The Family

    The Family

    Talking to himself the old man whispered something
    I didn’t understand. And then he went away as if nothing
    had happened. My father despised me.
    By Mafra Carbonieri

    I

    Meu pai, já perto dos cinqüenta, ia casar-se com uma mulher de vinte e oito anos. Ele
    mesmo deu a notícia durante a sobremesa. Isso aparentemente apressou a decisão que tomei
    de deixar a família logo no dia imediato. Não apenas a casa e a fazenda onde nasci e me
    criei. Mas a família, abandoná-la duma só vez, como quem despe através da cabeça uma
    batina incômoda. Desculpe, Irene. Eu tinha dezoito anos. O outro caminho seria permitir
    que me sufocassem.

    Empurrei a xícara. Marina olhava-me com severidade. Meu pai mexia o café.

    —Que você acha?—perguntou-me num esgar.

    Há muito eu esperava a ocasião oportuna de desaparecer pela porta da frente; e na
    passagem, batê-la com raiva.

    —Nada.

    Vendo os punhos da rede, no alpendre, pendendo dum dos ganchos do pilar, eu evitava
    fitá-lo.

    —Nada?

    —Claro.

    O meu cunhado Jorge se inquietou. Ao lado dele Marina pôs açúcar na xícara já
    borrada dum resto de café. Irene, a minha irmã solteira que abortara a tempo de impedir
    o escândalo, segurou a alça do bule, disfarçando o tremor.

    Meu pai insistiu:

    —Vocês também não acham nada?

    Marina disse:

    —Uma coisa justa.

    E voltando-se a Jorge:

    —O papai ainda é moço.

    Jorge sempre concordava com a mulher. Irene ergueu-se e saiu com a travessa do
    arroz-doce para a cozinha, deixando o bule.

    Fazia frio na sala. Eu ocupava a ponta da mesa e meu pai a outra, face a face comigo e
    de costas para a porta da varanda. À direita Jorge e Marina. O lugar da esquerda era de
    Irene, que depois de me espreitar pela cortina de crochê, veio em silêncio e sentou-se,
    curvando a cabeça. A mecha de cabelos, caindo,ocultou-lhe ainda mais o rosto descorado.
    Tomou o café.

    Gordo e calmo, sempre de sobreaviso, Jorge moveu a colherinha com cautela e fez
    dissolver-se o açúcar.

    Os móveis de nogueira, baços. Perto do armário o arreame de estimação, recendendo
    a couro e a suor de cavalo. Na parede o retrato de meu avô.

    Irene disse:

    —Eu conheço a Lúcia.

    Jorge perguntou se não era a filha mais velha do Ferreira.

    —Sobrinha—respondeu Marina.—Pois pensei que fosse filha.

    Irene acomodava as xícaras na bandeja.

    São tão parecidas… Ninguém toma outro café?

    Brusco, eu tirei do bolso o maço de cigarros e joguei-o ostensivamente em cima da
    mesa. Puxei um cigarro. Agora mordia-o na cortiça. Com as mãos em concha risquei o
    fósforo. Ao quebrar o palito nos dedos a fumaça se soltava numa breve onda cinza. Todos
    emudeceram. Não se fumava na presença do pai.

    Irene empilhou as xícaras para que o bule coubesse na bandeja. De repente, estalando o
    soalho, pressentimos que uma paz doentia pareceu ter entrado pela janela, vinda da
    invernada e dos campos verdes. Eu fixava o gancho do pilar, pela porta, além da fumaça
    que se esfiapava com lentidão. Percebia, melhor do que via, movendo-se como cobra, o
    sarcasmo no rosto comprido e ovalado de meu pai. Adivinhava-lhe o nariz adunco a arfar.

    Minhas irmãs e meu cunhado não se atreviam a dizer nada. Obstinado, eu consumia o
    cigarro, experimentando uma embriaguez lúcida. O tempo passava depressa. Os lábios de
    meu pai, descaídos, eram finos e tinham uma cor de sangue pisado. Como ele aparasse a
    barba uma vez por semana, à tesoura, os olhos avultavam no fundo do que se assemelhava a
    um chumaço de algodão sujo. A testa, apoiada no olhar escuro, raramente se franzia sob
    os cabelos crespos e grisalhos.

