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Elections in Quibocó

Elections in Quibocó

Mardoqueu is made out of fine French bread dough. White and lean like a
baguette. The press used to call him Pole. But all his friends—and in the political
middle he thrives friend and foe are all the same—call him Doctor Shit.
By Dioclécio Luz

Continued from the last issue

5, A OPOSIÇÀO

Eram só três. Um casal, Jesuíno e Vanalva, e mais um contra, Agápito.

O padre Leonardo olhou para os dois e virou a cara. Conhecia aquela corja—viviam
provocando brigas na cidade. Lembrou que uma vez Vanalva foi lhe procurar. Era de noite, a
noite estava assim, explodida de estrelas, e a lua fazia pantim antes de invadir o negrume
do teto. Vanalva veio com aquela conversa besta. Coisa mais cheia de imoralidades. A
danada queria rezar uma missa para as raparigas.

—Mas de jeito nenhum!—arrebentou padre Leonardo.—Uma missa para as
putas? Aqui?! De forma alguma.

Vanalva se calou, só reparando na balbúrdia que fazia o tal. Dentro da batina tinha
um homem se esbravejando. Suava dentro do seu sotaque italiano. "O sotaque deve
cansar o sujeito, essa fala emborcada, cheia de macarrão, deve mexer com as fezes que
residem na cabeça desse enrolador", pensou Vanalva, espetando sua avaliação diante
do escândalo do padre.

—Tem mais uma coisa, querida: não fica bem para uma moça distinta como você
freqüentar os cabarés da cidade.

—Mas quem disse que eu sou distinta, seu vigário?—debochou a outra.

Leonardo, que é branco, branquinho, todo ele feito da alvura divina, da mesma cor dos
anaw6kx, da pele macia de Jesus, da raça boa que existe na terra, da cor do açúcar de se
fazer bolo de noiva, de tudo que presta sobre o planeta, ele, então ficou vermelho.
Devolveu o tiro: pá!

—Talvez você não se considere como tal. Mas sua mãe, Dona Quitéria, e seu pai,
Seu Hermenegildo, têm-na por pessoa distinta, sim. E o povo tem comentado que você vive
demais no meio das prostitutas. Eles já estão falando que você vai acabar sendo igual
uma delas. E você sabe, não é?, aqui quando se fala uma coisa, ou a pessoa foi, é, ou
será.

Vanalva, nascida ali, mulher que conhecia tudo quanto era lagartixa do lugar, as
pedras, as gentes, também cada pássaro que fazia morada naquela praça, e também os
rios, e as plantas, o vento frio e o quente, Vanalva não perdeu o ritmo. Seu destino era
estar ali. Defensora dos direitos de todos, incluía as raparigas, as putas, não se
estremecia diante de um padre. Um padre de fala escominchada, como se dentro dele
existisse um formigueiro.

Olhou para o tal embaixador do Todo-poderoso e disse, mastigando cada palavra:

—Se é verdade isso, acho bom o senhor prelado tomar cuidado. Andam falando por
aí que vossa eminência é veado. Sei que é boato. Mas, como o senhor mesmo disse,
quando falam uma coisa, a pessoa é, foi, ou será…

A missa acabou acontecendo. Foi o maior rebucetê na cidade. Todas as putas estiveram
lá. Algumas, mais afoitas, foram com a roupa de trabalho, revelando seus decotes, suas
doçuras, suas coxas macias, suas barriguinhas, deliciosas, suas boquinhas melosas, as
mais novas com seus peitinhos de manga rosa e as velhas com as muxibas gastas, comidas
pelo tempo e pela fome dos fregueses, todas com suas dengosidades, rebolados, as bundas,
sim, as miúdas e as maiores, todas conhecidas dos homens, que, ficaram em casa, amarrados
pelas matronas de Quibocó, assistindo televisão, resmungando do tempo, da novela, dos
filhos, do cachorro, da chuva que não vem, do barulho na pia,… Por dentro e por fora:
jiló, para agüentar o papel de moralistas, eles, que tantas e tantas e tantas vezes
foram até elas, e conheceram seus ardores, as xerecas macias, e tomaram três banhos
quando chegaram em casa, não para se livrar da mácula de trair a mulher, mas para tirar
o bom cheiro de mulher de puteiro, suas quenturas, seus saberes, os perfumes de mulher da
vida, de bem com a vida, de fazer felizes os homens dali.

