The Alley’s Vampire

    The Alley's Vampire

    Pretty thing are you, I thought cynically, coveting
    the gorgeous young fascist and his toys, among them
    a stunning blonde wife, a psychologist graduated from Objetivo College,
    ideal height and weight, according to Vogue and
    way too worried about being a perfect hostess.
    By Márcia Denser

    A não ser pelo filme japonês em cartaz, não havia nenhum interesse em sair com
    aquele sujeito, poeta, que se ostentava como "maldito" só para poder filar seu
    canapezinho de caviar nas altas rodas. Um guru de fachada, meio sobre o charlatão
    cósmico, adepto que era de uma esotérica seita oriental, babaca como tantas outras, e
    usando tudo isso em proveito próprio. Pelo menos não era burro. Disso resultavam as
    sessões de massagem transcendental nas madames com hora marcada, ou mesmo sem ela, ao
    sabor das prisões de ventre, dores de corno e outras piorréias. Não era mesmo burro.
    Feioso, devia viver faminto de carne fresca mas, passando-se por espiritual, ia tirando
    suas casquinhas. A conversa era inconsistente, cheia de expressões pedantes e, até pela
    sintaxe, tão emaranhada em meandros que obviamente não levavam a parte alguma, notava-se
    a eterna fome do cara. Uma espécie de vaga ansiedade piedosa de algo que rodeia e rodeia
    aquilo que seria um alvo não tivesse ele em mira outra coisa. Por exemplo: enquanto sua
    boca passeava pela evolução da energia cósmica, seus olhos hipnotizavam-se (bem como
    toda a sua alma) num ponto qualquer entre meus seios, e a energia cósmica ia e vinha,
    subia e descia, jamais se perdia, evolava e se desenrolava, mas não chegava a nenhum
    lugar, uma vez que o verdadeiro objeto daquele papo estéril permanecia fora de alcance. A
    arenga também seria hipnotizante: eu me sentia como uma criança birrenta que não quer
    dormir ou um animal relutante em cair na armadilha.

    O tal filme japonês fora realmente bom, um monumento poético, um estudo profundo
    sobre as paixões humanas, etc. e assim eu poderia falar sobre ele ad nauseam, mas
    o Poeta apenas emitiu suas impressões assim: "É barra! Que barra! É uma
    barra!" dizendo-as de maneiras diferentes e impostando a voz num diapasão enfático
    que partia da traquéia, explodindo num ruído seco e rouco, feito um peido bucal, e como
    se a palavra "barra" contivesse, não digo o significado de todo o universo,
    mas, pelo menos, de todo o filme. Isso no fim da fita. Durante esteve todo o
    tempo tentando pegar no meu braço. Um verdadeiro saco. Então eu me perguntava: por que
    sair com aquele cara? Era desses feriados tediosos, todos os amigos queridos, todos os
    sujeitos interessantes, todas as amigas disponíveis viajando, restando os neuróticos, os
    chatos e os vampiros na cidade. Já era uma boa razão. Depois, eu apenas desconfiava de
    tudo isso, ainda não configurara uma imagem nítida do Poeta na minha cabeça. Na hora
    "H" fico possuída duma puxassaquice pânica por agradar, mais preocupada com o
    efeito que com o objeto propriamente dito. Posso acabar fascinando Drácula em pessoa, sem
    dar pela coisa. Daí me livrar do monstro já é outra estória.

    Como nesses clássicos de horror, ao sairmos do cinema "um vento gélido
    açoitou-nos os ossos". Confesso que não fiquei surpreendida quando o Poeta sugeriu
    passarmos no seu apartamento para pegar um pulôver, coitadinho. Antes tentei aliciá-lo
    para uma cave de queiaw6kx e vinhos, mas ele não entrou. Também não queria ser grossa ou
    passar por retrô ou sei lá. No fundo, no fundo, estava querendo ver até onde ia o meu
    fascínio—e eu sei onde vai o meu fascínio—com o Poeta. Sabe-se lá.