    Meu pai falou devagar:

    —Não sabia que você fumava.

    —Não se pode saber tudo. Mesmo o senhor.

    Não tenho certeza se ele riu.

    —Noto que ainda mereço um pouco do seu respeito.

    —Um pouco não há quem não mereça.

    —Escute. O peixe morre pela boca.

    —Só o peixe.

    A voz monótona do velho:

    —Quem tem vício sustenta.

    —Dominei-me para não gritar. Mas devo ter gritado.

    —Certo! Certo!

    A brasa, vestida duma tênue camada de cinza, atingira a cortiça. Cuspi fora o lepo,
    já apagado, que bateu na cristaleira e rolou pelo piso até a baldrama. Agarrando-me ao
    rebordo da mesa, a espinha em arco, eu amarrotava a toalha e olhava meu pai na cara. O
    velho me xingou:

    —Bosta.

    —Sirva-se.

    Horrorizada, Marina levou a mão à garganta. Irene sumiu com a bandeja, passando pela
    cortina da cozinha. Jorge, perplexo. Hesitando apenas por um rápido momento, o velho
    ergueu-se.

    —O quê?

    Afagou a barba. Analisava-me num olhar parado. Quando me coloquei em pé, senti que ele
    se surpreendeu. Tínhamos a mesma altura.

    —Pelo que vejo, moleque, você está disposto a alguma coisa.

    —Sempre estive. O senhor não reparou antes.

    —Não perdi nada.

    —Nem ganhou.

    A rigor, um diálogo sem sentido. O velho fez uma pausa. Talvez no íntimo ele
    ponderasse. o silêncio se prolongava.

    —Hum.

    Demorando-se, entretanto sem qualquer indecisão ao mover-se, meu pai se acercou do
    arreame. Carregou-o no ombro até o alpendre e de lá chamou um peão. Veio o Joãozinho
    Pinheiro, que pegando a tralha, afastou-se rumo ao paiol. Pondo na cabeça o chapéu de
    feltro mole, o velho murmurou algo que não entendi, falando consigo mesmo. Depois foi
    embora como se nada tivesse acontecido. Meu pai me desprezava.

    Ainda a tremer, muito pálida, Irene sussurrava atrás da cortina:

    —Louco.

    Jorge saiu de sobrecenho fechado. A negrada da cozinha queria saber o que sucedera.
    Ouvi Marina lidar com a Margarida, já meio caduca, exigindo que ela se calasse. Outra vez
    sentei-me. Tito, o nosso perdigueiro castanho, descansava a cabeça em meu joelho. Alguém
    tirou a toalha. Debrucei-me na mesa nua. Era junho. Terminava-se mais um almoço em
    família.

    II

    Irene disse, rindo:

    —Você me dá um cigarro?

    Coitada. Provava-me assim estar a meu lado. Irene fumava e bebia às escondidas.
    Dei-lhe o maço.

    —Tome.

    —Tudo não.

    —Vá.

    Ela escondeu-o no avental. Subi para o quarto.

    —Louco.

    III

    Tito me acompanhara pela escada. No corredor passou-me à frente e esgueirou-se pela
    porta mal encostada. Quando cheguei, ele deitava-se sobre o tapete de couro, agitando a
    cauda, as patas espichadas no soalho. Pela janela entrava o ar frio, que percorrendo a
    paisagem e contaminado por ela, impunha no cômodo uma presença áspera.

    Meu quarto, de teto baixo e com vigas falsas, era estreito e comprido. Ao lado da
    escrivaninha o piano. Protegia-o da poeira a capa de gobelino bordô. Tito olhava-me,
    emitindo um ganido. Fiz estalar os dedos.

    —Tito. Tito.

    Acariciava-lhe a cabeça. Ajoelhado no tapete de couro, eu me refletia dentro de seu
    olhar também castanho, mas dourado e límpido.

    Meu pai me desprezou sempre. Tito lambia-me o dorso da mão. Desde menino eu tocava
    piano, embora o velho achasse que isso não fosse ocupação de homem.

