, contador de
    estória, eu me senti confortado, contente na minha posição. Ingenuidade medonha. Não
    era para ouvir estória. Era para me levar a cidade grande. Me botaram trancado com muitos
    outros, e eu me calei pela primeira vez sem saber contar estória à cara estranha. Essa
    não era minha maneira. Mas os homens ali foram todos bons comigo, e com os dias passando
    eu fui chegando para perto e as estórias saindo de dentro. Contei muitas estórias velhas
    porque eles ainda não conheciam, e meu juízo preso estava cansado também. Mas aí,
    quando acabaram as velhas, o juízo já estava acostumado de novo e outras estórias
    saíram. Eu vi que já não precisava de cortar o chão nem sentir o vento na chuva.
    Estava tudo dentro de mim. Já não precisava sair ao mundo, ele estava aqui dentro, ainda
    que o senhor não veja. Foi aí, eu acho, que saíram das boas que eu já fiz; sabe a do
    "Presos Soltos e dos Soltos Presos"? Foi aí que eu fiz; sabe a do "Mundo
    Todo de Cabeça Para Baixo"? Pois foi aí que eu fiz também. E fiz e fiz mais e já
    não parava de fazer. Já os presos de outros lados também queriam ouvir, e eu tinha de
    gritar.

    Foi quando um dos de lá começou a escrever o que eu dizia. Ele não inventava e eu
    não escrevia. Passei a viver dele e ele a viver de mim. E os meses passavam a gente
    escrevendo, falando, e todos depois recebiam. Dizem, eu nunca sei se a verdade é mentira
    ou se a mentira é verdade, que o Doutor da prisão, o chefe supremo, lia e gostava
    também e por isso que ele não proibia. Não sei.

    Eu ia assim até sempre, lhe digo com certeza, não fosse o medo que veio quando soube
    que ia ficar só. O outro, o amigo do lado, já ia embora. Eu não ia pedir que ficasse,
    mas não queria que ele fosse. E fiquei com medo, até que ele disse "Astrogildo, vou
    ensinar você a escrever". E assim foi. Não foi fácil. Me veio raiva de mim, por
    ter esperado tanto. Por que não tinha dado mais atenção a D. Lurdinha? O Padre
    Ambrósio, de ruim que era, tinha tentado bem. Eu devia ter feito isso antes. Mas assim
    foi, me tornei um letrado. Do a ao z eu sabia tudo. Bem antes de partir
    Sandoval, já carta eu copiava. Até livro sabia tirar com uma letra caprichosa que não
    era má. E eu me senti o rei com um lápis na mão. E peguei no lápis e quis parar de
    copiar o dos outros e botar no papel uma idéia das minhas. E assim tentei. E tentei mais.
    E não saía. E não saía nada. E não saía nunca. E não enchia o papel branco. Era por
    praticar que eu precisava. E foi por isso que eu fiquei contente quando os de lá de cima
    me levaram como ajudante do homem. Até máquina me ajudaram a aprender e eu sabia
    escrever tudo o que ele dizia. Não tomou muito e eu era rápido e tudo saía perfeito.
    Mas quando queria escrever o de mim, o meu mesmo, como via o mundo, nada saía. Fui
    deixando para depois, para o outro dia, enquanto praticava escrevendo o dos outros. E o
    meu não saía. E a prática tomava todo o tempo e o tempo de pensar já não vinha. E o
    vento que me falava foi ficando caladinho, e a terra que eu ouvia foi mudando aos
    pouquinhos, e eu continuava praticando, esperando, escrevendo os pensamentos dos outros
    que eu sabia errado. E assim levei um tempo. Muito tempo.

