The Indian

    The Indian

    Sitting on the Turkish bed the traveler unbuttoned his shirt,
    loosened the belt, looked on the broken mirror in front of him,
    a face of tired traits, darkened, three days without shaving.
    By Iosif Landau

    O homem se jogou pra dentro do carro.

    — Pra onde? perguntou o motorista.

    Hesitação, resposta:

    — Vá em frente, te digo quando parar… essa cidade é uma merda, tá tudo de
    cabeça pra baixo, esse prefeito é um louco, o trânsito um caos, buracos e mais buracos
    mas assim mesmo prefiro sair, ficar sozinho entre quatro paredes, um castigo…esse cara
    é louco mesmo, qualquer dia vão me ver na televisão, preso, julgado por ter mandado
    aquele palácio pros ares…o sacana ainda tirou a coitada da mulherada de lá. além de
    louco deve ser viado… imagina só, soube que vai mandar acabar com os pombos, castrar
    com remédio, envenenar, é maluco…gosto de animal, mas pássaros são minha paixão,
    são lisos, nada pendurado entre as pernas, colhões à vista, os buracos não aparecem,
    os cachorros, os leões, as girafas enfiam em qualquer buraco, os pássaros não, os
    pombos em especial…já viu pombo namorar? que delicadeza! é também inteligente,
    conhece algum bicho que é capaz de se afastar três mil quilômetros e voltar pra mesma
    janela? pois é, o pombo faz…não tem doença como dizem por aí, não tem mesmo, foi
    comprovado num laboratório na Bélgica, é limpo, a merda dele não fede, a do cachorro,
    a do gato, uma fedentina…o louco quer acabar os pombos, como fazem na Alemanha…sabia
    que lá não tem pombos? sabe por quê? são uns selvagens, é por isso. Merda de
    prefeito! ainda vai me ver na televisão…

    — É viúvo?

    — Não! Casado! A mulher me abandonou, fugiu com um cara. É maluca,
    esquizofrênica, sei porque li tudo a respeito, depois que ela começou a agir esquisito.
    Me disse um dia que gostava mais de mexer com o dedo nela que de meter comigo, ela ficava
    com o olhar perdido no espaço e falava: ponho minha mão esquerda no seio direito e
    acaricio, a mão direita na boca pra molhar os dedos, começo a mexer naquilo, penso em
    sacanagem, a respiração fica mais pesada, o coração bate forte, sinto chegar, o
    corpo fica tenso, o rosto calorento, a garganta fecha, os espasmos, primeiro rápidos,
    depois mais espaçados, depois relaxo…contigo nunca sinto isso… pode, dá pra
    acreditar? esquizofrênica, doida de pedra, mas eu gostava dela… droga, fiquei com
    tesão…

    — Ainda pensa em mulher?

    — Amigo, tesão nunca desaparece… não sou tão velho, nem fiz sessenta..
    encosta, encosta ali, perto daquela puta… Ei! Você! Vem cá! Quanto quer? 30? até que
    não é caro, deixa eu ver os peitos! hmm, nada mal… por que não me olha, deixa eu ver
    teus olhos, tu não é homem por acaso? Por que tá fugindo? Merda, é homem. Porra!

    — Vamos seguir, deixa o coitado.

    —Tem razão, coitado mesmo. Não chega à minha idade, com aquela doença maldita.
    Tenho um cara que mora no meu prédio. Boa pinta. Era. Agora, um trapo. Nem a mãe dele
    quer saber. Fodidão. Diz que é feliz, que vê a morte todos os dias, que é linda,
    luminosa, não dá pra acreditar. É defesa. Não entendo como um cara consegue gostar de
    levar na tarraqueta.

    — Que é isso?

    — Rabo, olhota, fiofó, olho de moscô, coisa do meu tempo. Eu já levei
    dedo… não é que tu tá pensando… foi o médico, exame da prostra… dói
    paca. Perguntei: doutor, como é que os viados güentam? ele me respondeu que era
    sublimação, não entendi muito bem… depois continuou: só dói a primeira vez,
    depois…. o sacana também era bicha, só podia ser, como sabia? arrumei outro
    médico… tem muita bicha enrrustida por aí. Tu sabia que tem nego que pede pra
    mulher enfiar o dedo na hora? as mais escoladas enfiam vela. Uma puta me contou depois de
    me perguntar se eu queria…Filha da mãe! Quer ouvir uma coisa engraçada?

    — O que?

    – Pois é, escuta só: ela, a puta minha amiga, usava dedal, daquele que mulher usa na
    costura, não queria cortar a unha, aí ela se descuidou e o troço ficou dentro do rabo
    do cara. Teve que usar uma pinça, dessas que elas usam pra catar o cabelo da sobrancelha.
    Deu o maior trabalho… pensando bem, não é nada engraçado… é trágico, é uma
    porra!

    Silêncio.

    Depois:

    — Os bichos não tem.

    — O quê?

    — AIDS. Dizem que os macacos… mentira. A putada também espalhou por aí que os
    cachorros transmitiram pro homem a gonorréia. É possível. Mulher sempre foi coisa
    safada. Li uma vez um conto de um polaco maluco… o cara se suicidou… em que as
    mulheres metiam com jumento, lá na terra dele… os pombos com certeza não tem AIDS, se
    não, não precisaria de veneno pra matar, como aquele louco quer…. o outro dia ela me
    chamou, pediu pra passar no Salgado Filho. Fui.

    — Quem? A puta?

    — Não. Minha mulher.

    — Tava doente?