    No apartamento (não fosse pelo excesso de cartazes politicosos, até que bem jeitoso.
    Um tanto "artístico-displicente" demais, eu acho, como tantos outros onde eu
    estivera, de poetinhas, atores de teatro, bichas. São todos iguais. Deve ser a fada
    madrinha) eu aproveitei meu fascínio ao máximo. Munida dos meus trabalhos, submeti o
    Poeta a uma intermitente sessão de leitura dos melhores trechos por umas duas horas.
    Minhas estórias são boas, mas lidas assim, no tapete, bebendo um bom vinho tinto, um
    fogo aqui dentro, ar-condicionado, almofadas e mantas peruanas, música suave e um sujeito
    querendo me comer ali do lado, não há talento que resista. Então, ele me
    submeteu a mais duas horas de suas poesias, aliás inéditas. Se fossem boas até
    que valeria o esforço, o fascínio, a atenção fingida (tinha ganas de estourar de rir
    cada vez que ele pigarreava, afivelando um ar circunspecto, como se preparando para ler um
    discurso, um obituário, um testamento, enfim, algo muitíssimo sério), o vinho, aquele
    apartamento, o filme japonês, os feriados, aquelas profundas crateras que lhe sulcavam o
    rosto, o ligeiro cheirinho oleoso e adocicado que se desprendia delas, a mania de falar de
    si próprio na terceira pessoa, como se fosse um fantasma, o fato de ser careca de um lado
    só, daí o cabelo restante se amontoar num topete atrás da orelha esquerda, enfim, mas
    não eram. Não eram mesmo. Ocas, delírios vagos, desconexos, de um concretismo de
    cabeça dura e reticências. Na mesma construção e com a mesma ênfase conviviam
    vísceras e sangue, cosmos e eternidade, como se essas palavras não significassem nada
    além de meros sons poéticos convencionais. Quando a coisa começava a esquentar, ele
    sempre botava as tais palavras definitivas como Deus, Espaço, Eternidade, Morte, e
    esquecia as preposições, tornando tudo assim delirantemente obscuro, como se possuísse
    uma chave, um código para sua decifração. Para os leigos, as garotas bonitas e os
    novosricos, quanto menos se entende mais a coisa deve ser boa. Palavras bonitas é igual a
    idéias bonitas. É gongórico, é elementar. O Poeta conhecia muito bem esse princípio e
    aplicava-o até à exaustão. A minha, por exemplo. Na verdade, algumas eram até
    sofríveis, mas parece que o sujeito tinha um cadeado no cérebro. Estava prisioneiro.
    Não se enfrentava. E se começava a botar a mão na merda, lá vinha ele com seus deuses
    e demônios antissépticos, para levar todos os pecados. Pelo menos os dele. Se achava que
    os tinha. Ser feio, por exemplo, era um. Equilibrava-se definindo-se "pedante e
    sofisticado". Supunha-se, dessa forma, inacessível. Enganava só os trouxas.

    Na conversa, Poeta mencionou uma festa. Amigos intelectuais, etc. Então vamos, me
    animei, e fui emergindo das almofadas, procurando as botas debaixo do sofá, espantando
    cobertores, relanceando um olhar melancólico para as garrafas vazias, mas ele me reteve.
    Ainda não, disse, fixando-me um olhar tigrino cor de petróleo. Era como um aquário, a
    exposição, atrás do vidro córneo, do que havia no interior de suas espinhas mortas:
    óleo diesel.

    O pequeno deus Caracol, o deus dos covardes, deve habitar em mim, pois foi ele que me
    fez encolher, puxando consigo todas as terminais nervosas, todas as sensações de prazer
    e dor, toda alegria, todo pranto, e me transformar num penhasco árido, num terreno baldio
    entregue às varejeiras, aos cacos de vidro, lixo, mato ralo, aos cães vira-latas, e aos
    teus beiaw6kx, Poeta.

    Uma zoeira distante no ouvido, uma sensação incômoda nas costelas, a boca seca
    avisaram-me que bastava. Fui me desprendendo aos poucos. Tarefa, aliás, bastante
    embaraçosa. Eu diria hilariante, se não fosse parte ativa. Parecíamos atores de um
    filme do Harold Lloyd. Eu puxando de cá, ele de lá. Um escorregão providencial da minha
    parte (estávamos em pé) decidiu a contenda. Fomos à festa.

