Fable

    Fable

    —I never make a mistake. —Then it was the hooded ones’ mistake. —Not possible. —Weren’t they getting orders from you? —They were—command 3549 scratched his head. —They never get mad or rebel themselves? —Never. —Why? —Because they were born underground, I’ve already told you that.

    “Alguém certamente havia caluniado Josef K, pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum”.

    Franz Kafka

    Certa noite os encapuzados tocaram a campainha da casa do homem, e perguntaram à empregada que lhes abriu a porta:

    —Onde está o seu patrão? O que ele está fazendo?

    —No escritório, pensando—respondeu ela.

    —Então não tem erro. Vá e chame—comandaram.

    O homem chegou à porta e, educadamente, cumprimentou os encapuzados.

    —Nosso ar condicionado pifou—falou um deles.

    Os outros em eco.

    —Pifou, pifou, pifou.

    —Não estou entendendo—disse o homem.

    —Nem precisa. Vamos.

    —Mas não sou técnico de ar condicionado, e ir para onde?

    —Nosso ar condicionado pifou—repetiram, seguraram o homem, colocaram uma venda nos seus olhos, e partiram de carro, levando-o.

    Depois de uma longa viagem, o carro estacionou em frente a um castelo. Os encapuzados empurraram o homem para uma sala branca enorme, com janelas altas, tiraram a venda dos seus olhos, e disseram ao gordo sentado a uma mesa comprida circundada por cadeiras vazias:

    —Aqui está ele. A empregada falou que estava pensando.

    O homem dirigiu-se ao gordo.

    —Boa noite, deve ter havido um engano. Quem é o senhor?

    —Como, não sabe quem eu sou?—respondeu o gordo, que suava em bicas e se abanava com uma folha de jornal.

    —Tenho certeza que nunca fomos apresentados.

    —Agora já me conhece.

    —Mas gostaria de saber o seu nome.

    —Comando 3549.

    —Houve um engano, comando 3549, não entendo nada de ar condicionado.

    —Não houve, é você mesmo o homem. A sua empregada disse que estava pensando.

    —Mas todo mundo pensa. O senhor não pensa?

    —Claro, mas penso diferente, de acordo com eles.

    O homem apontou os encapuzados, de pé, em volta da mesa.

    —Com eles?

    —Claro que não! Com os comandos mais altos.

    —Então o pensamento não é seu, é deles.

    —Mas é meu também.

    —Por que lhe disseram ou porque o senhor acha?

    —Porque me disseram. Está querendo me ofender?

    —De modo algum, querendo me esclarecer.

    —É isso que atrapalha.

    —Está sugerindo que eu fique nas trevas?

    O comando deu um murro na mesa.

    —Estou dizendo que não seja imbecil, e coopere.

    —Mas… cooperar em quê?

    —Consertar meu ar condicionado.—O suor descia pelo seu rosto balofo, molhava a sua camisa.

    —Já disse que não entendo do assunto.

    —Mas devia porque estou precisando. Não estava pensando?

    —O que tem a ver ar condicionado com o que eu pensava?

    —Então diga uma coisa—comando 3549 colocou uma fita no gravador.—Que língua é essa?

    O homem ouviu atentamente.

    —Não conheço.

    —Como não conhece? Não estava pensando?

    —E para pensar é imprescindível conhecer todas as línguas? O senhor disse que pensava e também não conhece.

    —Claro, penso o que estou pensando.—Parou a fita, olhou o homem, sacudiu os ombros—Ignorante! O senhor pinta?

    —Não.

    —E se pintasse, o que pintaria?

    —Se eu fosse um artista talvez soubesse.

    —Por que talvez?

    —Porque um artista não é obrigado a saber o que vai fazer.

    —Se não é um artista, como sabe?

    —Porque conheço vários, já li muito, vi muito, ouvi muito.

    —E isso basta para conhecer o artista?

    —Não, mas dá algumas informações importantes.

    —Por que só algumas?

    —Porque não sou pretensioso.

    —Não poderia pintar com essas informações?