    — Não. Era o outro. Ela tinha cortado a pica do cara.

    — O quê?

    — Isso mesmo, cortou a pica do cara. Ele me enganou, falou, pensei que
    tinha pica grande, homens bem providos a gente conhece de longe, aparentam segurança,
    não tem que pensar no que as mulheres acham quando ficam nus, os de pica pequena são
    inseguros, não sabem se agradarão, esse me enganou… louca esquizofrênica…
    morreu.

    — Quem? Ela?

    — Não, o cara. Tô vingado. Ele morto, ela no xilindró, melhor do que eu ter
    dado um tiro em cada um. Agora só quero saber dos pombos. O filho da puta quer matar
    eles, fazem amor com tanta delicadeza, a gente nem sabe se eles tem pica. Qualquer dia
    apareço na televisão… pára aqui que vou saltar.

    Whiskey and Soda
    I will miss her, he was repeating in silence to himself
    while tying his tie. On the mirror he watched the woman
    lying there and still naked…what was he doing there,
    with a woman 30 years younger than he and naked?

    Chovia, não em torrente, mas chuva fina, enjoada, melancólica, não refresca o ar,
    nem a alma, pensou o homem enquanto acendia um cigarro, o motorista pigarreou, jogou o
    cigarro aceso pela janela, não quero briga hoje, fechou a janela, o vento sul
    enviava chuva para dentro do carro, o ar ficou pesado, começou a suar, afrouxou a
    gravata, o rosto enrugado, a pele empapuçada debaixo dos olhos, os pêlos brancos da
    barba por fazer o faziam parecer mais velho de que era, saíra do hotel de terceira
    apressado, a deixara lá, será que ainda está deitada, já se vestiu? Não fora
    encontro agradável, olhou pela janela, as luzes da cidade se refletiam no asfalto
    molhado, os letreiros luminosos agrediam a vista, não devia ter obedecido, que
    besteira, chegara aqui depois de cansativa viagem, se registrara no Hotel Presidente
    como sempre, nem subira ao quarto, da portaria telefonara para a mulher…o que foi?…me
    encontra no 007 daqui uma hora…desligou, ele não era homem que se preocupava, nem
    perdia tempo em decifrar os rompantes das mulheres, nem se perturbava com as coisas por
    vir, não ligava para o futuro, o presente para ele não existia, cada fração de segundo
    já um passado, e passado ele tinha demais, 60 anos de passado…o motorista do táxi de
    vez em quando o olhava, ele fingia não reparar, concentrou-se no ruído dos pneus sobre o
    asfalto molhado, diabo de mulher, pra que se meteu a contar pro marido? Suas
    aventuras amorosas nunca eram tranqüilas, ele entrava fundo demais, aceitava a paixão
    delas, te amo, você me ama? centenas de vezes, repetição monótona, anos seguidos
    sempre a mesma pergunta em bocas diferentes, sua resposta um sorriso, um grunhido, elas
    aceitavam aquilo como "sim, te amo", odiava cenas de ciúme, odiava todos os
    penduricalhos do amor, exceção feita ao sexo, maravilhoso deitar com mulher
    apaixonada, difícil era se livrar, um frouxo, não resistia ao choro delas, eram elas
    que…— doutor, chegamos — falou o taxista, o carro reduziu a marcha e parou em
    frente ao luminoso, Bar Centauro, o homem saltou do carro com certa dificuldade. Uma vez
    de pé vacilou um pouco, era alto, ainda mantinha porte atlético apesar de ligeira
    curvatura dos ombros, usava com elegância terno bem talhado que já vira dias melhores,
    debruçou-se em direção à janela do motorista, — fique com o troco — Deus lhe
    pague! —, sorriu, amava ouvir essas três palavras, embora não acreditasse nelas. O
    táxi partiu, um grande silêncio caiu sobre a rua deserta. Ele acendeu um cigarro, tragou
    com prazer e entrou.

    O ar frio o fez estremecer, a vista demorou a se acostumar, um conhecido lhe indicara o
    bar, "é legal, tem mulher servindo", ele não estava atrás de mulher,
    não por enquanto, queria relaxar, um copo cheio na mão, esticar bem as pernas, tentar
    esquecer, olhou ao seu redor, não havia muitas mesas ocupadas, escolheu uma, ia se
    dirigir para lá, a garçonete se aproximou, — aquela com o banco forrado,
    pode ser?— a moça sorriu, a seguiu, era esbelta, bem proporcionada, a minisaia lhe
    assentava bem, esperou ele sentar-se, entregou o cardápio, — não vou jantar, me
    traga um uísque com soda, sem gelo…um momento! — colocou na mão dela uma nota,
    — não pre…— o gesto dele interrompeu a mulher, — Deus, lhe pague!—
    ele sorriu, a garçonete se afastou, bela mulher, encostou-se no respaldo forrado,
    esticou as pernas, acendeu outro cigarro, à sua frente quatro homens falando alto,
    gesticulando, ouviu palavrões e risadas, pensou mudar de lugar, desistiu, — belo
    traseiro! — gritou um deles, a garçonete sorriu, não se desviou da mão que a
    apalpou, continuou sorrindo, sorrindo voltou e serviu a bebida dele.

    — Obrigado — falou o homem — não precisa sorrir pra mim.

    O rosto dela se fechou.

    — Espera! — falou ele de novo — não quis te aborrecer…o dono daqui te
    obriga a isso? e precisa aceitar as grosserias deles?

    O olhou espantada:

    — Não obriga, mas…

    — Se não perde o emprego, é isso?