    A primeira coisa que chamou minha atenção foi que o dono da casa—por sinal, um
    belíssimo rapaz—usava, atadas na manga da camisa, duas fitas de seda nas cores da
    bandeira nacional. Assim como os rapazes da TFP, a juventude de Hitler, os pupilos de
    Mussolini. Como um ungido, a marca da distinção, do bem-nascido, bem-dotado, bem rico, a
    nata, a perfeição e vocês fora! E viva Nietzsche e o quarto Reich, logo, o General
    Pinochet, Idi Amin, Pol Pot, Gengis Khan e a Revolução de 64. Puxei-o pela manga: o que
    é isso? Sorriu com seus olhos azuis de água doce: Não é um belo país? É. Olhei a
    mesa: vinhos franceses, queiaw6kx suíços, baixela húngara, guarnições de renda
    austríaca, charutos cubanos, vodca russa, cigarros americanos. Belíssimo país. Belo
    mesmo é você, pensei cinicamente, cobiçando a belezinha de jovem fascista e seus
    brinquedinhos, entre eles uma linda esposa loura e psicóloga formada pelo período da
    tarde do Cursinho Objetivo, altura e peso ideais segundo a revista Claudia e
    preocupadíssima com seus encargos de anfitriã (repetiu neuroticamente a noite toda que
    "a previsão falhou" a propósito de haver terminado o queijo de nozes antes das
    duas da matina). E os intelectuais? Da "festa" constavam exatamente dez pessoas.
    Além dos anfitriões, eu e o Poeta/Profeta, havia um outro casal composto de um sujeito
    enorme, estilo Cro-Magnon, filho de general, com o curioso nome de Ciro, faixa preta em
    caratê e que me foi apresentado como um pintor maravilhoso, porém desiludido (o pessoal
    devia ser positivamente cego) e cocainômano ativo, acompanhado por uma garota misto de
    Dama das Camélias e Madrasta da Branca de Neve: profundas olheiras azuladas, cabelos
    crespos e negros acentuando oleosamente o rosto pálido, ossudo, lunar, quase
    transparente, usando uma camisa branca também transparente (seios nada transparentes) sem
    sutiã e, a chamar a atenção de todos para os seus pés feridos pelas sapatilha de
    bailarina? Não sei. A cidade está cheia desses cursinhos de balé e bordado,
    freqüentados por jovens em idade de casar e manter a forma. Para compensar as festinhas
    movidas a vinho, coca e mau humor de suas excelências, seus namorados, pelos quais elas
    são capazes de se foder por toda eternidade, em troca de um sobrenome enganchado no rabo
    e um apartamento nos Jardins: os homens têm as angústias, as mulheres, os interesses, e
    por aí vai. Roger, o intelectual oficial, amigo do Poeta de proveta, um sujeitinho
    magricela, insignificante, (essa palavra é enorme!), apagado na minha memória,
    acompanhava uma cooperante do governo americano junto ao Brasil, uma garota da Califórnia
    com cara de porto-riquenha. Ela deveria detestar aquela cara tropical, a pele morena,
    cabelos negros cortados rente, como se pagando uma pena, os olhos escuros feito morcegos
    assustados, encolhidos no fundo da fisionomia. Que fazer se sua mãe havia pulado o muro
    do México? Roger, o colonizado, desmanchava-se em atenções para com o produto de Tio
    Sam, mas eu imagino que, para ele, bastaria qualquer coisa, uma lata de sopa CampbelI,
    digamos. Que representasse a civilização, a cultura superior, etc. Razões
    inconfessáveis. Não via nela apenas uma garota assustada num país estranho. Assim como
    eu não enxergava o aspecto repugnante do meu guru-poeta. Tampava o nariz, os olhos, a
    boca, e o engolia em nome de uma vaidade idiota. Presentes também um par de primos
    dentuços e noivos que se despediram cedo. Eu aposto que pra ver televisão e se agarrar
    no sofá.

    A madrugada evoluiu naquele apartamento neoclássico, com ativa movimentação de
    garrafas de vinho, rodadas de coca, camembert rançoso e conversas idiotas. Já estava
    amanhecendo e restavam os donos da casa, Ciro, Branca de Neve, Poeta e eu, já me sentindo
    completamente onipotente. Sentimento provavelmente compartilhado por todos, uma vez que a
    conversa girava sobre vida extraterrena, enquanto Brinquedinho raspava com uma pazinha de
    sorvete os restos de pó grudados no bumbum da garota na capa da revista Playboy.
    Excelente anfitriã. Belo Fascista inquiria o Poeta:

    —Você, Klaus, que é um cara ligado nessas coisas, e entende paca, já deve ter
    tido revelações, não?

    —Bem—começou o outro—pode-se dizer que nós (falava sempre no plural,
    aludindo estranhamente uma cumplicidade invisível. Quem sabe com os deuses) chegamos a
    fazer vários contatos realmente inexplicáveis, eu diria, por exemplo, quando morreu a
    Dorinha…

    —A Dorinha não morreu trovejou Ciro, olhos vidrados numa faca de cortar frios.