O padre, comedor de galinha alheia, teve que comer aquele sapo. No sermão ainda apelou
para necessidade de se conquistar a salvação através do espírito e não da carne.
Disse da importância das pessoas obedecerem aos dez mandamentos. Finalmente, já
assediado pelo calor dos decotes, pelos lábios carnudos, pela lembrança do ofício
daquelas meninas, pensando na punheta que ia bater mais tarde, Leonardo disse, primeiro,
amém, depois, passe bem.

Correu para sacristia fugindo delas e de si. Sentou-se num banquinho limpando o suor da
cara, e tentando segurar o calor que vinha de dentro e acendia as partes santas entre suas
virilhas.

Agora, naquela Prefeitura calourenta, o padre tinha que agüentar a responsável pelo
acinte: Vanalva. E seu marido, Jesuíno. Foi se esconder na janela, espiando a cidade
suja, os esgotos correndo nas ruas e desaguando no rio onde todo mundo se banhava. Lá
caía o fluido dos miquitórios, os públicos e os privados, armazém de bosta virou o rio
belo, latrina de todos, e de lá se puxa a água que serve ao povo, com seu cheiro de
cocô e agrotóxico. Era um rio sem poesia. Tão sujo que nem a lua mais se refletia nele.
"O rio ficou igual a gente que mora nas beiradas dele", blasfemou Ovídio, tido
como louco por ali, num assombro de juízo. Cuspiu de lado espantando o pensamento
maldito. Não ia este pensar obsceno se querer se grudar nele, feito uma consciência…

Jesuíno tem cara de lobisomem. Sabe como é lobisomem: a cara barbuda, branca, os
olhos azuis que brilham no escuro feito fossem radiativos—e é. Não brinque com ele,
que pode perder a mão se for ladrão, o pé se for bandido. Se o cabra não presta que se
cuide, pode virar líquido. A alcatéia do prefeito, em comparação, é isso: espremendo,
botando num vidro e depois pulverizando na roça, funciona melhor que o tamaron, folidol,
dithane—é veneno dos bons.

Jesuíno, filho de onça pintada com cascavel, não era de muita conversa. Trazia um
aparato policial federal que estava lá fora. Na tocaia.

—Onde está o material de propaganda eleitoral que a Prefeitura produziu?

Eleubório, encarado assim, ciente de que sua proteção policial se resumia a um
delegado meganha que só brigava com ladrão merréi da região, amofinou. Tentou segurar
a lona do circo que ameaçava desabar:

—Não sei do que o senhor está falando…

O visitante meteu a mão no bolso e tirou dois panfletos. No colorido se vê a
arrogância de Eleubório ladeando seu candidato, Abalvino—o cabra está azulado, e
não é por falha de impressão. Mistério que não se solucionou até hoje: porque este
homem tem a pele azul? O professor de biologia do colégio mantém sua tese: parentesco
com a ameba. "Este é um homem de genes limitados", avaliza.

O outro era uma cédula de votação. Igual, cuspida e escarrada, a cédula que seria
usada no dia da eleição. A turma do prefeito iria entregar aos eleitores, já marcadas
com os nomes dos seus candidatos. O eleitor, curralado, seria instruído a guardar a que
recebesse lá, na boca da urna, e depositar na cumbuca essa outra, já prontinha,
arrumadinha, sacaneadazinha.

Jesuíno prosseguiu:

—Descobrimos na capital a gráfica que rodou esse material. Foi paga pela
Prefeitura. Temos até a cópia da nota fiscal. Agora só falta os panfletos… Viemos
buscá-los.