    Comecei com Irene, que afinal não foi além do Beyer e do Schmoll. Marina terminara o
    Conservatório com as freiras do São José, casou-se, nunca mais abriu o piano. Tive um
    professor em Santana Velha.

    Através da janela, o dia nublado. Meu pai me conheceu com quase seis meses. Na
    ocasião, sendo a temporada da pesca no Mato Grosso, ele estendeu longamente a viagem,
    interessando-se por uma fazenda em Goiás. Enrijeceu-me o corpo a rebenque. Punha no riso
    um escárnio, ao me ver enrolar no cabo do machado um trapo de estopa. Contudo, na lida,
    eu era tão bom ou melhor do que Joãozinho Pinheiro.

    Às vezes me pergunto, com indiferença, se a causa de tanta inimizade não seria
    justamente essa. Eu falava pouco, porém pensava em voz alta sem escolher a hora.
    Detestava que ele matasse os nossos velhos cavalos a tiro de Winchester. Daí
    partia para a miséria que sufocava os peões, de cujo salário se deduzia até o leite em
    nossa fazenda de gado, gado, gado. Valia o meu feijão e apanhava sem uma lágrima na
    cara, de igual para igual, fazendo doer nele cada lambada seca que me atingia.

    Em agosto, além dos aceiros, a terra crepitava sob o céu violáceo e denso. De seu
    hálito se lançavam rolos de fumo para o alto, desmanchados na contorção amarela e
    negra da queimada. Soprava entre os arbustos a aragem quente, que acendia nos galhos já
    despidos uns frutos de brasa, vivos; depois arrancava-os, apagava-os, acendia outros e
    fazia-os voar num jorro de fagulhas. O ar faiscava.

    Após o que, como dedos dum gigante meio enterrado que os crispasse antes da morte,
    restavam os cambarás no campo, descarnados, apontando para o céu cinzento. Íamos cada
    qual com o seu machado.

    Joãozinho Pinheiro não enxugava o suor.

    —Cambará. Chegou o seu dia.

    Eu mergulhava as mãos numa vasilha de água morna. Impressionado, descobrira que podia
    compor. O piano ficava de canto na sala de visita, à direita da janela que se abria para
    o alpendre.

    Saindo do colégio na praça Martinho, em algazarra, depois de apostar uma corrida pela
    escadaria dos fundos e atingir o pátio, onde as botinas de elástico iam batendo
    ruidosamente com suas chapas de ferro no salto e na ponta da sola, eu tomava o ônibus
    para a Vila dos Lavradores. Atento ao barulho do trajeto, eu imaginava uma cor em cada som
    desgarrado. Atravessava de ônibus quase toda a cidade, passando pelo pontilhão da
    Estrada de Ferro e indo até o terminal, fora do calçamento.

    Então andava. Primeiro a granja dos japoneses. Agora o bosque de eucaliptos. Um cheiro
    acre. O vento zunia e despertava na sombra da folhagem um silêncio que eu entendia com o
    corpo. Os bois desciam a encosta azulada. Ao longe o alagadiço e as touceiras do bambual.
    Aqui o nosso portão de cedro.

    —Tito. Tito.

    Livrava-me do uniforme de brim cáqui e vinha pela escada, de chinelo, com calção e
    blusa. Sentava-me ao piano. O dono da Casa Carlos, na rua Riachuelo, me vendia os maços
    de papel com pentagrama, que eu ia preenchendo numa grafia nervosa. Combinava acordes, e
    como se eu sofresse numa perturbada evocação, notava que a melodia nada mais era do que
    um caminho que não levava a parte alguma, igualmente percurso e chegada, sem começo e
    sem fim mas com breves soluções que se espraiavam ao acaso em qualquer direção a que
    eu me voltasse, comovido e grato. Uma viagem, que apesar de surpreendente, já nascia
    decifrada, objeto de si própria, e onde eu edificava o meu enigma.

    Como o pai se irritasse, pusemos o piano em meu quarto. Fechava-me por dentro, só
    abrindo a porta quando o Tito arranhava o batente pelo lado de fora. As costas me doíam.
    Também os pulsos e os dedos. Uma dor compensadora que me descansava. Na janela, torcendo
    a maçaneta da cremona, eu trancava apenas uma das folhas da veneziana, obscurecendo um
    pouco o quarto.