    — Nunca dizem de verdade, mas…e preciso da gorjeta.

    — Pra mim você não precisa se humilhar.

    Sorriu encabulada.

    — Ei, belezinha! Mais uma rodada! — gritou um dos beberrões.

    Ela ia se afastar, ele a segurou e colocou uma nota na mão dela.

    — Mas…

    — Diga Deus lhe pague! Só isso!

    A mulher o olhou, ele olhou de volta, por instantes reinou silêncio no recinto, é
    quase bela, talvez…

    — Não quer…

    A palma da mão dele erguida a fez parar.

    — Deus lhe pague!

    Ele colocou a mão no copo.

    — Ei! Vem cá, menina!

    A garçonete virou-se e caminhou até a mesa dos quatro, ele fixou o olhar neles.

    — Ei, coroa! Tá com tesão?— gritou um dos quatro.

    Ele continuou na mesma posição.

    — Deixa ele. Tem que respeitar a velha guarda, manja só, paletó e gravata. Um
    charme! — falou outro.

    Ele apanhou um cigarro, o bateu na mesa…

    — Tá vendo, ninguém mais faz isso com o cigarro.

    …colocou o cigarro na boca…

    — Não quer comer esse rabo?

    …a mulher sorria enquanto era apalpada, ele acendeu o cigarro…

    — Porra, já te falei, respeite o coroa, faz tempo que não vejo um cara da
    antiga.

    — É brocha, isso sim!

    …apanhou o copo e deu um gole, sorriu, tragou no cigarro, da antiga, brocha? Se
    reagisse iria se machucar, não valia o esforço, fazia tempos que não brigava mais,
    sentia-se culpado quando machucava alguém, deprimido ao ser ferido, criara uma couraça
    intransponível às provocações, bebeu do copo com pressa, goles profundos, acendeu mais
    um cigarro, que merda, por que contou a ele? repetira várias vezes, de repente:
    — quero você, me leva! A resposta dele fora silêncio, percebera sombra de
    desafio e tristeza no rosto dela, comovido a puxara para si, e a beijara com toda a
    ternura, por momentos fomos felizes como no início…o início, fazia um ano,
    tiveram poucos encontros, só quando a serviço ele vinha para cá, o desejo à distância
    um afrodisíaco insuperável, para os dois, se extenuavam na cama dos motéis…

    — Outro?

    A garçonete se aproximara sem ele perceber, o olhava com desprezo, ele permaneceu sem
    responder.

    — Sim ou não?

    O homem sorriu:

    — Desapontada? Queria briga?

    — Esquece. O que vai ser?

    Ele parecia refletir:

    — Acompanha os fregueses depois do expediente?

    Indecisa, abriu e fechou a boca duas, três vezes seguidas, com tom desafiador falou:

    — Você quer?

    Manteve-se calado.

    — São 300!

    — Razoável. Os patrões te obrigam?

    A mulher o desafiou com o olhar:

    — Não, isso é por minha conta…como acha que pago a prestação do meu carro, o
    aluguel, os vestidos? Tenho direito à vida…

    — Tá certo. Não é da minha conta. Desculpe…me traga o mesmo.

    Ela afastou-se, minutos depois voltou com a bebida e a colocou na mesa.

    — Desculpe mais uma vez.

    A mulher afastou-se sem responder.

    …sentirei saudades, era o que ele repetira sem cessar em silêncio enquanto
    laçava a gravata, pelo espelho vigiava a mulher deitada e ainda despida, quero você,
    me leva! repetira ela depois do último gemido, olhara seu rosto no espelho, o que
    fazia ali, com uma mulher trinta anos mais jovem e nua? para ir embora preciso resolver
    um problema, a pele da mulher tinha uma suave luz uniforme, "você é um velho
    safado" na voz dela desdém, o rosto no espelho sorrira, começou a zanga, a
    tática nunca falhara, acabara de fazer o nó da gravata, e caminhara em direção à
    cadeira, apanhara o paletó, "ele sabe de tudo, vai acabar com você," ameaças
    de toda espécie já ouvira antes, fazia parte, acabara de se vestir, saíra sem se
    despedir, antes de fechar a porta escutara: " filho da puta!", não respondera,
    afastara-se quase que na ponta dos pés, como um ladrão, filho da puta mesmo…

    A garçonete o serviu cinco vezes em seguida, todas as vezes recebia uma gorjeta, todas
    as vezes falou "Deus lhe pague!", Deus, não sou filho da puta, repetia
    entre cada gole, Deus, não…

    O ambiente esvaziara-se aos poucos, a mesa com os quatro beberrões por último, ele
    levantou-se, pagou na caixa, a garçonete sumira.

    Saiu.

    Andou duas quadras.

    Em frente ao hotel de terceira parou.

    No relógio de pulso olhou as horas.

    Sentiu frio, levantou a gola do paletó.

    Esperou.

    Os cinco saíram, a mulher ria e gesticulava.

    Os quatro se afastaram rindo, cambaleando.

    Aproximou-se dela.

    — Vem! falou com calma.

    Ela não parecia surpresa.

    — Eu sabia, todos vocês são iguais. Porcos! Estou cansada.

    Ele colocou três notas na mão dela.

    — Vamos!

    Sinalizou o táxi.

    Ela sentou-se na cama, olhar cansado, corpo curvado, imagem da desolação, ele tirou o
    paletó, o colocou na cadeira e a olhou, sem dizer palavra, colocou a mão no bolso,
    retirou umas notas, as colocou no colo da mulher.

    — Mas…

    — Pode se despir — falou o homem ao abrir o armário. — Toma!