    —Talvez sim, talvez não condescendeu misteriosamente Klaus—muitos de nós
    já chegaram a…

    —Besteiras, não há nada—cortei.—Estive lá em cima e vi: estão todos
    mortos.—E voltando-me para o meu anfitrião:—Um trechinho de seu autor
    predileto, beleza…

    —Como?—Belo Fascista arregalava os doces olhos azuis.

    —Ela divaga—Poeta endereçou-me um olhar enviesado—mas como eu dizia, a
    Dorinha…

    —Agora que estou vendo—interrompi novamente. De repente, Ciro e Branca de
    Neve me pareceram estranhíssimos: ele enorme, truculento, ela frágil, meio amalucada…

    —Vocês não têm nada a ver, não é?—Sorria para ambos como abençoando-os.
    Klaus, desorientado, arreganhava os dentes, desculpando sua convidada.

    —Terrível, terrível—arfava Branca de Neve.

    —Pensando bem, acho que a garota tem razão—Ciro não tirava os olhos da
    faca,

    —E como é que vocês tre…—Um violento cutucão do Guru, debaixo da mesa,
    fez-me engolir o resto da frase.

    Depois disso, fui mergulhando cada vez mais fundo num burburinho ácido e
    esbranquiçado. As frases se sucediam de cá para lá, e eu as acompanhava como bolinhas
    num jogo de pinguepongue, apenas como bolinhas, que não são nada além de bolinhas
    brancas.

    Levantei-me e fui até a janela: É isso, pensei, sufocar a ressaca, afogá-la na boca
    cinzenta e azeda da manhã como num cesto de roupa suja. Esse é o preço pago pela droga
    consumida durante a madrugada, porque a droga tem o segredo que afoga a náusea, o
    vômito, a acidez desse vinho escuro injetado nas veias desde a noite anterior, então, ao
    amanhecer, foi puxada a descarga, sentido um só tranco, o estômago a brecar e a gemer no
    alto de um prédio no Pacaembu e isso foi quase tudo. Quase porque eu ainda não
    terminara…. /… Porque o vazio, após a descarga, é insuportável. O vaso sanitário
    ficar deserto e se tem medo de tornar a usá-lo e infectar o mundo inteiro. A náusea que
    se instala expulsa a razão, amedronta as palavras, e eu precisava falar que daquela
    madrugada ficou um gosto arrepanhado de sal de fruta, a efervescência cinza pérola do
    antiácido diante dos olhos e uma tristeza secreta e corrompida por me saber mole,
    dobrável, e ainda uma vez voltar a fazer coisas que não quero, não preciso, não
    desejo, todavia o álcool e a droga me levam lá, uma espécie de morte incluída nos
    serviços de buffet; a cada episódio eu morro, e eu morro, e eu morro de novo, e volto a
    me assassinar, porque contar essa estória é o mesmo que atacar a mesma mulher há anos,
    violentamente, por trás, e como se ela fosse virgem, então, o toque no ombro, o hálito
    amanhecido às minhas costas: Klaus. Haviam escurecido a sala. Silenciosamente, colocou-me
    o casaco e, na condição de irmãozinho mais velho, carregou-me para longe daqueles
    perigos. Seu apartamento, por exemplo.

    Lembro de um café da manhã numa mesa com toalha de plástico, e um enorme
    queijo-de-minas. Eu estava chapadíssima, achando o queijo muito engraçado e porque não
    podia aparecer em casa de modo algum naquele estado. Klaus, este então parecia esmagado
    sob o peso da recompensa. Ele tinha mesmo uma cara amassada de vilão do faroeste depois
    da última briga, versão piorada entre Jack Palance e John Carradíne. Cara picada pelo
    ressentimento e pela varíola, obtinha dormir com a mocinha sem mais aquela. Era demais.
    Ele vai brochar, pensei.