    IV

    Apareceu Irene.

    —Sarou?

    —Hum.

    —Então toque.

    —Não.

    —Sim. Toque.

    V

    Impossível opor-me a minha irmã. Não por ser minha irmã. Simplesmente por ser
    Irene. Tito e Irene fariam de mim o que quisessem, porque os outros faziam deles o que bem
    queriam, ainda acrescentando com relação a Irene uma censura. Sempre me angustiava saber
    que os dois queriam tão pouco ou mesmo nada: um afago na cabeça, uma aprovação, uma
    palavra sem dureza.

    Ajoelhando-se no soalho Irene fincara os cotovelos no acolchoado sobre a cama. Não se
    afastaria enquanto eu não fosse ao piano. Tito deitou-se de lado e logo ressonava. Girei
    o assento da banqueta, regulando a altura. Não me custava dedilhar qualquer coisa no
    teclado.

    Perguntei:

    —Qual?

    —Aquela.

    Irene semicerrou os olhos, e vergando o corpo até a cama ranger, amparou o queixo com
    os dedos cruzados. Pensei:—"Aquela…" Na verdade Irene não distinguia a
    diferença entre Mozart e Granados. Calidamente expus o Bolero de minha Suíte
    Garcia Lorca
    . Ao terminar, sustentando no pedal o último acorde em mi menor, ouvi
    Irene indagar:

    —É sua?

    —Sim.

    —Muito bonita.

    —Hum.

    Enquanto balbuciava que a música era bonita, ergueu-se e se colocou atrás de mim,
    pondo a mão em minha nuca.

    —Quantas você já escreveu?

    Dei de ombros e segui tocando. Como Irene insistisse, respondi, com a voz abafada:

    —Não sei, Irene. Não sei.

    Entristecia-me. O Bolero já existia desde o tempo em que o piano ficava na sala
    de visita.

    —Não. Não pare—disse Irene.—Agora outra.

    —Sério?

    —Sim.

    Não perguntei qual. Ela indicaria sempre aquela, com um ar astuto, de conivência,
    fingindo um segredo de cuja lembrança eu partilhasse. Agora eu tocava, também minha, a Melodia
    de Don Cesare,
    a mão esquerda sublinhando em arpeaw6kx o canto que a direita desdobrava
    suavemente com a estranha beleza dum quadro em sépia, muito antigo e amargo, porém
    nítido. A agonia de Don Cesare, personagem de Roger Vailland em La Loi,
    permaneceu comigo apos a leitura do romance. O grande velho morria no silêncio que
    divagava entre os seus móveis senhoriais. Desses homens que brotam do chão como um
    carvalho, Don Cesare oferecera a sua sombra enquanto vivia, e vindo do fundo da
    terra com a lei anterior e superior aos juízes, investira contra o scirocco e medira-se
    com ele, verdadeiro como a sua própria raiz e fiel a sua semente.

    Don Cesare morria. Pois a verdade morre. Ela deixaria de ser verdade caso
    resistisse ao tempo e se eternizasse, embalsamada durante a vida e assim se tornado falsa:
    estandarte ou múmia.

    Irene, cantarolando com a voz hesitante, ia acompanhando a melodia. Eu
    pensava:—"Aquela …" Não me causava nenhuma surpresa que essa música,
    com a sua chamada para a nostalgia, se insinuasse em Irene e logo se instalasse como numa
    cidadela derrubada.

    —Outra vez—pediu Irene apertando-me o ombro.

    —A mesma?

    —Sim. Outra vez.

    Olhando acima do teclado, no tampo de madeira, eu reconhecia o vulto de Irene e
    imaginava na sombra o seu olhar sem firmeza, aflito, amolecendo a face encovada. Irene
    tremia ao debruçar-se sobre o corpo de minha mãe, na urna, com as mãos agitadas no
    rosto da morta e os cabelos em desordem, uma aparição, atrás o panejamento com borlas
    de prata.