    E mesmo agora, tantos anos e tantas voltas depois, ainda não voltou meu juízo ao
    tempo de antes das estórias boas que gostava de contar. Tá aí mesmo o senhor
    diligentemente a me ouvir, e o só que sai é a estória minha própria, não as boas, do
    mundo. Estória da gente não tem valor. É só lembrança. Que valor terá? Mas o senhor
    quer ouvir assim mesmo. Eu lhe digo—para que mentir?—estórias dessas já quis
    contar também. Antes mesmo de subir lá para cima no escritório do homem. Quando ainda
    eu era o Astrogildo contador. Quis estórias voltando para trás no tempo, na direção do
    sertão. O senhor pensou que bom era tudo contado às avessas do tempo? Mas parece que o
    senhor Deus não deu tanto poder à gente. Mudar as coisas tá certo. Mas o tempo não
    pode. É por isto que o tempo continua certinho. Tudo na frente da direção dele que para
    mim é no sentido de costa da direção minha. Só que, Deus me livre, mas essa frente é
    mais volta do que ida. Que frente é essa, se só tem a morte depois? A frente devia ser a
    vida. Devia ser a mocidade já gasta. E estragada até. Eu não sei, mas a minha ela só
    foi estragada depois. No começo, só foi gosto. Gasta no certo. As matinadas na procura
    de estórias perdidas. As serestadas no conto das estórias achadas. Mas não dizem que a
    gente é levado a esquecer os pedaços ruins que carrega o juízo? Não dizem até que o
    juízo tudo traz, mas lembrar que vale só o que a gente quer?! Não sei nada direito
    não. Só sei que era tudo bom. E no bom que era, eu nem me percebia do mal, se mal
    houvesse, nem do mel se no mel estava.

    Mas não me arrependo, doutor. Olhe aqui. Se no mel eu ficasse sem enfrentar o padre
    nem o coronel, o mel desaparecia sozinho. O mel da vida não existe por ele só. É
    mentira. É a vida que a gente faz, que faz o mel que a gente vive. Pois saiba que saída
    eu não tinha. Deixar de contar estória para agradar o coronel, era morrer vivo estando.
    Só me restava o que eu fiz e não posso me arrepender. Não tem arrependimento de ter
    cumprido o destino da gente. Se encruzilhada não há, o caminhante não pode maldizer de
    estar perdido. Eu só segui meu caminho. Só foi o que eu fiz até aquele dia em que os
    outros decidiram me carregar por uma estrada diferente. Eu na hora nem percebi. Tão pouco
    vivendo eu estava naqueles dias, que só me dei conta da mudança nos tempos que já em
    terras estranhas estava. O que aconteceu, foi que por decisão dos outros, do governo, e
    por ordem na briga com os homens da luta que tinham prendido um doutor embaixador, eu me
    vi, de repente: sem saber porquê nem onde. Fui trocado. É o que disseram os que junto
    comigo estavam. E todos levados para fora. Para longe; o além eu diria até se de lá
    não se pudesse voltar como eu voltei. Será que voltei? Será que não era mesmo o além
    e que na aparência da volta ainda está por lá o meu juízo e minha alma perambulando,
    enquanto a visão de um corpo sem dono é o que está, aqui com o senhor conversando?!

    Só sei que meu destino que era uma linha reta, passou a ser uma encruzilhada de mil
    caminhos. Mas eu não sabia que rumo tomar. Deixei aos outros a decisão de me conduzir. O
    de comer, no gosto estranho, me era trazido. O de vestir, no frio estranho, me era levado.
    O de escutar, na língua estranha, me era dito. O de ver, diferente, me era mostrado. E eu
    no meio do turbilhão, fuá danado; com fome, com frio, sem entender e sem gostar. Mas
    ali. Olhos arregalados no mundo todo, a observar.

    Acho que têm razão os que dizem das lembranças escolhidas apenas. Por isto, daquele
    tempo, eu quase não lembro nada. Nem sei mesmo quanto tempo foi. Anos, nove, até eu vi
    um dia a conta.

    Quando eu morava no sertão eu achava que aquilo era o mundo. E que do mundo eu era. E
    que o mundo todo era um só. Estórias eu já tinha ouvido de lugares que eram diferentes,
    de gente que falava estranho, no frio que parava a água. Mas eu achava que o mundo era um
    só. Ou talvez fosse que aquele outro mundo diferente era como os que eu via no meu
    juízo. E que eu fazia como queria, às vezes. Mas, quando eu vi que o juízo não
    controlava o que eu via, nem as falas que eu escutava, e o frio que eu sentia me apertava
    o coração e o mundo todo que rodeava vinha de fora para dentro e não de dentro para
    fora do meu juízo; aí eu desesperei, gritando um dia e me levaram para aquela casa
    grande onde entre outros iguais eu vivi um tempo.