    —Não se pinta com informações. É necessário alguma coisa mais, algo que nasce com a gente mas nem sempre se descobre logo, muitas vezes fica em estado latente.

    —Estado latente… claro! Claro! E comando 3549 é um posto muito importante, não sabe?

    —Evidente—disse o homem sentindo que a situação piorava.

    —O senhor já descobriu o seu estado latente? Já devia saber.

    —Não sei o que não faço, o que não aprendi, o que não li. Só sei o que sei, no mais não me intrometo e quando quero me informar pergunto respeitosamente. Posso fazer uma pergunta?

    —Depende, perguntar é correr risco.

    —Eu corro. Quem são eles?—O homem apontou para os encapuzados que continuavam em pé, um ao lado do outro, em volta da mesa.

    —Pergunta inteligente. São meus homens.

    —Por que os capuzes?

    —Porque não resistem à luz, nasceram debaixo da terra.

    —E os olhos à mostra?

    —Para cumprir minhas ordens, de mais ninguém—disse comando com empáfia.

    —Por que não se sentam à mesa, tão grande, cercada de tantas cadeiras vazias?

    —Porque o comando sou eu. Eles não precisam sentar, estão só para receber ordens.

    O homem irritado.

    —Foram feitos em fábrica?

    —Como feitos em fábrica?

    —Preparados em alguma fábrica especial?

    —Está sugerindo que sou burro?—Comando 3549 deu um murro na mesa.

    —Absolutamente!

    —Não sabe que homens não são fabricados?

    —Bem… no início não.

    —Como no início?

    O homem se conteve.

    —Ignorância minha.

    —Só ignorância mesmo. E eu que determinei que eles o trouxessem por ser inteligente… Agora duvido.

    —Devia duvidar, ter certeza—falou o homem esperançoso.—O senhor se enganou.

    —Nunca me engano.

    —Então o engano foi dos encapuzados.

    —Também não.

    —Não estavam recebendo ordens suas?

    —Estavam—comando 3549 coçou a cabeça.

    —Nunca se irritam ou se revoltam?

    —Nunca.

    —Por quê?

    —Porque nasceram debaixo da terra, já disse.

    O homem voltou a insistir.

    —Por que, então, a mesa comprida e tantas cadeiras vazias?

    —Porque sendo só minha, em cada momento sento na cadeira que quiser.

    —Existem outras mesas grandes assim, com cadeiras vazias?

    —Não—falou o comando orgulhoso, sacudindo a pança.

    —Então tudo tem a ver com o número 3549.

    —Como?

    —Questão de cadastro. Na medida em que o número do cadastro diminui, diminui também o tamanho da mesa, o número de cadeiras. Acho que entendi.

    —Entendeu o quê?—comando 3549 estava curioso.

    —Que a mesa do número 1 não precisa ser grande, mas tem que ser especial.

    —Não entendi, explique rápido.

    —Que os encapuzados somente estão em volta da mesa maior, e que ao chegar aos números menores a situação se modifica. O número 1 não pode matar diretamente—o homem parou, corrigiu.—Não pode poluir diretamente. Conhece o número 1?

    —Conheço.

    —Já falou com ele?

    —Por enquanto não, é muito ocupado. Por que tantas perguntas? Quem faz as perguntas sou eu—berrou comando 3549, martelando de novo a mesa com as mãos fechadas.

    —O número 1 não pode poluir ostensivamente—repetiu o homem mesmo sabendo que o perigo aumentava.

    Comando 3549 não entendia de poluição.

    —Não sou o número menor, sou comando 3549. Minha mesa é muito maior porque sou muito importante. Não vê quantos encapuzados estão às minhas ordens?

    —Claro que sim, claro que sim, posso perguntar onde o senhor nasceu?

    —Por quê?

    —Questão de curiosidade. Eu nasci nesta cidade… bem… bem… na verdade não sei onde estou. E o senhor?

    —Eu sou de Paralapiacopeba. Conhece?

    —Não.

    —Nunca ouviu falar?

    —Nunca.

    —Se é inteligente, como não conhece Paralapiacopeba?