    Três meses antes de minha mãe morrer, numa noite, o doutor Rubens matara no ventre de
    Irene um feto espúrio. O médico, tirando o paletó na sala, pôs uma bata branca e subiu
    a escada, com a maleta. Magro e enrugado, tinha o cabelo à escovinha. Ao descer, trazia a
    bata no braço. Limpando as lentes dos óculos no lenço, sentou-se. Depois passeou pelo
    cômodo os olhos esquivos.

    Conquanto vivesse disso, o doutor Rubens simulou nada pretender de meu pai, em
    pagamento, dizendo-se lisonjeado por servir a uma família de tanta importância.
    Acrescentou:

    —Sinceramente.

    Assumindo um ar contrafeito, muito persuasivo, com indiferença pelo ridículo de tudo
    aquilo, o médico estendeu a encenação até o limite. Acabou por sucumbir a tempo,
    suspirando, enquanto guardava o cheque na carteira.

    Deixou o paletó desabotoado e despediu-se na porta, gravemente.

    —Boa noite.

    Já cancerosa, e em breve com a pele sobre os ossos, gritando de se ouvir em qualquer
    lugar dos campos verdes, minha mãe morreu após o sofrimento. Sua única preocupação
    com Irene era evitar que o fato se propalasse. Conseguindo isso, deixou-se morrer. Tinha a
    sábia convicção de que o nosso dinheiro substituiria com vantagem a membrana rompida.

    O caixão saiu para a tarde de sol. Irene, apoiada em meu ombro, murmurou:

    —Outra vez. Outra vez.

    —Não, Irene. Chega.

    VI

    Marina veio.

    —Com licença. Será que o herói não se aborrece com mais uma visita?

    —Merda—respondi.

    Marina não se abalava.

    —Sujo.

    Sentou-se na cama e fingiu entreter-se com as unhas. Como eu me voltasse na banqueta,
    girando-a, fiquei de frente para Irene que se acomodara na cadeira da escrivaninha.
    Avisei:

    —Vou embora amanhã cedo.

    —Como?—estranhou Irene.

    Marina riu.

    —Outra bobagem.

    —Não se meta—ameacei.

    —Claro, meu querido. Não tenho nada com isso.

    —Pois nunca se esqueça.

    —Vá. Que coisa. Você se queima à toa.

    Irene disse:

    —Não.

    Marina fitava-me talvez com curiosidade.

    —Eu ainda não acredito.

    Com as mãos no rebordo da banqueta, sentado, eu lentamente me deslocava dum lado e de
    outro, enquanto falava:

    Eu ia segunda-feira. Até já arranjei tudo. Mas o melhor é sumir quanto antes.

    E observando Irene, acrescentei:

    —Preciso ir.

    Houve um silêncio constrangido.

    —Para sempre?

    Ingenuidade de Irene. Marina espreguiçava-se.

    —Que drama.

    Balançando as ancas, aproximou-se do piano e tocou O Bife. Chamei o Tito. Fomos
    dar um passeio. No corredor ouvi a voz de Marina:

    Ciao.

    Irene olhava-me do alto da escada. O vento deslizava em meu rosto seco.

    —Tito.

    Ia o cachorro na frente. Quando atingimos o cimo do morro, parei; e enchendo os
    pulmões, segui com os olhos a névoa que se esfarelava num tom alvacento, semelhando um
    imenso retalho de algodão que o vento rasgasse. Lá embaixo, na planície dum azul sem
    brilho, as pastagens eram de repente um horizonte frio. Tito voltou, e erguendo-se, pôs
    as patas em meu peito. Abracei-me ao perdigueiro. Ficamos sós. Meu Deus. As lágrimas,
    resina de minha condição, não fluíam, conscientemente trancadas por dentro.

    Na rua Antônio Alves, a dois quarteirões da rua Riachuelo e portanto perto de Luís
    Balarim, eu alugara os cômodos dum dentista que morrera e deixara além da viúva uma
    filha de dez anos. Uma edificação independente da casa, ao lado dum abrigo para carro e
    dum pequeno jardim à antiga, com buxos cercando um coqueiro-anão e uma roseira. Na
    frente a grade de ferro, com o portão. Duas saletas conjugadas. A da entrada, que se
    abria para o jardim, comunicava-se ao fundo com o sanitário, onde fiz instalar o chuveiro
    elétrico e um ralo maior. No quarto, à direita, as minhas novas estantes de madeira
    cobriram toda a extensão da parede, do soalho ao forro. Pela vidraça eu via a rua e a
    folhagem das tipuanas.