    Era uma casa com três tipos de gente. Os iguais a mim que eram, os que vestidos de
    branco estavam, e os outros que éramos e não éramos. Quando eu queria, ali tudo era
    igual ao meu Sertão. O mundo todo voltou às origens e eu até talvez pudesse dizer ao
    senhor que dali gostei. As estórias que antes eu inventava já não precisava de inventar
    mais não. Eu dormia com a Serpente de Sete Cabeças, conversava com o Urubu Louro, fazia
    caretas para o Gato Despenteado e pedia a bênção à Fada das Mil Varinhas. Eu plantei
    no Engenho da Lua e comi chocolate com a Donzela Sonhadora. De dentro para fora que eram
    minhas estórias, elas passaram a ser de fora para dentro, e de dentro e de fora, tudo no
    igualzinho do mundo onde eu estava.

    O senhor talvez hoje não acredite. E eu mesmo olhando de revés, como a gente sempre
    olha o tempo passado, ficam as dúvidas das coisas. Mas eu lhe digo que vivi com os que eu
    havia inventado.

    Mas eu perdi o rumo das coisas. Foi assim que o doutor me disse um dia. E eles, os
    inventados, passaram a ser mais fortes do que eu. E o dia chegou em que eu fui menos que
    eles, quando um deles disse que eu não existia e riu dizendo que ele era um contador de
    estórias da capital e que para enganar a todos lá do sertão e do mundo também, contava
    a estória falseada que era a minha: a de um contador, dos bons, que contando estória
    contra padres e coronéis foi preso um dia e levado na vassoura de uma fada brilhante para
    terras estranhas, desconhecidas, onde estava. De mestre contador, eu virei pedaço de
    estória.

    Mas aqui estou eu de volta, doutor. Voltei, mas vi que o caminho da ida era uma viela:
    beco sem saída. Levava à parede fechada, a lugar nenhum; um vazio que bem podia ser lá
    chamado Nada. Acho que na verdade até demorei a voltar. Devia ter vindo antes de chegar.
    Mas a meia volta é mais difícil do que andar. E na virada, a gente às vezes perde o
    equilíbrio e continua em frente sem nem saber.

    Felizmente voltei. Será? Olhe em volta. Está tudo igual como antes estava. Aqui
    nasci. Nesta casinha mesma. Naquele quarto ali, onde eu durmo toda a noite agora, sem mais
    sonhar. Ali mesmo, numa cama diferente, foi onde fui parido e dei entrada no mundo. Mas
    será que voltei? Olhe ao redor. Tudo isto, quase, já existia. E assim mesmo é tão
    diferente. A volta não é para onde a gente quer no tempo. Voltar é fácil nos caminhos
    sobre a terra. Mas no tempo ninguém volta, não. Estou eu aqui para provar. Mas a minha
    não foi igual não. Só nas aparências do que me rodeia é que voltei ao meu lugar. No
    que eu mais queria, no coração das coisas desabrochando que eu queria voltar a ver,
    está tudo perdido. Olhe bem para estas minhas mãos. Eu queria voltar de verdade para
    limpar ela dos pecados que já cometi andando por este mundo afora. Eu queria que ela
    ficasse inocente das estórias que escreveu, do dinheiro que já contou. Tanto, diante da
    miséria dos outros. Eu queria que minha língua enxugasse de tudo ruim que já disse, e
    que meus pés ficassem limpos como os dos apóstolos. Mas na volta, minha mão pecou mais
    vezes, os pés pisaram onde não deviam, e a língua continuou mentindo até para mim
    mesmo. E estou eu aqui, a todos dizendo que voltei. Outra mentira que digo a cada instante
    desde que acordo e deixo meu corpo circular pelas coisas que parecem o de antigamente.
    Não há nunca volta. Isto é tudo que descobri nos caminhos que percorri. E pior é que
    nem parar podemos.