O prefeito remoeu seus poderes. Podia contar com quem ali? Tudo uns bostas. Nem mesmo o
juiz, com seus poderes jurídicos segurava aquela porra. Nem mesmo o delegado, homem de
picar cobra e comer com farofa. Ali era tudo frouxo. Arriscar um escarcéu? De jeito
nenhum. Tinha lembrança de outros insucessos… Mesmo assim, escamoteou…

—Vocês podem olhar onde quiserem. E vão descobrir que não tem o que se
descobrir.

Jesuíno olhou para Vanalva. E, sem se falar, os dois disseram: "está bem, se
esse corno quer assim, vai ser assim…" Deram um berro pela janela e loguinho dois
policiais estavam juntos deles.

—Se nos permite, nesta caça vamos acompanhados

Naquela sala tinha um armário, um bicho de madeira antiga, tão velha que nem os
cupins tinham mais gosto em digerir aquilo. Foram ver lá. Abriram. Papéis. Não eram os
que buscavam. No outro armário, além de papéis encontraram garrafas de cerveja, uma
coruja empalhada, duas pizzas abandonadas da festa de inauguração da prefeitura há mais
de 3 mil anos, um rebanho de baratas, gordas e formais, conversando besteira, falando da
vida alheia, da alta sociedade, jogando cartas, imunes ao tempo e aos homens.

O prefeito sorriu. Sorriu com sua magreza. O bigodinho brilhando.

Seguiram para a outra sala. Eleubório, Abalvino, o juiz, o delegado… Uma procissão.
Vanalva reparou que aí o povo trabalhava normalmente. Jesuíno ainda foi espiar no
armário… Ela desconfiada… Enquanto seu companheiro e os policiais mexiam nos
armários, fuçavam nas gavetas, espiavam nos nichos dali, ela pensava…

Passaram para outra sala… E Vanalva pensou: "não é aqui…" O prefeito,
que tudo olhava, temendo o pensar daquela mulher. Não dava nem para saborear a perdição
dos seus inimigos, daqueles baitolas invasores do seu principado.

Na terceira e última sala Vanalva sentiu que havia algo de estranho. O lugar estava
muito arrumado, limpo, sem o fedor dos ratos e o cheiro pesado do bolor que exala do
suvaco dos papéis quando eles se banham na umidade e depois ficam expostos ao tempo. Ali
mais parecia lugar decente. Cada coisa no seu lugar, cada gente na sua lida limpa, toda
escrivaninha arrumada. E havia uma porta. Uma porta? Sim, mas era da cor da parede.
Pintada recentemente. Encostada a ela tinha uma escrivaninha…

—O que há aqui atrás?—Perguntou Vanalva ao prefeito.

A parede era amarela, meio creme de baunilha, brilhosa. Eleubório ficou igualzinho a
ela. Todo mundo parou, no silêncio, ali, grosso, gelado e verde feito um sorvete de
abacate.

—Atrás de onde?—Perguntou, descrente do que dizia.

Jesuíno sorriu. Parecia que tinham encontrado um dinossauro, vivo, junto de uma
criação de galinhas.

—Ah,… Atrás não é nada…—sofria o prefeito.—Um depósito de
tralhas… Coisas inúteis… Só um buraco inútil.

—Só tem um jeito da gente saber o que tem atrás dessa porta—disse Jesuíno,
insensível ao padecer de Eleubório.—Vamos abri-la.

E tratou de afastar a escrivaninha que tapava a entrada.

—Me dê a chave, seu prefeito—pediu Vanalva.

—Ah, a chave não tem—disse Eleubório, já expelindo a raiva natural que lhe
enche as tripas e as veias, desde que veio ao mundo para ser o que é, um belíssimo
exemplo de ladrão e canalha para o universo.

—Bem, se não tem chave, inventemos outra coisa—diz Jesuíno.

E com um chute na barriga da porta faz com que ela se abrisse despudoradamente.