    Ao entrar, muito abatida e com o olhar errante, vendo que nada recordava o
    consultório, a viúva disse numa voz apagada:

    —Ficou… Ficou bom…

    Lembro-me de que, atrás da porta, a menina de dez anos me mostrava o seu perfil duro.

    VII

    Meio nervoso, terminei a interpretação. Em virtude do exagerado empenho eu
    transpirava e sentia doer os dedos, principalmente os da esquerda. Quando me encostei à
    janela, empurrando a cortina, Gino Balarim apareceu no quintal e se dirigiu ao depósito.
    Ao me ver, perguntou:

    —O Luís já veio?

    —Já. O senhor quer falar com ele?

    —Não. Deixe. Ele sempre arriva troppo tardi.

    Agora Luís estudava atentamente a minha partitura, após ter ouvido duas vezes a
    execução de toda a peça e ter-me feito repetir certos trechos isolados.

    Eu me preocupava com a demora de Luís.

    —Então?

    —Espere.

    Na época eu ainda não completara as doze partes da Suíte Garcia Lorca. A
    abertura, que Luís ia examinando em silêncio e cujo título era Passos no Campo de
    Trigo
    , antecipava com variações os temas que eu desenvolveria a seguir.
    Posteriormente eu escreveria para cada peça um poema em redondilha maior, sobre a
    liberdade, colocando como pano de fundo algumas vinhetas da paisagem que Lorca mais amava.

    Luís bateu os meus acordes no piano.

    —Um casamento entre Chopin e Stravinski.

    Virou-se muito sério na minha direção.

    —Você sabe compor as melodias.

    Mas não sabia ligá-las. Afinal a música tem uma sintaxe, que eu, intuitivo, ainda
    não divisava com clareza. Pensando suprir a falha, eu utilizava como recurso o diálogo
    entre a dissonância e a pausa súbita. Porém, a persistência com que essa fórmula ia
    sendo aplicada, empobrecia a qualidade da composição. Luís abordara o ponto exato.

    —Concorda comigo?

    —Sim—respondi.

    —Não se aborreça.

    —Claro que não—falei vivamente.—Isso não me desanima. Já tenho uma
    idéia para recomeçar.

    —Ótimo.

    Fui até a estante de Luís e tirei um Beethoven, o volume das sonatas por Alfredo
    Casella. Ao puxá-lo, caiu no piso um exemplar do Kõhler, abrindo-se. Apanhei-o. Sem
    querer observei um trecho: "Studiare dapprima con mani separate, poi con
    mani unite. Ripetere ciascun esercizio parecchie volte
    …"

    Disse em voz alta:

    Studiare.

    Luís riu.

    E poi da capo.

    Devolvi o Kõhler à prateleira e pus o Beethoven no piano.

    Sou muito grato a Luís. Logo na primeira vez em que me ouviu tocar, alertou-me para a
    vantagem do Beringer sobre o Hanon e mesmo o Pischna. Com isso, em dois meses de
    disciplina e castigo, livrei-me de vários defeitos. Quando consegui decorar os cinqüenta
    estudos de Cramer, ganhei de Luís um Chopin revisto por Ignaz Friedman, Walzer,
    numa edição Breitkopf-Härtel. Infelizmente, sem dedicatória.

    Irônico, Luís referia-se a meu professor:

    —Ele ainda não suporta a deselegância de Gulda?

    —Ainda.

    Era o Nicola. Um típico mestre de província, rotineiro e vaidoso. Cortando o cabelo
    no estilo dos cadetes alemães, espalmava a mão no peito quando presumia no ar os sons de
    Wagner. Dizia-se livre-pensador. Para prová-lo, tocava órgão na catedral e num templo
    presbiteriano.