    Olhe bem o senhor e eu aqui também, os dois sentados a conversar. Quem olhasse a
    gente, lá de longe, ia dizer: ali está um velho e um jovem proseando. Como quem diz: ali
    estão mesmo os dois, que será que conversam aqueles. Agora, aqui entre nós, bem
    baixinho sem que nos ouçam: será, que estamos nós mesmos aqui neste lugar? e será que
    proseamos nós dois? Veja bem. Um dia disseram daquelas estórias que eu contei, de que
    elas não existiam. De que era tudo mentira. Mas, mais mentira do que a gente está aqui
    neste lugar, não pode ser. Se um coco caísse na minha cabeça um instantinho atrás, eu
    já não estava mais aqui. E quem garante que ele não caiu sem a gente ver. E por que o
    senhor veio até aqui? As forças do mundo são sem controle; a gente apenas segue, e se
    elas por capricho ou má vontade mudassem um quesinho que fosse, já toda a verdade seria
    mentira e uma só mentira, de entre todas, passaria a ser a verdade. Que verdade é esta
    que só não é mentira por causa de um coco maduro?

    E agora que eu já voltei das terras estranhas, sendo trazido como daqui fui levado um
    dia, sem controle de escolher o caminho da encruzilhada por onde seguir, e perdido de todo
    jeito, eu ficaria aqui onde estou. E mais por mais, a conversa está ficando cansada. A
    prosa foi boa. O senhor não se preocupe comigo não. Eu fico aqui. E agora, não é o
    tempo que eu queria, mas pelo menos é agora mesmo. E isto basta. Estou cansado de esperar
    amanhã lembrando o ontem que já passou. Não sairei mais do aqui e do agora. O senhor
    porém tem todo direito. Feche o ouvido e saia devagar. Eu não vou nem pressentir.
    Depois, quando eu abrir os olhos, o senhor já não mais vai estar. E eu pensarei comigo:
    "não foi ninguém, não. Eu cá pensava sozinho mesmo comigo: o doutor nunca
    existiu." E que pensa o senhor que meu juízo vai pensar? O de verdade: que o senhor,
    doutor, com toda sua sabedoria, com toda sua paciência de me escutar, o senhor nunca
    existiu, doutor. Minha vida foi rodeada de fantasmas que eu mesmo pensava criar. E assim
    passei a vida esquecido de que era também um fantasma, de fantasmas criar.

    E agora já é tarde. Estou cansado. Muito cansado para descobrir que tenho o direito
    de viver eu também. De levantar a mão e sair do papel.

    Pois é assim. Já está tudo terminado. Melhor a gente tomar a saideira. A saideira
    mesmo. E depois esperar o caixão chegar. O senhor ri porque ainda é moço. Acredita que
    tem coisa muita pela frente. Não quero tirar sua ilusão. Vá. Pode ir. Um dia, quando
    menos esperar, tomando uma cervejinha gelada na sua casa bonita que o senhor deve ter,
    como todo doutor, o senhor vai lembrar de mim. Aí, baixa os olhos, olha dentro de você e
    pensa baixinho: "esta podia ser minha saideira". Saideira mesmo, antes de
    esperar o caixão. Mas logo chega sua dona, ou um garçom fardado que ali está para lhe
    servir, e faz que não entende, pergunta se ainda quer outra e o senhor diz que sim e toma
    outra e mais uma, pensando sempre que não vai acabar mais e, de repente, o caixão chega
    sem avisar: antes da saideira. É triste, eu sei. Mas é o que chamam verdade.

    O dono do destino é aquele que sabe a hora da saideira e não fica bêbado com a
    própria vida. Mas é melhor não botar coisa na sua cabeça. Fique pensando mesmo é que
    não existo. Que só o senhor é que é de verdade. Na sua cabeça, eu sou somente um
    vagabundo de página de livro, que distrai sua atenção das coisas sérias deste mundo:
    trabalho e família e lutas e políticas de grande. Mas eu cá comigo, interesse já não
    tenho. Que interesse me dá, se pedaço continuo a ser das estórias de outros que nem sei
    mesmo se existem, porque a eles fui eu que um dia inventei. Mas, mesmo que diferença
    nenhuma fizesse, eu só queria voltar ao tempo de lá. Antes eu era. Ou será que não era
    não? Eu acho que era. Só isso: antes eu era. Agora eu só sou nada. Só isso: agora só
    sou nada. E o senhor a me escutar? O senhor também só é isso: só é nada. Mas eu quero
    continuar a contar. Um dia, volte. Talvez eu conte mais. Estória, não de antes nem de
    agora, estória do de depois. Porque estórias de mim já não bastam, desde o dia que eu
    deixei de ser e virei esse corpo sem alma. Ou será mais essa alma sem corpo. Um contador
    que eu mesmo inventei, e que pensa existir e ser eu quem ele inventou. E não será mesmo?
    Nem me importa, lhe digo. Apenas aqui fico. E se quiser, ouça as outras estórias. Se
    quiser vá embora, também. Eu não careço de quem me ouça. Meu juízo fala com meu
    ouvido. Não careço do senhor. Não careço do aqui nem do agora. Eu sou o de sempre e de
    toda parte. Em Astrícia vivo. Eu sou nada. Meu nome é Astor. Alma sonâmbula que um
    contador inventou.