    Havia sol, mas estava frio e úmido e Poeta, muito solícito, uniu duas camas gêmeas,
    cobriu-as com mantas, enquanto eu me despia, obedientemente, cumprindo um ritual sem
    escapatória, filha de Maria, sacerdotisa de Astarté, coroinha alimentado e fodido
    secretamente pelo padre, eu obedecia, apenas. Fiquei de bruços, fechei os olhos,
    pensando: o prazer puro, o prazer puro. Não poderia ver aquele rosto agora, seria
    insuportável, seria inconcebível, e eu acho que ele me ficou agradecido. Mesmo assim
    não conseguia. Estava submerso em droga e alcóol, uma chaga viva de excitação que
    pulsava e gemia, rilhando os dentes, pobre animal sonâmbulo imaginando-se um ser humano
    de carne, ossos e fezes, se esvaindo entre minhas nádegas numa tortura aplicada de
    movimentos ineficientes; uma vez que ele não conseguia, o animal depositava-se como um
    pedaço morto de carne fria junto ao meu corpo. Vamos liquidar isso, pensei. Sentia-me
    cansada, nauseada, azeda. A excitação esticava-se como um cordão frouxo contudo sem
    arrebentar. Vi pela janela a manhã alta, cor de magnésia, e disse: chega, vamos dormir.
    Às minhas costas, ele desabou, barraquinha de campanha, como se o tempo todo estivesse
    aguardando a ordem que o libertasse da prontidão. Segundos depois ressonava
    eloqüentemente. Adormeci pensando onde havia me metido, aquele apartamento de solteiro da
    Alameda Casabranca tinha algo a ver com um túmulo, gente adormecendo ao nascer do sol,
    falta só o punhal de prata, mas, por alguma razão maluca, não queria ir para casa e
    não queria ficar ali. O sono me colocou no lugar certo. Estaria sonhando com um
    jardineiro espanhol ou com tesouras, não sei, e acordei salgadamente sentindo algo vivo
    se mover, quente e alerta, entre minhas coxas. Pulei da cama, como se impulsionada por
    retrofoguetes: fugir, pensava, fugir, correr, vomitar, se vestir. E fui apanhando os
    destroços das roupas atiradas pelo quarto. Ao subir as meias, espiei com o canto do olho
    a cara atônita, amassada de Klaus, parecendo um pedaço carbonizado de casca de árvore
    na brancura de areia dos lençóis. A boca entreaberta não ousava protestar, articular
    nenhum som, com aquele ar de bagre estúpido, aquele ar de fóssil humano: a qualquer
    palavra minha, viria a réplica de bernardo-eremita na voz de fariseu sufocado e eu não
    queria deixar nada claro. A coisa, naquele pé, já parecia suficientemente ridícula, uma
    pornochanchada sinistra: ele, de pau duro debaixo das cobertas, cara de idiota, observando
    a mocinha se vestir num desespero vertiginoso, como se perseguida por Jack, O Estripador.
    Faltava vestir o casaco e me lancei para fora do quarto. Uma empregada velhíssima e cheia
    de varizes abriu-me a porta da rua. Desci pelas escadas. Nem cogitei estar no 15° andar.
    Alcançando finalmente a rua, parei ofegante. Porra, estava livre. Leve. Livre. Comecei a
    rir sozinha: até que fora bem gozado. Cambaleante e feliz, ri por dois quarteirões. As
    pessoas se voltavam, espantadas. Um perfume de pãezinhos frescos me atraiu para uma
    padaria cheia de colegiais e empregadinhas. Mastigando um enorme sanduíche de presunto,
    pedi ao vendedor a lista telefônica. Forrando página por página com lascas de pão
    fresco, procurei o número de Belo Fascista. Não sabia por que, mas precisava salvar a
    noite. Alô, uma vozinha sonada gemeu do outro lado. Reconheci Brinquedinho. Escute,
    princesa, falei, diga ao seu marido que preciso fazer uma substituição (era necessário
    ir direto ao assunto, nada de formalismos idiotas com a família e os cachorros.
    Tratamento de choque). O quê? A voz prosseguia estremunhando. Uma outra, de homem,
    metralhava abafadamente qualquer coisa. Era seca e urgente; falando aos soquinhos parecia
    martelar ordens. Brinquedinho explicava confusamente algo sobre a namorada de Klaus e uma
    substituição. Afinal, era uma objetiva formada pelo Objetivo. O que está havendo? Belo
    Fascista pegara o aparelho. Parecia um bocado irritado. Expliquei da melhor forma. Por
    fim, convidei-o para tomar café da manhã comigo, ali, na Padaria Flor de Lys, que ficava
    na rua… Pedi para esperar na linha enquanto ia ver. Quanto retomei o fone, apenas o
    ruído de discar respondeu melancolicamente ao meu apelo. Belo Fascista não tinha mesmo
    nenhum senso de humor. Tão bonitinho, murmurei cheia de pena. O pão terminara e enquanto
    esperava o troco, espiei meu rosto no espelho da balança. Borrado de rímel preto, o
    rouge coloria mais a face esquerda, olheiras azuladas. Igualzinha Branca de Neve. Esfregar
    o dedo acentuou a palidez, mas servia. Ainda não dava para espantar as crianças. Na
    saída, resolvi comprar outro sanduíche para ir comendo no caminho. Esquentara e eu
    amarrei o casaco na cintura—um casaco lindo, de veludo caramelo—e o pessoal
    continuou me encarando. Sempre comendo o pão, fui subindo a rua cheia de árvores
    verdinhas e rendilhada de sol. Lembrei de uma passagem de Faulkner no Som e a Fúria.
    Afinal, alcancei a Avenida Paulista suando e arrotando salame. Em frente à Casa
    Vogue—que não é mais a Casa Vogue—tentei pegar um táxi. Nada. Decidi ir
    andando. Até o Paraíso são quatro quilômetros, mas no plano. Achei razoável. Entrei
    no Jardim do Trianon. Um pouco de ar puro, pensei, ecologia, patos, marrecos, galinhas,
    desocupados. Ecologia. Comprei um saquinho de pipoca. Um garoto de seus 17 anos atirava
    farelo aos perus—detesto esse ar superiormente abestalhado que têm as aves em
    geral—e perguntei a ele se valia atirar pipoca. Lógico, disse, e enfiando a mão no
    meu saquinho, retirou um punhado e atirou-o aos bichos. Era um encanto de garoto, um
    ninfeto dos bosques, cabelos alourados de sol e piscina do clube, a camisa xadrez aberta
    exibia o peito liso, moreno e uma medalhinha de San Genaro. Perguntei se era italiano. Meu
    pai, respondeu sorrindo. Falava com simplicidade e delicadeza. Como se fosse a coisa mais
    natural do mundo topar num domingo com uma garota, às onze da manhã, cara toda borrada
    de pintura, casaco de veludo amarrado nos quadris, um pão semicomido na mão, um saco de
    pipoca na outra. Ele era a própria manhã: jovem, fresco, belo, puro. Me senti mal.
    Queria lavar o rosto, tomar um banho, convidá-lo a passear comigo no Ibirapuera, que é o
    maior parque que eu conheço, sei lá onde. Melhor ir andando. Ele ficou olhando eu me
    afastar com simpatia, assim, também sem perguntar nada. Uma névoa de cansaço descia
    sobre o jardim. Senti-me longe, minha casa longíssimo, o apartamento de Klaus ainda mais
    longe, em outro país, outro tempo. Ajeitei-me num banco de pedra limosa e dormi. Um
    segundo depois acordei: alguém me cutucava as costas com um objeto duro e pontudo. Outra
    vez, pensei. Mas era só uma vassoura e o homem devia ser o zelador do parque. Percebi
    vagamente que anoitecia.