Lá dentro, o que se esperava, o Apocalipse de Eleubório, a prova de que andava
sacaneando: cédulas, igualzinhas às que seriam usadas nas eleições. Evidências
visíveis. O delegado nem estava mais ali, se escondeu, sumiu—neste dia não foi
visto nem nos puteiros, onde todas as noites, na saída do trabalho, fazia parada antes de
voltar para sua mulher, distinta dama, famosa por suas ações filantrópicas. O juiz
também se escafedeu—dizem que o magro ocultou-se, blasfemo, nas grotas dos ratos que
viviam ali, serenos, senis. Foisembora uma semana, ou pouco menos, o tempo de um boi dar a
voltinteira num pasto de meio hectare, mais o tempo de uma mosca subir e descer três
vezes sobre um prato de comida num boteco de beira de estrada, até que o juiz fosse visto
novamente.

Da corja municipal ficou somente Eleubório, seu candidato, Abalvino, azul celeste,
inocente diante da ruma de papel apontando o crime cometido. "Mais alguns milhares de
anos e seres como Abalvino evoluem até o máximo de organização para espécie, um
fungo"—comentou certa vez o professor de biologia do colégio.

—Seu prefeito, V. Excelência entrou numa fria…—observou Vanalva.

E a Prefeitura de Quibocó, pela primeira vez em sua história foi lacrada, conforme
decisão do juiz eleitoral do estado.

6, AS ELEIÇÕES

Nas eleições em Quibocó os defuntos votaram. Ôxe, se sempre foi assim. Também se
obrigou peão, vaqueiro, servidor público, mestre de obras, pedreiro, agricultor, a votar
como determinou seu patrão.

O prefeito, como se sabe, utilizando seus conhecidos na capital, livrou-se da pena por
fraudar cédulas de votação. Perdido nas instâncias estaduais, o caso foi à Brasília,
onde o Supremo Tribunal Federal, ladino, olhos de raposa, percebeu que outra pessoa, e
não o eminente prefeito, havia feito a maracutaia. Eleubório foi considerado honrado,
limpo, um homem sério.

O único incidente citado nos autos policiais do Segundo Distrito, refere-se à
discussão tida e havida com a participação de Jesuíno e Vanalva. Os dois estavam
fiscalizando o infiscalizável e descobriram um cabo eleitoral do prefeito obrigando o
cidadão a votar em Abalvino.

—Não senhor!—Gritou Vanalva.—Ele vai votar em quem quiser.

—Nada disso, madama, esse cabra tem que votar em quem o patrão determinar, tá
compreendendo?—disse o tal, que era bem mais profissional pistoleiro que cabo
eleitoral.

—Já disse que não vai acontecer—segurou Vanalva.

—Pois então vai ter confusão, tá compreendendo?—alertou o sujeito, puxando
um revólver, que, dizem as testemunhas mais medrosas, tinha metro e meio de
língua.—Se ele não topar eu dou um tiro nele, tá compreendendo? Um tiro na testa,
entre as sobrancelhas, tá compreendendo?

O povo lá, votantes e mesários, quando viram o trabuco do homem, arremedaram para a
rua. Desapareceram. Quase todos. Ali ficou Vanalva. E Jesuíno no meio, tentando segurar
as duas onças. O sujeito, o mote da confusão, estava lá no meiinho disso tudo. Era todo
mundo girando. Uma dança? E quase se agarrando. Um xamego, visse. O bandido aqui, mais
junto de Vanalva, e depois Jesuíno, e o eleitor querendo correr e não podendo, e o
outro, de lado, preparando a mira.

—Se não vota no determinado, ele morre, tá compreendendo? Atiro nele.

—Ah, é? Pois atira!—dizia Vanalva.—Vai, atira que eu quero ver. Atira
se for homem. Tu não é homem mesmo.