    "Eu quis um dia, como Schumann, compor
    Um carnaval todo subjetivo:
    Um carnaval em que o só motivo
    Fosse o meu próprio ser interior…"

    Manuel Bandeira, Epílogo.

    Excerpted from Cristovam Buarque, Astrícia (Rio de Janeiro:
    Civilização Brasileira, 1984). Ó Cristovam Buarque

    Cristovam Buarque (cbuarque@brnet.com.br
    ) is the Brazilian author of fifteen books of essays and fiction. He is a professor at the
    University of Brasília, where he was the Rector from 1985 to 1989. From 1995 to 1999 he
    was the Governor of the Federal District of Brasília.

    The Confession

    The master of his own destiny is he who knows the hour of his last drink and
    doesn’t stay drunk with his own life. But it’s better not to put such ideas in your head.
    Just keep thinking that I don’t exist. That only you are the real one. In your head I’m
    only a bum from the page of a book, who distracted your attention from what’s important in
    the world.

    Cristovam Buarque

    Continued from last issue.

    Some men came, and this time it wasn’t to beat me up. This time they weren’t the
    Colonel’s bodyguards, but soldiers in uniform. When they arrived, asking softly with that
    I-don’t-know-how-to-describe-it soldier voice, asking if Astrogildo, the storyteller,
    lived there, I felt comfortable, content with my position. How naïve I was! They weren’t
    there to hear stories. They were there to take me away to the big city.

    They put me behind bars with a lot of others, and for the first time in my life, I shut
    up because I didn’t know how to tell stories to strangers. That wasn’t my way. But the men
    there were all good to me, and as the days passed I felt closer to them, and once again
    the stories were coming from inside me. I told a lot of the old stories because they had
    never heard them, and also because my imprisoned mind was tired.

    But then, when the old ones were all told, my mind had gotten used to the situation and
    other stories came to me. I saw that now I didn’t need to hoe the ground or feel the wind
    in the rain. Everything was inside me. Now I didn’t need to go out in the world because
    the world was inside me, even though you can’t see it. It was there, I think, that the
    best stories I ever made up came out. Have you heard of "The Freed Prisoners and the
    Imprisoned Freemen"? It was there that I made up that one. "The Whole World
    Upside Down"? Well, I was there when I made up that one, too. And I made up more and
    more and didn’t stop making them up. Now the prisoners on the other sides also wanted to
    hear the stories, and I had to shout.

    That was when one of the other prisoners began to write down what I was saying. He
    didn’t know how to invent, and I didn’t know how to write. I came to live through him; and
    he, through me. And the months were passing while we were writing and talking, and later
    the stories went to everyone. They say, I don’t know if it’s true or not, that the head of
    the prison read them and liked them too, and that’s why he didn’t forbid them. I don’t
    know.

    I do know I could have gone on like that forever, if I hadn’t found out that I was
    going to be left by myself. The other man, my friend in the next cell, was getting out. I
    wasn’t going to ask him to stay, but I didn’t want him to go either. And I was afraid
    until he said, "Astrogildo, I’m going to teach you to write."

    And that’s how it was. It wasn’t easy. I became so angry with myself for waiting so
    long. Why hadn’t I paid more attention to Dona Lurdinha? Father Ambrósio, as bad as he
    was, had done his best to teach me. I should have done this before.