    Entregou-lhe uma camiseta:

    — É pra você.

    — Mas…

    Aproximou-se, acariciou a cabeça dela:

    — Desta vez vai dormir numa boa cama…eu durmo na poltrona. Descanse!

    Ela pegou na mão dele:

    — Me ajude a tirar a roupa. Quero que durma comigo.

    — Como é seu nome?…não, não diga…

    A mulher deixou cair a mão dele.

    — Ellen, não sou filho…

    Ela deitou-se, abraçou o travesseiro.

    — Estou tão cansada…

    Fechou os olhos. Murmurou:

    — Deus lhe pague!

    Like Stones
    I get up, open the dresser’s drawer, hold the pistol
    I had given her as a gift. This crap might not work,
    it was never used, the bullets are old…I won’t use
    the automatic, it would mutilate her, and I want her
    dead looking like an angel.

    Você sabe o que é ter um amor, meu senhor?
    ter loucura por uma mulher,
    e depois encontrar esse amor, meu senhor,
    nos braços de um outro qualquer…

    Meus lábios se movem, nenhum som…sou um dos cinco maridos enganados que conheço,
    hoje foi apenas uma variação do que aconteceu ontem, anteontem? Inclino para a frente,
    tento perceber a respiração da mulher. A natureza do acaso…é isso, puro acaso, não
    devia ter encurtado minha viagem…sentira medo antes de embarcar, não do avião, algo
    indefinido…premonição, descobrir que o presente destruirá o passado? mas as
    lembranças continuam, nada é tão simples…o que é mais forte, amizade ou amor?…o
    que dizíamos? mulher de meu amigo é homem, só no…me dá raiva das risadas quando um
    de nós mencionava isso..que boçalidade.. ríamos…mas agora…pimenta no cu dos outros
    é refresco, isso sim!.. quero esmigalhar o copo de bebida na minha mão, sentir dor, ver
    sangue…

    se acaso você(eu) chegasse,
    no meu chatô encontrasse
    aquela(minha) mulher…

    Deitada à minha frente, cabeça pousada sobre o braço estendido, vontade de acariciar
    seus cabelos…os calmantes fizeram efeito, por que ela não engoliu o vidro todo? as
    mulheres, fortaleza, as minhas infidelidades nunca a abalaram… as dela, quantas? me
    aproximo, minha mão se move, paro, receio de acordá-la, não resistiria a uma cena…
    logo ele, meu grande amigo, na minha cama com ela… tudo se desenrolara com civilidade,
    eu indo para a sala acendendo um cigarro, dando tempo para ele se vestir, sair…não
    deixara ela falar, colocara as mãos nos meus ouvidos, parecia uma criança repreendida,
    vira seus lábios se moverem, depois a sua boca abrir e fechar, nenhum som, por que era eu
    que sentia sentimento de culpa? Dizem que os mortos falam conosco, as vozes deles nossa
    consciência… o presente não importava, não podia ser desfeito… nem o passado…

    amores eu sei,
    na vida eu achei e perdi,
    mas nunca ninguém desejei
    como desejei a ti, se tudo acabou…

    Acabou mesmo? continuo com ela? e se ela me abandona? passo a mão pelos meus
    cabelos… será que sou forte o bastante para enfrentar os…? dou um gole, olho o
    líquido, nunca soube definir a cor do uísque, coloco o copo no chão, quantas vezes já
    ouvira: não sei se bebo porque eu larguei dela, ou se bebo porque ela me largou… mas
    beber agora não vai me tornar alcoólatra… se ela é tua, é minha também…minha
    e dele? me levanto, abro a gaveta da cômoda, seguro a pistola que dera de presente para
    ela, essa droga capaz de não funcionar, nunca fora usada, as balas são velhas… fecho o
    tambor, ridículo, assassinato e suicídio fracassados por causa de balas velhas, não
    usarei minha automática, calibre muito grosso, a mutilaria, a queria morta parecida com
    um anjo…estremeço, abro a janela, jogo a arma longe, ouço a queda em cima do telhado
    da garagem… tento o contato com o presente… como tudo isso é banal… os pés firmes
    no chão, os pulmões a expandir-se, a contrair-se, saber que ao colocar um pé diante do
    outro eu poderia caminhar de onde estava para onde quisesse ir… euforia intensa me faz
    sentir revigorado, macho, muito macho, vivo…demência? sinto medo, engulo a bebida, me
    sirvo de outra… mas assim como um passo leva a outro, um pensamento decorre do anterior,
    moto contínuo, infinidade de caminhos, imagens, talvez assim eu consiga chegar a algum
    lugar sem sair daqui… sinto-me tonto (um tonto)… largo ela, desisto de tudo, mudo de
    cidade, faço novos amigos, outra mulher, liberdade… olho para a mala ao meu lado…
    liberdade também é um cativeiro… voz dentro de mim… tu não é macho? por que não
    deu uma surra no cara, tu podia com ele, e ela? tento responder à voz, mandar ela parar,
    retornar ao silêncio… sussurro, balbucio…

    vingança, vingança, vingança clamar
    ela há de rolar qual as pedras
    que rolam na estrada…
    …grito de dor…

    To Be or…
    To go back is always bad, the way through the mind’s door
    is painful, he would need to live twenty, thirty more years
    to find out who he was, why was he here in this precise moment.