O homem do revólver se arrumando, se aprumando, se ajeitando para dar o tiro. O
sujeito, o eleitor, se escondendo atrás do nada. Vanalva querendo agarrar o pistoleiro e
ele se esquivando, ajeitando o tiro. Jesuíno ali, o rume-rume, não sabendo se segurava a
mulher, o bandido, ou eleitor. Na dúvida, deu um salto e antes que o bandido pudesse
dizer ai, ui, arre!, caramba, puta-que-o-pariu, Jesuíno estava ali, de cara na cara dele,
espiando nos seus olhos, matando o homem de susto, vendo o inexplicável—de que mundo
terá brotado tal lobisomem—se perguntando que fazia ali aquela assombração que
ainda há pouco se se misturava com a mulher e o outro, distante. Só pensou isso. Isto
é, não pensou porra nenhuma. Não deu tempo. Quando ele olhou para si estava voando de
costas, derrubado pelo murro de Jesuíno. E ponto final. Porque, ao que se sabe, diz a
lenda, esse aí virou crente no dia seguinte, convertido, falam, em virtude de ter perdido
o cérebro; "foi um choque anafilático provocado por um murro divino", explica
hoje o pastor na igreja. O importante é que o antigo pistoleiro viveu feliz até os
últimos dias, pregando o Evangelho, criticando a violência da cidade, e, finalmente, se
unindo ao padre numa campanha de defesa da tradição, família e propriedade. O que não
faz um murro terapêutico?…

Teve outro murro nessa história.

Foi no comício da situação.

Da capital vieram os companheiros de partido do prefeito. Veio o vice-governador,
Mardoqueu Maziel, e um deputado federal, Sonsinho Carvalho. Tinham nome de gente mas eram
sim gabirus de primeira cepa. Gente que inventou o peido do Cão.

Mardoqueu é feito da massa fina do pão francês. Branco e espigado feito uma baguete.
A imprensa apelidava-o de Poste. Mas os amigos—e na política que freqüenta amigo e
inimigo é a mesma coisa—chamam-no de Doutor Bosta. Por quê? Ora, porque sempre
está em cima, boiando, ao lado do poder. Fede. Mas isso é outra história. Nada que um
desodorante bastão não oculte. Se fez na política colaborando com tudo quanto foi
governo que passou pelo país: se tem Governo ele é a favor.

O outro pústula, o deputado federal Sonsinho Carvalho, tem a pele escura, os cabelos
enroladinhos. Negro. Mas se diz, ele, "queimado de sol", negro jamais. Moreno.
Moreno escuro. "Um deputado que preste não pode ser negro", explicava aos
amigos na sua sobriedade de jaca. "No máximo sou um negro de alma branca",
acrescentava, despudorado, mostrando os dentes brancos onde, ao que parece, guarda essa
sua alma clara. Sonsinho se fez deputado desde os tempos em que não existia o mar. Sempre
foi e será deputado. Elegendo-se com a distribuição de buchadas de bode, alpercatas,
cesta de comida para os miseráveis, promessas de emprego.

Os dois saíram abraçados do carro procurando o comício. Um servindo de estaca para o
outro, bambuzados, bêbados.

—Onde é que é a porra do comício?—todo mundo ouviu Mardoqueu perguntar,
líquido, alcoólico, em frente à praça, onde se ajuntava o povo.

Era lá mesmo. Talvez ajudados pelos guardas, ou pelo demônio, o vice-governador e o
deputado federal, subiram no palanque.

Era Abalvino que falava. Falava? Não. Expelia algo pela boca, um dialeto
extraterrestre ou egípcio…

As autoridades reconheceram os visitantes ilustres. E loguinho tomaram o microfone do
fungo-homem Abalvino.

O locutor era o chefe de gabinete de Eleubório:

—Eis que nos vemos aqui diante da presença ilustrérrima de duas dignas personas,
representantes da nossa ousada política brasileira nacionalista e pós-liberalista…

E por aí seguiu, desenhando, empáfio, o retrato dos ilustres convidados: os dois
crápulas—um estadual e outro federal.