    But that’s how it was. I became literate. From "a" to "z" I learned
    it all. Well before Sandoval left I was already copying entire letters. I could even copy
    a book with handwriting that wasn’t too bad. And I felt like the king of the world with a
    pencil in my hand. And I picked up the pencil and tried to stop copying what others wrote
    and put my own ideas on paper. I tried. Then I tried some more. And the ideas didn’t come.
    Nothing came. And nothing ever came. And the blank paper never filled up.

    What I needed was practice. So I felt happy when they took me upstairs to be the man’s
    assistant. They even helped me to learn to type, and I knew how to write everything that
    he said. It didn’t take me long and I was fast, and everything came out perfectly. But
    when I wanted to write my own words, how I saw the world, nothing came out. I was leaving
    it all for later, for another day, while I practiced writing other people’s words. And my
    own didn’t come out. And practicing took all my time, and I didn’t have time to think any
    more. And the wind that used to talk to me was falling silent, and the earth that I used
    to hear was changing little by little, and I continued to practice, waiting, writing the
    thoughts of others that I knew were wrong. And I did that for some time. A long time.

    Even now, after so many years have passed and so much has happened, my mind isn’t what
    it was before, the way it was when I could tell the good stories. You’re here diligently
    listening to me, and all that’s coming out is my own story, not the good ones, the stories
    about the world. Your own story has no value. It’s only a memory. What value does that
    have? But you still want to hear it. I’m telling you—why should I lie?—some of
    those stories that I already tried to tell. Before going up to work in the man’s office.
    When I was still Astrogildo, the storyteller. I tried to tell stories going back in time,
    back in the direction of the backlands. Have you ever thought how good everything is
    that’s told going back in time? But it seems that the Lord God didn’t give us so much
    power. Changing things is possible, but time, no. That’s why time continues going straight
    ahead. Straight ahead is the direction of time, the reverse of my direction.

    Only, God help me, this going forward is more a return trip than an outgoing trip.
    What’s so good about moving forward if only death is waiting? Moving forward should lead
    to life. It should be the youth you’ve already spent. Wasted even. I don’t know, but mine
    was only wasted later on. In the beginning it was so good. The dawns looking for lost
    stories. The evenings telling the stories I’d found.

    But don’t they say that we forget the bad fragments that we’re carrying around in our
    minds? Don’t they even say that the mind carries everything around with it, but only
    remembers what we want to remember? I can’t say for sure. I only know that it was all
    good. I never even saw what was bad, if anything was. It’s like everything seems sweet if
    you’re immersed in honey.

    But I have no regrets, Doctor. Look here. If I had stayed immersed in the honey without
    confronting either Father or the Colonel, the honey would have disappeared on its own. The
    honey of life doesn’t exist for itself alone. That’s a lie. It’s the life that we
    ourselves make that’s the source of the honey.

    But, believe me, I had no way out. To stop telling stories just to please the Colonel
    would be like joining the living dead. I could only do what I did, and I can’t repent for
    what I did. No one should have to repent for fulfilling his destiny. If there’s no
    crossroads, the walker can’t curse the fact that he’s lost. I only followed my own road.

    That’s what I did until the day that others decided to carry me down a different one.
    At that time I didn’t realize what was happening. In those days I’d lived so little that I
    only perceived that the times had changed when I was already in strange lands. What
    happened was that I found myself, all of a sudden, without knowing why or where, mixed up
    in the government’s dispute with the revolutionaries who had kidnapped an ambassador. I
    was one of the prisoners exchanged. That’s what those who were with me said.

    And we were all taken away. Far away; so far away, I’d say, that one couldn’t possibly
    return like I did. Can it be that I did return? Could it be that my mind and my soul are
    still wandering around over there, while the vision of a body without an owner is here
    talking with you?

    I only know that my destiny, which was a straight line, became the intersection of a
    thousand roads. But I didn’t know which direction to take. I left the decision to others.
    What I ate, with its strange flavors, was brought to me. What I wore, in the strange cold,
    was given to me. What I heard, in the strange language, was said to me. What I saw, what
    was different, was shown to me. And I, in the middle of the whirlwind, the wicked
    disorder, hungry, cold, not understanding anything and not liking it. But I was there.
    Eyes staring at the entire world, observing.

    I think those who say that we select what we want to remember are right. Because of
    this I hardly remember anything about that time. I don’t even know how much time passed.
    Years, nine years, until one day the bill arrived.