    —Levaram sua bolsa e seu casaco, dona, é bom dar parte na polícia—falava
    com uma voz monótona, anasalada, repetindo sempre sobre o roubo e a polícia.

    —Pra que a vassoura?—murmurei idiotamente, ainda aturdida pelo sono. O corpo
    dolorido.—Meu casaco e a bolsa?

    —Você tá mal, hein? Deu moleza, já viu, nego passa a mão mesmo, acho bom dar
    parte na…

    —Já vou, já vou.—Como fazê-lo calar? Estiquei as pernas. Intactas ainda
    minha calça de veludo e a camisa de seda. Bem, foi-se, pensei. No que deu o vampirismo
    poético. Judas, o obscuro, estaria agora em seu lindo apezinho ouvindo Beethoven e
    jantando carneiro ensopado com legumes, preparado por Lady Varizes, a copeira. Aquela cara
    amassada, descomposta, mastigando a sobremesa, aqueles olhos duros, machucados, e o animal
    adormeceria tranqüilamente entre seus panfletos comunistas, fumando cigarros mentolados.
    Era demais. Vomitei espasmodicamente num canteiro de hortênsias. Resolvi voltar para
    casa. Lá pagariam o táxi. Então lembrei: estavam todos viajando. Todos os amigos, todos
    os sujeitos, todas as amigas, etc. Eu estava sem a bolsa, sem as chaves, com frio, fome e
    precisando de um banho. No táxi, suspirando, dei o endereço de Klaus.

    The original title of this short story is "O Vampiro da Alameda
    Casabranca". It was originally published in Muito Prazer—Contos Eróticos
    Femininos, Editora Record, 1982, 98 pp.

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