    Após alguns anos, apesar de eu tê-lo já dispensado sem explicação, Nicola pareceu
    não guardar mágoa e sempre me induzia a tocar com os seus alunos nas audições do
    Tênis Clube, figurando o meu nome no programa como compositor. Não sei se ele se servia
    de minha música ou do nome de minha família. Em todo caso, Luís me aplaudia.

    A experiência desse tempo foi decisiva. Tudo o que fiz depois, compondo ou escrevendo,
    decorreu do entusiasmo daí originado, que nunca mais renasceu mas a cujo reflexo eu me
    agarro.

    Ontem à noite, em meu quarto, acabei a Suíte. Exausto, vi o frio na vidraça.
    Com o capote abotoado até o pescoço, suspendi a gola ao descer do ônibus, levando os
    originais numa pasta de couro.

    Pouca gente no centro. Lembrava-me de ter observado pela janela do ônibus o relógio
    da igreja de Lourdes, conquanto não notasse a hora. Na esquina da Riachuelo com a
    Marechal Deodoro, andando depressa, virei à esquerda e atravessei a rua. Não reparei em
    nenhum conhecido. Às vezes, num sopro gelado, o vento despertava por cima do casario um
    ruído de inverno.

    Crescia pelo muro uma trepadeira que quase ocultava a passagem dos fundos por onde
    entravam os alunos de Luís, com cadernos e métodos sob o braço.

    Abaixei a maçaneta, empurrando o pequeno portão. Ao fechá-lo, ouvi uma frase ao
    piano.

    Seria o cansaço? Subitamente percebi que não podia andar. Vinda da vidraça, a luz
    batia no pessegueiro e espalhava na terra folhas de sombra. Algo me impressionava muito, e
    agindo sobre a fadiga, aumentara a acuidade de meus sentidos até o limite da vertigem.
    Não sabia o que era, mas alguma coisa me tolhia ali, e embora me preservasse a
    consciência, impedia que eu me reconhecesse diante daqueles objetos tão familiares.

    À direita a escada de seis degraus levava ao cômodo de Luís. Na porta do depósito o
    ferrolho. As garrafas empilhadas sob o telheiro.

    Estreitei contra o peito a pasta de couro. Como um pintor, que ao pintar espedaçasse a
    tela e a recompusesse em cores, Luís dizia um som que a noite ampliava sem medida.
    Durante um momento, indiferentemente mínimo ou extenso, em que não importava se tal
    magia era ou não uma sonata de Beethoven, nem mesmo interessando que aquilo fosse ou não
    um piano, eu, fascinado, tinha o privilégio de ouvir Luís, só Luís. Talvez nem ele
    tivesse ainda a noção de que havia chegado a sua hora de ser. Ele era Luís e eu via
    isso, acompanhando dentro da noite o sinal de sua passagem.

    Quando tornei a mim, não por ter perdido a lucidez e sim por ter penetrado numa outra
    dimensão dela, notei que me aproximara da escada e me sentara no último degrau, abaixo
    da vidraça. Dali, num ângulo escuro, eu não poderia ser visto por ninguém. Demorei-me.
    Luís continuava ao piano. Caindo da janela um

    pouco de luz sobre a pasta, a meus pés, compreendi que não seria honesto
    interrompê-lo. Outra vez abracei-me à pasta, sentindo no queixo o contato do couro frio.
    Boa noite, Luís.

    VIII

    Saí devagar. Na verdade eu ainda não amadurecera para o que pretendia. Por isso tomei
    um conhaque no Cristal e comprei um maço de cigarros. Fumando, fiz o longo trajeto de
    volta. Pensei em rasgar os originais. Todavia um comboio, passando pelo pontilhão,
    arrastou o pensamento na viagem até o ruído morrer. Na ladeira, boiando no ar as luzes
    pálidas da vila, a minha sombra se deformava a cada poste.

    Dormi pesadamente. No dia seguinte acordei muito tarde. Ao abrir a janela, acudiu-me
    uma idéia para refazer toda a Suíte. Sob o jato da água eu me esfregava com
    violência, molhando todo o banheiro. Indeciso, ainda de roupão, explorei no piano os
    efeitos duma frase tocada em sextas. Vestindo-me, deixei a verificação para depois do
    almoço. Desci a escada e pus a jaqueta no respaldo da cadeira. À sobremesa meu pai
    anunciou o seu segundo casamento.