    When I lived in the backlands I thought that it was the whole world. And that I was
    part of the world. And that there was only one world. I had heard stories about places
    that were different, of people who spoke strange languages, of the cold that froze water.
    But I thought that there was only one world. Or that maybe that other, different world was
    like those I saw in my mind, the worlds I made up. But, then, I saw that my mind didn’t
    control either what I saw or the talk that I heard, and the cold that I felt seized my
    heart and, instead of moving out from inside my head, the entire world surrounding me came
    rushing into my head. So, one day, shouting, I gave up hope, and they took me to that big
    house where I lived for a time, among others like me.

    It was a house with three types of people: those who were like me; those who were
    dressed in white; and the others that we were and we weren’t. When I wanted, everything
    there was equal to my backlands. The entire world returned to its origins and maybe I
    could even tell you that I liked it there.

    Now I didn’t have to invent stories. I slept with the Seven-Headed Serpent, spoke with
    the Blond Vulture, made faces at the Cat Who Needed to Comb his Hair, and asked the Fairy
    with the Thousand Magic Wands to bless me. I planted cane on the Sugar Plantation on the
    Moon and ate chocolate with the Dreaming Damsel. Before, my stories came from the inside
    out; now they came from the outside in, and from inside and from outside. It made no
    difference in the world I was in.

    Maybe you won’t believe me today. And, looking backwards, they way people always look
    at the past, I still have doubts about some things. But I can tell you that I lived with
    the characters that I had invented.

    But I lost my way. That was what the doctor told me one day. And they, the characters I
    had invented, became stronger than I was. The day came when one of them said that I didn’t
    exist; he laughed, saying that he was a storyteller from the capital and that to fool
    everyone there in the backlands and also out in the world, he told a false story, the
    story of my life: the story of a storyteller, a good one, who, after telling stories that
    criticized the priests and the colonels, was taken prisoner one day and carried away on a
    broom by a shining fairy to distant, unknown lands, where he was now. After starting out
    as a master storyteller, I had become a mere fragment of someone else’s story.

    But here I am again, Doctor. I came back again, but I saw that the road back was only a
    dead end. It led to a blank wall, to nowhere, to an emptiness that could be called
    "Nothing." Truthfully, I think that I even delayed returning. I should have come
    back before arriving at that point. But turning around is more difficult than walking
    forward. And turning around, we sometimes lose our balance and continue going forward
    without realizing it.

    I returned happily. Could that be? Look around. Everything’s like it was before. I was
    born here. In this very house. In that room there, where I sleep right through the night
    now, but without dreaming anymore. Right there, in a different bed, was where I was born
    and came into the world. But could it be that I returned? Look around. Almost all this
    already existed. And, just the same, it’s so different. We don’t return to where we want
    to be in time. It’s easy to return on the roads of Earth but no one returns in time, no.
    I’m here as proof of that.

    But I only returned to the appearances that used to surround me. What I wanted most,
    the heart of things that I wanted to see again—that’s all lost. Look at my hands. I
    really wanted to return, to wash from them the sins that I committed wandering around in
    the outside world. I wanted my hand to remain innocent of the stories that it wrote, of
    the money that it counted. So much money, and with others living in such misery. I wanted
    to wring out of my tongue all the evil it ever said; I wanted my feet to be washed clean
    like those of the apostles. But when I returned, my hand sinned again, my feet stepped
    where they shouldn’t have, and my tongue continued lying, even to myself.

    And here I am, telling everyone that I’ve returned. Another lie that I repeat each
    second from the instant I wake up and let my body walk among the things that seem the same
    as before. There’s no such thing as returning. That’s all I discovered on all the roads
    that I traveled. And what’s worse, we can’t even stop.

    Look at you and me sitting here, the two of us seated here conversing. Anyone seeing us
    would say, "There’s an old man and a young man talking." They could say,
    "There they are. What could they be talking about?" Now, just between us, in a
    whisper so that they can’t hear us: Could it be that we are here in this place? And
    are we really talking to each other? Look. One day they said that those stories that I
    told didn’t really exist. That it was all a lie. But, there can’t be a bigger lie than
    saying that we two are here in this place. If a coconut had fallen on my head just a
    second ago, I wouldn’t be here any more. And who’s to guarantee that it didn’t fall
    without us seeing it?