    O ronco do motor irritava seus ouvidos, o veículo balançava com violência, as costas
    dele doíam, o pessoal da oficina nunca obedecia, ponham menos pressão nos pneus, ele
    recomendava, nada feito, em obra o que mais ouvia era sim, senhor, ainda não
    descobrira se era burrice, teimosia ou indisciplina, mas isso agora pouco importava, sim,
    senhor, sim, senhor, era o que queria ouvir daqui instantes, Deus faça eles
    obedecerem, rezava…

    — O que, Doutor?

    …sim, senhor, sim, senhor, ele balbuciara…

    O frio que entrava pelas frestas da casa de madeira o fez estremecer, detestava o frio.
    De pé olhou para ela, fizera um viagem de 20 horas para me encontrar, um bocado de chão
    do Rio até à beira do rio Iguaçu, acariciou seus cabelos, percebeu ligeiro sorriso no
    rosto, como posso retribuir tamanho amor, como pude abandonar os meninos, a brisa e o
    mar, a estética urbana do meu Rio, como…sabia que esses momentos sombrios não o
    largariam pelo resto do dia, não haveria maneira de livrar-se deles. A zoeira das
    perfuratrizes o trouxeram à realidade, vestiu a calça jeans, camisa e japona, calçou as
    botas surradas, elas o acompanhavam há anos, o capacete também, o tipo de vida que
    levava o fez supersticioso.

    Última olhada nela, fechou a porta com cuidado, entrou no fusca, acionou o motor, as
    grelhas pousadas na cerca levantaram vôo e sumiram no meio dos pinheiros, o céu azul,
    muito azul, desprovido de cortina poluidora machucou-lhe a vista, colocou o Ray Ban, o ar
    puro penetrou nos pulmões, tossiu, acendeu um cigarro, o estômago doeu, pegou o rumo da
    cantina, uma data se projetou em sua mente, 12 de abril, o rio estaria na sua cota mais
    baixa, a segunda fase do desvio a ser executada, ele, o poder absoluto, faria acontecer,
    ele, o poder máximo, comandava cinco mil operários, ele, o mágico, dispunha de milhões
    de dólares em equipamento, ele…as mãos se crisparam no volante, a respiração
    ofegante o fez jogar o cigarro pela janela, naquele preciso instante a sensação de
    felicidade o envolveu com irresistível doçura.

    — Quase chegando, doutor.

    As palavras do motorista o irritaram, já fizera cem, mil vezes esse caminho, duas,
    três vezes por dia, uma eternidade, da residência ao canteiro da obra, ao longe a visão
    noturna assustadora, dezenas de luzes piscando através da bruma do vale, bruma, poeira?
    não dava para distinguir, o martelar das perfuratrizes penetrava nos ouvidos, o ronco
    entrecortado dos scrapers e tratores completava a harmonia, com certeza foram
    nesses sons que Schönberg se inspirou ao compor suas dissonantes sinfonias, ou talvez
    Thelonious os usou nas suas peças jazzisticas, começou a rir, diletante das artes, o
    pessoal zombava, não me incomodo, até gosto, a todo momento ele citava escritores,
    compositores, diretores de cinema, era o modo que dispunha para espantar a reclusão…

    — Que foi, doutor?

    Respondeu amável:

    — Loucura da minha mente, qualquer dia te digo.

    Como explicar que deixara para trás centenas de CDs, estantes cheias de livros,
    dezenas de vídeos e isolar-se neste fim de mundo? não saberia como, para alguém
    entender teria que desvendar seu passado, o passado estava longe, enterrado num país
    balcânico, na herança bíblica iniciada com o êxodo do Egito, oculto no peso atávico
    irremovível, escondido na sabedoria do Torah, meu pai, meu pai, você não me libertou,
    impôs a sua autoridade, o dilema na minha alma de engenheiro errante e de meus reais
    anseios ainda perdura, me pergunto se não cometi tolice ao te obedecer, a hipocondria que
    atola meu ser é insuportável, me sinto acabado, meu sistema nervoso não foi feito para
    essa quantidade de afecções deprimentes, pouco estéticas, me perco em mim mesmo, tateio
    atrás de mim mesmo, um cão atrás de seu próprio rabo….

    — Doutor, como vai acabar essa bagunça?

    Sentiu secura na boca, depois de dezenas de cigarros perdera o paladar, seus dentes se
    atritavam ao pó de pedra misturado à saliva, a estrutura da barragem despontava
    ameaçadora de dentro da rocha escavada, o ritmo incansável da concretagem, o som
    metálico dos vibradores, o vaivém dos scrapers vindo da jazida, os tratores
    empurrando blocos de pedra, tudo pulsava ao redor, do fundo do canal de fuga sentia-se
    todo poderoso, tinha certeza, 12 de abril, 12 de abril…

    — Doutor!

    O encarregado interrompeu o devaneio.

    — Os meganha fuzilaram um dos nossos no acampamento.

    Tremia dentro da japona, o frio, o medo, a incerteza, o fizeram febril, sua existência
    eterno desafio, não desafiou seu pai e agora você quer se redimir, repetia sem cessar
    uma voz interior, infantilidade, você é maluco, quer atos heróicos, um possuído pela
    síndrome auto-afirmação…

    — Doutor, estamos quase chegando.

    As luzes do acampamento surgiram à frente, o vidro embaçado tornava fantasmagórica a
    visão, estremeceu, o gulag está próximo, homens sem futuro e com passado
    duvidoso ali residem, amontoados em quartos com beliches, sem lazer, sem mulher, homens
    que pegam no pesado, salário mínimo como recompensa, no entanto são coração da obra,
    os entendia mas nada fizera para mudar o status quo, seguia as regras, eu também
    luto pela sobrevivência, Deus meu, qual era o mal da embriaguês, a bebida é refúgio,
    anestésico do desespero, visão fugidia do nirvana, Deus, Deus, onde está Vossa
    misericórdia, mataram uma das suas ovelhas…

    — Doutor, olha o fogo, tocaram fogo.