    —Obrigado—disse Jorge a Irene, que lhe servia o arroz-doce.

    Jorge afastou com o garfo um pedaço de casca de limão. Eu iria embora. Viveria de
    aulas particulares. No início do ano faria o vestibular e não me seria difícil
    conseguir uma vaga no Liceu Azevedo Franco.

    O velho:

    —Vocês também não acham nada?

    IX

    Gritei:

    —Joãozinho!

    A cavalo, o peão virou o corpo.

    —Abra as duas porteiras.

    Enquanto o Tito latia, a camioneta parou perto do alpendre. Os carregadores saltaram.

    —Não morde?

    Na hora de remover o piano, Marina se interpôs:

    —Que é isso? Quem lhe deu ordem para tirar o piano?

    Curvado sobre a maleta de fibra onde eu acomodara os discos, estremeci. Lentamente
    ergui os olhos.

    —Cuidado, Marina. Não me aborreça.

    —O piano é meu.

    —Você sabe que não.

    —O papai comprou para mim.

    Como os carregadores viessem pela escada, fui até a porta e mandei-os esperar na sala.
    Certificando-me de que desciam os degraus, voltei-me para Marina.

    —O que você quer?

    —Adivinhe.

    —Aqui em casa só eu toco.

    —Pretensioso.

    —Não digo que o piano não seja seu. Mas também é meu e da Irene.

    —Seja. A minha parte ninguém leva.

    Comecei a me enervar.

    —Marina …

    —Você pode passar por cima da Irene, que é uma tonta. Por cima de mim, nunca.

    Merda. Não quero passar por cima de ninguém.

    —Verdade?

    Não me lembro de tudo. Houve uma aceleração em mim e nos objetos do quarto. O soalho
    oscilava sob os meus passos. Fiquei quase cego. Marina, agitando o rosto e os braços,
    andava a meu redor.

    Os nossos gritos:

    —Cadela.

    —Não sou a Irene.

    —De que lhe serve o piano?

    —Não interessa.

    —Filha duma puta.

    Ciao. Ciao. Ciao.

    Por terem os meus dedos crescido no teclado daquele piano e não de outro, inquietos,
    desgastando o marfim com o percurso de meu suor e minha angústia, empurrei Marina contra
    a vidraça, com muita força, o vidro negro dos olhos se espatifou e vi o ódio cintilar
    por trás dos fios louros de seu cabelo, iluminados, quando as mechas lhe cobriram a face
    e o corpo caía no soalho, ali os cacos multiplicados.

    Eu poderia tê-la pisoteado no rosto, minha irmã, arrancando de seu medo o nosso
    sangue. Porém pelo vidro partido da janela veio o ar dos campos verdes. Não sei bem o
    que aconteceu. Coloquei no ombro a maleta.

    Sabia que após o susto Marina me odiaria com obsessão, um ódio magnífico, desses
    que só se cultivam em segredo no fundo do sentimento de família.

    Irene perguntou:

    —E o piano?

    Bebi um chope com os carregadores. Era uma camioneta com a lataria fosca. Depois Irene
    me ajudou a arrumar os livros nas prateleiras.

    Não conheço minha madrasta. Meu pai ofereceu o Tito de presente a um fazendeiro do
    Rio Grande do Sul. Abandonei a Suíte. A garoa de fevereiro escorreu na ramagem das
    tipuanas.

    X

    O servente do Liceu tocou-me ao ombro.

    —Telefone para o senhor,

    Atravessando o galpão fui ao corredor e daí à porta.

    —Alô?

    Ouvi a voz de Jorge, abafada pelo alarido do pátio. Irene, internada no Charcot,
    morrera. O corpo chegaria de São Paulo pelo último trem.

    Respeitoso, o chefe da estação me comunicou um atraso de meia hora. Muita gente na
    gare. Vi de relance o meu pai. Dei-lhe as costas. Mas inconscientemente acendi um cigarro.

    This short story originally called "A Família" was published
    in Os Melhores Contos Brasileiros de 1973, Editora Globo, 1974, 226 pp

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