Mas ali não havia distinção. Todo bêbado é igual, como reza a Epístola de São
Mateus; cu de bebo não tem dono, como estabelece o Pentateuco em seu Livro quinto,
conforme o versículo dois, nas palavras de Simão, o besta. Em resumo: autoridades ou
não, os dois não sabiam o que usavam primeiro se a língua ou as pernas.

E Eleubório ao lado, dentro dos seus olhos finos, arregalando os olhos, porque,
esperto, sabia que aquela festa não ia dar certo. Já de olho no caminho de saída.

O locutor fez a besteira de anunciar a presença do vice-governador na cidade. Pior,
entregou para Mardoqueu o microfone.

O vice-governador normalmente não é de falar. Faz tudo nos cantos, nas esquinas, nos
gabinetes. A cerveja, que normalmente ele não bebe, misturada com uma cachaça de beira
de estrada, foram os responsáveis pelo estrago. O homem estava um bagaço.

—Porra!—ele disse, se ajeitando dentro do paletó suado. Uma palavra
histórica. Foi a primeira proferida pela maior autoridade que já passou por Quibocó.

A segunda foi: caralho.

Finalmente conseguiu alinhar uma frase. Infelizmente:

—Eu vim pedir os votos de vocês, seus merdas, para o meu candidato, um bostinha,
porque vocês também são uns merdas, e merecem ele.

Lá debaixo alguém devolveu:

—Merda é a puta-que-pariu, seu corno!

Normalmente Mardoqueu não briga em público, não discute, não polemiza. Quando
alguém lhe perturba, aciona seus parceiros no poder, e o tal, não sendo do mesmo nível,
leva um tiro ou uma facada política, e morre ou cai de quatro.

Mas hoje ele resolveu abrir as portas dos demônios que sempre carregou consigo.

Quando o outro berrou lá de baixo, um baixinho magrelo com jeito de quem come carne de
bode uma vez por semana, o vice-governador não se avaliou, e saiu em disparada, descendo
do palanque para topar com o atrevido.

Segundo as testemunhas, no rol do qual se inclui Seu Leonardo, diretor do Palmeiras
Futebol Clube local, Zé Buzina, dono da melhor oficina mecânica da cidade, doutor
Roberto Galleti, médico do posto de saúde e atleta nas horas vagas, capaz de fazer
trezentos metros em quinze segundos, toda essa gente percebeu que Mardoqueu ia proferindo
a frase célebre, a mesma que Jesus usou quando foi questionado por Pilatos: "Você
sabe com quem está falando?…"

Não deu tempo. O murro veio de baixo, reto, acertou-lhe a cara antes que o
vice-governador tomasse pé do mundo. Devido à sua altura demorou para sair da vertical
para horizontal. Mas, um segundo antes de perder a visão deste planeta, mesmo que fosse
daquele jeito, cheia de luzes extraterrestres e seres gosmentos, Mardoqueu ainda pensou
que tinha errado o caminho, ao invés de descer para a platéia embaixo do palanque, foi
dar num curral, e aí uma mula esganiçada acertava-lhe um coice estratosférico.

Depois disso houve tiros, correrias, mulher gritando, cachorro latindo, o poder local
se escondendo debaixo das mesas de cachorro quente, até que o comício acabou se
acabando.

7, O FIM

Em Quibocó o calor chega todos os dias. No verão, dizem, Deus entrega o lugar ao
diabo e sua trupe conservadora. Mas o Cão, que não é besta, só vai lá, assina o
contrato, e rapidinho abandona o lugar à sua sina de fogueira. Dizem que num desses
verões mais quentes, fez tanto, mais tanto calor, que as pedras se derreteram no meio das
ruas e as galinhas botaram ovo cozido.

Fuxico.

Exagero.

Eleubório tinha bom senso e pele de camaleão para ver que não era tão quente assim.

Jogou o dinheiro para Shirley, profissional das camas e dos aconchegos, e se meteu na
rua onde o povo resmungava do calor.