    —Especialmente.

    —Especialmente por quê?

    —O número 1 do cadastro conhece?

    —Claro que sim.

    —Tem certeza?

    —Claro porque é claro, e tenho certeza porque tenho.

    —Eu não teria. Os encapuzados conhecem, não é verdade?

    —Evidente, eu contei, são obrigados a saber.

    —Paralapiacopeba é longe demais.

    —Como sabe se disse que não conhece?

    —Se o senhor está aqui agora, se é cadastro 3549, e sua mesa é a maior de todas, significa que a situação é inversamente proporcional ao número 1 do cadastro, e diretamente proporcional à distância de sua terra natal. Ou seja, se o senhor está aqui agora, é que Paralapiacopeba deve ser tão pequena e tão longe, que nem consta do mapa. O número 1, na certa nasceu ali na esquina—o homem deu uma gargalhada, depois pôs as mãos no rosto, sentindo que o cansaço e o absurdo da situação começavam a interferir em sua sanidade mental.—Entendeu?

    —Claro que sim, não sou burro.

    —Então por que não aceitar?

    —Aceitar o quê?

    —Que não posso consertar seu ar condicionado.

    —Mas pifou—comando enxugou o suor do rosto na manga da camisa.

    O coro repetiu:

    —Pifou, pifou, pifou.

    —Mande chamar um técnico, é a melhor solução.

    —Mas quem estava pensando era o senhor, e precisamos, também, de alguém que entenda de línguas e de pintura.

    —Por quê?

    —O porquê não sei, só sei que precisamos.

    —Mas também não sou poliglota nem pintor—o homem fez menção de sentar-se, estava exausto.

    Com o indicador, comando 3549 apontou o homem para os encapuzados, que deram um passo e socaram o seu estômago.

    —Para não se meter à besta, ninguém senta na minha frente, exijo respeito—falou comando.—E me diga uma coisa, pelo menos entende de charada?

    —Depende.

    —Me diga: qual a cor do cavalo branco, do filho de Napoleão? E uma velhinha toda enrugadinha, passa, passa, passa é, quem não adivinhar tolo é? E cachorro no choco, cachorro late?

    —Não sei nenhuma.

    —Como não sabe se todo mundo sabe?

    —Quem é o todo mundo?

    —Ora… o mundo inteiro, os todos.

    —Os todos são os todos de Paralapiacopeba?

    —Claro que não. De Paralapiacobepa sou eu só.

    —Então, quem são os todos?

    —Os encapuzados, por exemplo.

    —Mas eles nem são os todos, e nem são de Paralapiacopeba, ou são?

    —Claro que não, nasceram debaixo da terra. Como o senhor tem memória curta!

    —Então como sabem a resposta das charadas?

    —Porque eu ensinei, charada é muito importante. Se eles sabem por que o senhor não sabe nenhuma?

    —Exatamente por isso.

    —Mas é tão simples!

    —Exatamente por isso—repetiu o homem.

    —É assim tão burro? Então, como estava pensando?

    —Sou burro mesmo, um asno, e vai ver nem estava pensando—o homem sentiu ser aquela a sua última chance.

    —Vou lhe dar as respostas : é branco, é passa, é chocolate.

    —E se não for?

    —Mas só tem que ser.

    —E se eu disser que nem sempre o cavalo é branco, a passa a velhinha, e o choco chocolate?—O homem estava consciente que deixara passar a sua última oportunidade.

    —Mas tem que ser, já está determinado.

    —E se existir outra verdade, a que está por trás do cavalo, da velhinha, do cachorro?

    —Não pode, eu determino, e determino aos encapuzados, ao senhor—comando 3549 levantou-se bufando, sacudindo o corpo, os braços. Voltou a sentar.

    —Mas isso é falta de lógica.

    —É lógica porque eu determino, quero e posso determinar que é lógica.

    —Mas lógica é coerência.

    —Está duvidando da minha cultura?

    —Claro que não. É uma questão de conhecer o terreno antes das estacas serem plantadas.