    O tenente da milícia o recebeu cortês, senta doutor, permaneceu de pé, o
    relato verbal fora sucinto, o elemento não obedeceu ordem de parar, avançou
    ameaçadoramente em direção ao praça, este não teve alternativa e atirou, infelizmente
    ocasionou a morte do elemento, mas, tenente um embriagado? seria fácil subjugá-lo,
    doutor, temos que impor a ordem, despediu-se seco, conseguira promessa da milícia
    permanecer no quartel nas próximas 24 horas, confronto tinha que ser evitado.

    A caminhonete atravessou o portão, parou no pátio, saltou, Sete Léguas, o baixinho
    espécie de mascote o puxou pela manga, doutor, socorro, viu sangue escorrer pela
    face, olhou ao redor, rostos amedrontados o fitavam, doutor, eles bateram em nós, nós
    dormindo, nós que tavam no chuveiro, na casinha, em todos, todos…vidros
    estilhaçados, portas arrombadas, um vaso de louça partido, a luz morna dos postes
    envolta em fumaça confundia as sombras, levem os feridos para o hospital e apaguem o
    fogo, ordenou, não ouviu o sim senhor, aproximou-se do destacamento, mosquetes
    em posição de tiro, o tenente à frente arma em punho.

    — Fizeram arruaça, doutor, rece…

    Quis voltar ao passado, mas qual deles? tinha tantos, voltar à dolce vita do English
    school, ao verão na Côte d´Azur, no tempos do bombardeio da Luftwaffe
    sobre Londres, ao pecaminoso prazer de Copacabana, voltar às polpudas per diem do
    pai, às perdidas amizades do clube de remo, ao exílio imposto no interior de Minas, mas
    só a lembrança da falência material da família o perseguia, voltar é sempre ruim, o
    caminho através da porta da mente é doloroso, teria que viver mais vinte, trinta anos
    para que pudesse saber quem era, porque se encontrava aqui nesse preciso momento, o mundo
    que cresci era melhor do que esse em que vivo hoje…

    —…bemos ordem, tivemos que controlar a situação.

    Sentiu medo, viu os operários aglomerados ao redor, formara-se um ringue, rostos não
    mais amedrontados, apenas curiosos, alguns sorriam, o verdadeiro inimigo sou eu, candangos
    e milicianos, a classe inferior, os oprimidos, represento o patrão, responsável pelas
    suas vidas miseráveis, alçapão do destino, o morto nada significa para eles, nascem com
    a morte, vivem com a morte, já mataram, já enterraram filhos, irmãos, pais atingidos
    pelo desleixo da sociedade, ele acendeu um cigarro, queria ganhar tempo, queria não estar
    aqui, os outros tinham razão…

    O jantar farto servido por garçom de libré não apetecia, ela sentada ao seu lado,
    conversava animada com os outros dois, diretor e assistente recém chegados do Rio, que
    sapato elegante a senhora calça, veio visitar seu marido? ele merece, seu futuro está
    garantido, a próxima viajem a senhora fará com o nosso jatinho, traga também um dos
    filhos, não, não, é promessa, o que acha da nossa residência? verdade, é luxuosa mas
    temos que agradar o pessoal do governo, aliás, deve dar um puxão de orelha no seu
    marido, ele depenou a todos no pôquer, sim sei, sabemos que ele é competitivo,
    concordamos, tem que ser para enfrentar…ele odiava essa conversa fútil, não a
    recriminava, fazia o seu papel, jamais conseguira disfarçar o desagrado no seu rosto, já
    lhe disseram inúmeras vezes, cara, vê se se manca, tua cara agride…tentara
    debater o incidente da tarde, desconversaram, isso acontece, não esquenta, obra é
    assim, coisas da vida…

    O homem irrompeu na sala:

    — Doutor, invadiram o acampamento, tão sentando o porrete em todos, doutor…

    Ele levantou-se, apanhou o capacete, vestiu a japona.

    — Leva arma — escutou.

    — Me acompanham?

    Cabeças se abaixaram.

    Ela o olhava com carinho, o rosto dela parecia dizer, não tenha medo, estou ao seu
    lado, você é homem, meu homem, o filme passou pela mente dele, via-se com ela na praia
    onde sempre passavam nas suas folgas, estavam deitados na areia, suas faces encostadas
    ardiam uma na outra, o contato o enchia de um desejo como jamais sentira…amava aquela
    mulher, com uma ânsia devoradora de posse, sentiu-se envolvido pelo odor de seu corpo,
    mexeu seus lábios em silêncio, um beijo sem o tocar dos lábios…

    — Doutor…

    …duas tragadas no cigarro, jogou-o no chão, pisou em cima com a bota.

    — O combinado, tenente?

    Os grossos bigodes desafiavam.

    — Viraram um carro.

    — Não me parece que agiu de modo inteligente.

    Sentiu logo que não usara as palavras adequadas.

    — Me desculpe o palpite — falou sem firmeza — talvez meu pessoal
    exagerou.