    And why did you come here? The forces of the world are out of our control; we only
    follow them, and if through some whim or ill will they should change something that has
    happened, everything that was true would become a lie and only one lie, among all of the
    lies, would then become the truth. What sort of truth is this that only is not a lie
    because of a ripe coconut?

    And now that I have returned from strange lands—brought back just as I was carried
    away from here one day, without control, with no choice as to which road in the crossroads
    to follow, and completely lost—I’ll stay here where I am.

    And this conversation is becoming tired. The talk was a good one. You shouldn’t worry
    about me, no. I’ll stay here. Here and now. Though it’s not the time that I wanted, at
    least it’s now. And that’s enough. I’m tired of waiting for tomorrow while remembering the
    yesterday that’s already passed. I’m not going to leave the here and now again. You,
    though, you have every right to leave. Close your ears and leave slowly. I’m not going to
    even sense it.

    Later, when I open my eyes you won’t be here any more. And I’ll say to myself,
    "Nobody was here. There was no one. I was here by myself, just thinking out loud. The
    doctor never existed." And what do you suppose my mind is going to think? The truth,
    Doctor: that you with all your knowledge, listening to me with so much patience, that you
    never existed, Doctor. My life was surrounded with phantasms that I myself created. And so
    I spent my life creating phantasms, forgetting that I was one myself.

    And now it’s late. I’m tired. Almost too tired to discover that I also have the right
    to live. To raise my hand and leave the paper.

    Well, that’s the way it is. Now everything is finished. Better that we have one last
    drink. And then wait for the coffin to arrive.

    You’re laughing because you’re still young. You think that you still have a lot to look
    forward to. I don’t want to destroy any illusions. Go ahead. You can go. One day, when you
    least expect it, while you’re drinking a cold beer in the beautiful house that you must
    have, because every doctor has a beautiful house, you’re going to remember me. Then, lower
    your eyes, look within yourself and think to yourself, "This drink could be my
    last."

    But then your wife arrives, or maybe a uniformed butler who’s there to serve you; and,
    pretending that he doesn’t understand, he asks if you want another beer. And you say yes
    and drink another one and then another, thinking that it will never end. And, suddenly,
    the coffin arrives unannounced. It’s sad, I know. But it’s what they call the truth.

    The master of his own destiny is he who knows the hour of his last drink and doesn’t
    stay drunk with his own life. But it’s better not to put such ideas in your head.

    Just keep thinking that I don’t exist. That only you are the real one. In your head I’m
    only a bum from the page of a book, who distracted your attention from what’s important in
    the world, from work and family, from struggles and politics.

    But here inside myself I’m just not interested anymore. How could I be interested, if
    I’m only a fragment of other people’s stories? People I’m not even sure exist because it
    was I who invented them one day?

    But, even if it makes no difference whatsoever, I only want to return to that time.
    Before, I was. Or could it be that I never was? I think that I was. Only this: before, I
    was. Now I’m only nothing. Only this: now I’m only nothing.

    And what about you here listening to me? You’re also only this: only nothing.

    But I want to go on telling stories. Come back someday. Maybe I’ll tell more. A story,
    not of before or of now, but of later. Because stories about me aren’t enough now, since
    the day that I ceased to exist and turned into this body without a soul. Or, maybe, this
    soul without a body. A storyteller that I myself invented, and who thinks that he exists
    and that he invented me. And isn’t that the same thing?

    It doesn’t matter to me, I tell you. Just that I’m staying here. Listen to the other
    stories if you want. Or, if you want, leave right now. I don’t lack listeners. My mind
    talks with my ear. I don’t need you. I don’t need the here and now. I’m the same as always
    and everywhere. I live in Astrícia. I’m nothing. My name is Astor. Sleepwalking soul that
    a storyteller invented.

    "I attempted one day, like Schumann, to compose
    A carnival completely subjective:
    A carnival in which the only motif
    Would be my own interior being…"

    Manuel Bandeira, Epilogue

    Translated by Linda Jerome (LinJerome@cs.com
    ) from "A Confissão," published in Brazil in 1984 by Civilização Brasileira
    as part of Cristovam Buarque’s collection of short stories Astrícia.

     

     

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