Olhou para a os bodes comendo capim na praça, e as vacas e os porcos, deitados na
lama. Aquela pintura era do tempo da Renascença. Olhou com compaixão, com tristeza,
benevolente.

—Tudo isso vai acabar—falou, mastigando cada palavra, temendo que o
vaticínio viesse antes do previsto.—Um dia aqui explodirá uma bomba atômica.

As pessoas evitavam encontrá-lo. Achou que caminhava por uma cidade vazia, largada à
sua má sorte. Os antigos amigos ocultavam-se, acrobatas, atrás de bancos de praça,
árvores, cavalos e carroças, postes…

Entrou na barbearia do primo. Vegélio afiava a navalha na madeira.

—Se eu não fosse tão bonito e gostoso mandava me matar—disse Eleubório,
ajeitando seu bigodinho fino e sua magreza diante do espelho.—O mundo deveria saber
como eu sou importante para ele. Bem que eu merecia uma estátua nessa cidade.

—Como a tia Zéldia, e tio Ormundo, e tia Orélia…

—É. Bem que mereço, primo.

O barbeiro espalhou a espuma amarela em seu rosto. Não se falaram por um minuto. Dois.
Três. Com a navalha Vegélio foi cortando os pelos do magro, e o silêncio duro,
rasquento que ameaçava baixar ali.

—E então, primo, eles já tão mandando em tudo, né?

Eleubório se mexeu na cadeira. Foi uma formiga entrando pelo rabo. E mordendo seu
fiofó.

—É—disse baixinho. Mas todo mundo na cidade ouviu porque foi dito com a
raiva com que se geram os demônios.

E veio novamente o silêncio. Vegélio ficava incomodado com aquilo. Falou besteira:

—Eles pegaram a Prefeitura mas não a nossa alma, primo.

Eleubório, que tentava se achar no espelho, levantou os olhos para o outro:

—Não pegaram a alma porque há muito tempo não temos mais, primo—disse,
resignado. Foi o único instante de sua grande e magrela e devassa vida nesse planeta em
que foi sincero.

—O fato deles terem vencido as eleições não quer dizer que nos
venceram—insistiu, falando besteira, o outro. Mas com justificativa—tinha pavor
ao vazio. E ainda mais que não se ouvia nada ali. Nem de fora vinha som. Nem os pássaros
cantavam mais. O que eles conversavam, imaginou Vegélio, dava para se ouvir na cidade
vizinha. "Vamos falar mais baixo", pensou.

—Não. Eles não nos venceram—disse Eleubório olhando-se no espelho. Viu:
seus olhos estavam lá. Sinal de quem ele estava bem vivo. Era um pavor antigo, de menino:
um dia olhar-se no espelho e não se vê. Mas, mesmo com a derrota, ele permanecia vivo.
Magro, aquela magreza rebelde, comunista, e com bem menos amigos, mas, vivo.

O outro acordou-o do devaneio:

—E o processo que lhe movem?

Tava feio, ampliara-se: corrupção, extorsão, apropriação indébita, uso dos
recursos da Prefeitura em campanha eleitoral,… Ao contrário do que era tradição, seu
advogado perdia em todas as instâncias, seu nome caía num buraco, uma fossa. A
contragosto, engolindo devargazinho aquele batráquio, respondeu, mentindo como sempre,
voltando à normalidade:

—Está tudo sob controle—disse. Mas loguinho voltou a ter medo porque no
espelho, ele viu que não existia, não existia mais nada.

The original title of the this short story is "Eleições em
Quibocó". From the book Gente Sobrenatural, published by the author, November
1997, Brasília.

Dioclécio Luz, 47, is from Serra Talhada in Pernambuco’s backlands. He
is a journalist and a writer. Among his books there are Gente Sobrenatural and O
Diabo Modernista. These short story books can only be bought directly from the author.
Luz has contributed to weekly newsmagazine Veja and daily Correio Braziliense.
You can contact the author at dioclecioluz@bol.com.br

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