    A sua posição, sabia, enfraquecera, sentiu seu rosto tenso, esfogueado, a roda de
    homens aumentava, o olhar dos candangos mais incômodo que a arma apontada, ele o
    perdedor, o bobo da corte, merecia estar nesse fim de mundo, pai, pai, veja o que fez,
    isso é ser engenheiro? judeu não foi talhado para ser John Wayne, Gary Cooper, é meia
    noite, não meio dia, High Noon está longe, droga, isso é hora para pensar em filme? olhou
    por cima dos ombros do homem à sua frente, um pelotão de vinte meganhas em fila dupla,
    cassetete numa mão, mosquete na outra, rostos indecifráveis na sombra dos capacetes,
    não tinha dúvida, obedeceriam cegamente qualquer ordem, serão analfabetos? com certeza,
    de onde são? irmãos de origem e da ignorância em confronto, ele o intelectual
    regredindo a primata, de que te serve todo esse saber? viu-se estendido no chão,
    sombras em volta, cochichos, não quero padre, não… o som seco do engatilhar o
    assustou.

    — Tenente, guarde sua arma.

    Ouviu tosses, ouviu risadas, o homem à sua frente parecia divertir-se, colocou a mão
    sobre a arma apontada, por favor tenente, o suor escorregou da nuca dentro da
    camisa, isso não é jogo de pôquer, seu idiota, nem um romance de Paul Auster, lá
    vou eu com essa mania, sua mente invocou Deus e Demônio, os ruídos longínquos da
    obra não são trombetas dos santos alados, desista, ninguém liga para essa baboseira,
    sentiu-se um tolo, ele apertou os dedos, a mão armada cedeu, virou o rosto, deu tempo ao
    tenente para guardar o revolver,

    — Tenente, mais um favor, manda seu pessoal baixar os mosquetes.

    O cerco dos homens cada vez mais próximo o sufocava, odor de suor e cachaça entrou
    pelas suas narinas, sentiu ânsias de vômito.

    — Tenente, obrigado. Agora dê ordem de meia volta volver.

    Pés se arrastaram sobre pedriscos, odor de suor e cachaça mais próximo.

    — Tenente, o pessoal tá cercando.

    Sim senhor, sim senhor, voz solitária, depois mais outras, todos em coro, teve
    vontade de gritar: parem! parem! não agridam! mas permaneceu calado, imóvel, sabia que a
    exclamação coral não passava de deboche jocoso dirigido a ele, sorriu, ainda vou levar
    a melhor, olhou o relógio, duas da madrugada, ainda faltavam cinco horas para mudança de
    turno, escutou a ordem dada pelo tenente, viu a tropa retirar-se em silêncio pelo
    corredor humano aberto no meio dos operários, esperou o último meganha sumir na noite,
    colocou um cigarro entre os lábios, apagou a chama do isqueiro, chamou um dos
    encarregados:

    — Junta o pessoal!

    — Sim senhor.

    — Todos pra revezar o turno da noite!

    — Mas, doutor, se me permite…

    O movimento da mão dele calou o operário.

    — Todos!

    — Sim senhor!

    Sorriu, jogou o cigarro aceso no chão, o apagou com a bota.

    Sim, senhor!

    The Indian
    Sitting on the Turkish bed the traveler unbuttoned his shirt,
    loosened the belt, looked on the broken mirror in front of him,
    a face of tired traits, darkened, three days without shaving.

    A manhã despontou, o sol subiu célere um salto acima do horizonte, a terra cobriu-se
    de ouro e calor, vento leve ergueu-se, ar com gosto de poeira veio refrescar as mãos no
    volante do homem suado e cansado, a estrada solitária seguia no além…

    …ao meio dia o vento cessou, o dia explodiu como melancia madura, suco morno e
    sufocante escorreu pelas costas dele, deu-se conta do tédio, do cansaço, a terra quente
    esmagada pelo sol exalou sopro abafado, impregnou-o com o odor do seu próprio suor
    misturado com o cheiro dos gases do escape da caminhonete, deu-se conta de repente do
    cansaço, de que estava a caminho do nada, fugindo do tudo, lembranças lentas subiram
    dentro dele, uma pedra pela garganta, respiração acelerada, sorriso crispado, vômito,
    despejou o fétido pela janela, acendeu um cigarro, engasgou-se com a fumaça, o fôlego
    enfraqueceu, aspirou golfada de ar, peito roncou, barriga da perna tesa, mãos
    insensíveis, olhos abertos como para a morte…nada, nenhum amor, um deserto infinito de
    solidão, sua última cartada?…

    …parou na porta do boteco, entrou…

    …café, água…

    …sombras indicavam presenças, imobilizados o olharam, o homem de trás do balcão
    colocou copo com café fumegante e garrafa de água à sua frente, o viajante cuspiu
    saliva seca no chão de terra.

    — Vem donde?

    — Mombaça! E aqui?

    — Carira — respondeu uma sombra. — Vai pra donde?

    — Poço Verde! — falou o homem sentado numa mesinha.

    O recém chegado olhou:

    — Como sabe?

    — Essa estrada acaba lá, depois só o rio…mais uma! — bateu com o copo na
    mesa, ninguém se moveu.— Quem é você?

    O viajante virou-se, ondas de sangue subiram-lhe às têmporas.

    — Sei quem é — continuou o homem da mesinha — É um deles,
    chupa-sangue.

    Diante do olhar sombrio do outro, ele viu o ambiente de repente com cores brilhantes, o
    cenário deprimente clareado.