    —Isso é verdade—comando 3549 levantou-se de novo, dando pulinhos de satisfação.—É isso mesmo, conheço engenharia e jamais plantaria meus pés em terreno movediço. Lógica é nunca errar.

    —Não é assim. Pode errar sem perder a lógica, e pode perder a lógica sem errar.

    —Se errar num campo de batalha, perco a lógica.

    —Se errar num campo de batalha, pode perder é a vida. Num campo o que existe é a técnica comandada, o resto atrapalha.

    Comandos são muito sensíveis a envolvimento, por isso 3549 continuou aceitando o absurdo do interrogatório invertido.

    —Por que atrapalha?

    —Porque quem vai para a guerra são os encapuzados.

    —Mas os encapuzados não podem pensar, só obedecem.

    —Por isso mesmo é que vão.

    —Está querendo dizer…

    O homem não esperou o fim da pergunta.

    —Que a culpa deles é relativa.

    —Não foi isso que eu ia perguntar.

    —Se o senhor fosse lógico teria perguntado se já jantei.

    —E o que tem lógica a ver…

    O homem interrompeu.

    —Tem a ver com o meu estômago. Me pergunta, me pergunta—insistiu descontrolado.

    —Já jantou?—perguntou o comando, sem entender por que se submetia àquela situação.

    —Não. E o senhor?

    —Já.

    —Então onde está a sua lógica?—perguntou o homem.

    —O que tem a ver lógica com o estômago?

    —Tudo. Tem a ver que a lógica para o estômago é uma questão de fome. Se ele não tem mais fome, morre.

    —Ele quem?

    —O estômago, e o dono do estômago, claro.

    Comando 3549 ficou tão furioso que derrubou todas as cadeiras ao redor da mesa. E berrou histérico.

    —Quem pensa que eu sou? Quem está pensando que é? Está incluído no artigo 5654445577788770086765438797. Levem esse filho da mãe—gritou para os encapuzados.

    Os encapuzados levaram o homem para a torre do castelo, e o atiraram em uma jaula, onde ficou sem alimento, sem água.

    Um mês depois, comando 3549 subiu à torre, entrou na jaula, e disse ao homem.

    —Vai fazer um teste de inteligência—jogou-lhe um impresso, uma caneta.—São 50 páginas com 20 perguntas em cada uma. Total: 1000 perguntas. Tem um segundo para responder cada uma. Os encapuzados se encarregarão do controle.

    Começar—disse um encapuzado.

    Olha o tempo—disseram todos eles.—Olha o tempo—repetiram espetando o homem com pontas aguçadas.

    —Entregar—disseram em coro, continuando a sangrar o homem. Tiraram o impresso das mãos dele e o entregaram ao comando 3549.

    —Seu resultado—disse comando 3549, ao homem emborcado em um canto da jaula.—Quero ser justo. Vou dar o resultado do seu teste _ repetiu.—Não quer saber?

    Nenhuma resposta.

    —Não quer saber?—voltou a perguntar comando 3549.

    Nenhuma resposta.

    —Seu resultado—insistiu o comando, não se importando com o silêncio do homem.—O senhor disse a verdade : não é técnico de ar condicionado, nem pintor, nem poliglota, nem inteligente. Qual a sua defesa?

    Nenhuma resposta.

    —Qual a sua defesa?—insistiu.

    Nenhuma resposta.

    Comando 3549 virou o corpo do homem com o pé.

    —Era burro mesmo, e não sabia de nada. Como perdi meu tempo!

    This short story is called “Fábula” in the original. Maria Helena Whately, its author, was born and lives in the neighborhood of Leblon in Rio de Janeiro. She’s graduated in Journalism and Geography and has retired from her work as geographer at Fundação IBGE, where she published several technical papers. She also taught geography at Rio’s Universidade Gama Filho. In 1998, Whately published the novel Os Seios de Eva ( Editora Record—Rosa dos Tempos). She has just released a new novel, É Assim Mesmo, through Editora Razão Cultural. Rosa Rainha, her new short story book, will be released in 2001. You may contact the author by e-mail at helenawhately@angelfire.com

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