    — Não liga pra ele, moço — falou um dos presentes. — Diz isso pra
    todos os de fora…

    —…o caboclo me deu guarida — a voz monocórdia devolveu o mal estar ao
    viajante.— O cachorro dele era louco, tinha que ser morto…

    —…não quis atirar pra não gastar chumbo — falou uma das sombras.—
    Aí…

    —…amarrou dinamite no pescoço do bicho — continuou outra. — Esticou o
    pavio…

    —…o bicho quase desfalecido, como podia saber? acendi o pavio, o danado se
    reanimou e correu de volta pra casa, que nem vento… o casebre explodiu, morreu o bicho,
    a mulher, o caboclo endoidou, correu aos berros, a alma penada dele vagueia por aí…

    O viajante estremeceu.

    —…o índio —, falou o homem de trás do balcão — diz que chama ele,
    diz que é a alma do bicho, da mulher, do caboclo, tudo junto, lá da beira do
    precipício, manda ele se jogar de lá, mas aqui é tudo liso que nem mesa de bilhar.

    Em algum lugar uma porta bateu, o eco lúgubre aumentou mais o silêncio.

    — Fantástico demais, coisa de…

    —… chupa-sangue?

    — Vampiro!

    — Sim — falou o da mesa — conheço a historia dele…

    —…e quem não conhece? Ele…

    —…o recém-nascido e ela pela catinga, o peito dela murcho e seco, pegou a
    peixeira e se cortou, bem ali na veia, a criança sugou o sangue, foram encontrados, ela
    morta, ele vivo…agora tá crescido e anda por aqui… o moço é ele?

    O viajante encostou-se no balcão, respirou tudo que o mundo lhe oferecia de estranho e
    solitário naquele momento, a solidão na pobreza desse local, terrível miséria…

    — Não pode ficar aqui — escutou.

    — Eu a amava — falou o viajante com esforço — Marta…

    …a conhecera há alguns meses, atraído pela sua beleza e elegância, rosto de menina
    num corpo alto e cheio, lábios pintados a faziam parecer com uma deusa desenhada, mas com
    um ar longínquo e impassível, ele vislumbrara o futuro através dela, toda a força do
    seu desejo se fixara nela, sentira isso como um milagre, tornara-se amante dela no mesmo
    dia… com os braços ao longo do corpo, uma das pernas semidobrada, deus solitário
    atirado em um mundo estranho, ele a desejava…não gosto que me olhem quando estou
    dormindo…querida, que mania sua!…não me chame de querida… de costas para ele,
    conhecia esse hábito dela, agora isso o irritava, colado à ela, apalpava o ventre, os
    seios, ouviu ao longe
    choro de criança, miados, os postes da rua iluminando o quarto, de quando em quando carro
    passando, cheiro de feijão cozinhando vindo da rua, baforadas pesadas…desde ontem
    você está estranha…sacudiu os ombros dela, ela ainda imóvel, a escuridão de
    repente espessa…aquele sujeito de ontem, foi teu amante?…sim e não, não de
    todo…ele não disse mais nada, lembrou-se dos gestos, das palavras, dos sorrisos,
    cerrou os dentes…quantos amantes?…não aborrece, uns dez…conheço
    eles?…alguns…vontade louca de acender um cigarro, acariciar a bunda dela, não
    ousou, esfregou a testa no ombro dela…escute, minha amada, promete me dizer o nome
    deles, dos outros que não conheço também, se os encontrarmos vai mostrá-los…ela
    atirou-se pra frente…essa não!… um carro buzinou, uma vez, duas vezes, a luz
    do relógio digital piscava, sentiu frio…se eu não souber cada cara que encontrar
    vou me perguntar, vou imaginar… nomes, o último era alguém que conhecia,
    conquistador inveterado, a sordidez do amor fácil, induzido, ela e aquele filho da puta,
    sentiu um nó na garganta, algo no estômago o corroía, a penetrou com violência…é
    assim que ele fazia?…ah!…cale a boca!… mãos poderosas apertaram a garganta alva
    e alongada…

    — Quer um quarto? — falou uma das sombras.

    Sentado na cama turca, o viajante desabotoou a camisa, afrouxou o cinto, olhou-se no
    caco de espelho à frente, rosto de traços abatidos, escurecido, barba de três dias,
    cabelos despenteados e grudentos, poeira e suor, duas rugas profundas entre as
    sobrancelhas, olhou em volta, tabique sujo e repugnante, geografia de imundície, universo
    de miséria, inspecionou os lençóis amarronzados, viu um fio lustroso de sujeira caindo
    do teto, detritos de mosca colados nele, uma lâmpada pendia ali.

    O viajante deitou-se, adormeceu.

    Despertou suando, amarrotado, acendeu um cigarro, cabeça oca, olhou às calças sem
    vinco, na boca mistura do amargor do sono e do cigarro, coçou-se debaixo da camisa,
    suavidade terrível diante de tamanha solidão e abandono, longe de tudo, diante dele
    surgiu a imagem secreta e vergonhosa da liberdade nascida da morte, da fuga, à sua volta
    lama, minutos monótonos…

    Bateram na porta com violência.

    — Vem! Ele nos espera!

    In the original these short stories were entitled respectively "Os
    Pombos," "Uísque com Soda," "Há de Rolar Qual as Pedras…,"
    "Ser ou…," "O Índio,"

    Iosif Landau, 76, was born in Bucharest, Romania, in 1924. He moved to
    Brazil in 1941 and four years later became a Brazilian citizen. Landau is married and has
    three children and eight grandchildren. Graduated in engineering in 1949 he has worked
    throughout the country building roads, railroads and hydroelectric. He is now settled in
    Rio. After retiring in 1992 he started to write, publishing several novels and poetry. He
    loves movies, jazz and violin concerts. You can contact him at iosif@pobox.com

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